Ao longo do século XX, marcado por conflitos globais e tensões ideológicas, os Papas desempenharam um papel decisivo ao reafirmar que a paz não é apenas um objetivo político, mas uma exigência moral. Suas intervenções, feitas em momentos críticos, revelam uma linha contínua de defesa da dignidade humana, da justiça e da reconciliação. Entre os pontífices desse período, Bento XV, Pio XII, João XXIII e Paulo VI deixaram contribuições fundamentais para a compreensão contemporânea da paz.
Durante a Primeira Guerra Mundial, Bento XV tornou-se uma das vozes mais firmes em favor da paz. No auge do conflito, afirmou que, desde o início de seu pontificado, empregara todos os meios possíveis para que as nações retomassem relações cordiais. Suas ações incluíram oração, exortações públicas, propostas de mediação e esforços para aliviar o sofrimento causado pela guerra.
Ao comentar o armistício de 1918, Bento XV descreveu o cessar das hostilidades como algo pelo qual o mundo inteiro suspirava. Para ele, o fim da matança abria “o caminho para a paz”, mas não resolvia automaticamente os desafios que viriam. Pediu que se implorasse a misericórdia divina para que o grande dom recebido — a interrupção da violência — fosse coroado por decisões justas e duradouras. Após o conflito, exortou a humanidade a abandonar a amargura e a cultivar o amor mútuo e a concórdia. Sua visão era clara: a paz não pode ser apenas o silêncio das armas, mas deve ser construída sobre justiça e reconciliação.
Pio XII assumiu o pontificado em 1939, no início da Segunda Guerra Mundial, e enfrentou um cenário de devastação sem precedentes. Em seus discursos, insistiu que a paz não pode ser estabelecida pela submissão dos fracos aos fortes, mas pela liberdade real e pela obediência à lei moral. A força legítima, segundo ele, deve proteger direitos, não os esmagar.
Durante o conflito, afirmou que a guerra só pode ser entendida como meio subordinado à paz, jamais como ideal. Em 1944, dirigindo-se a representantes da imprensa, pediu que o propósito da comunicação fosse a promoção da paz e das condições necessárias para uma vida digna. Também destacou a necessidade de caridade ativa: a obrigação de amar não é “palavra vazia”, mas realidade concreta, especialmente diante das vítimas da guerra.
No pós-guerra, Pio XII alertou que, embora o conflito tivesse sido declarado encerrado, muitos ainda viviam em condições desumanas. Questionou se a nova ordem internacional seria realmente mais justa e pediu que se evitassem os erros do passado. Em discursos posteriores, condenou formas extremas de guerra — atômica, biológica e química — e afirmou que ninguém pode colaborar moralmente com injustiças desse tipo.
No contexto da Guerra Fria, João XXIII tratou a ameaça de guerra mundial e o risco nuclear como desafios máximos à ordem moral. Em Pacem in Terris, afirmou que a justiça e a razão exigem a cessação da corrida armamentista, a redução simultânea de estoques e o banimento das armas nucleares, com mecanismos de controle mútuo. Defendeu que a paz deve ser “preservada e tornada diariamente mais segura” e ecoou a advertência de Pio XII: “Nada é perdido pela paz; tudo pode ser perdido pela guerra”. Para ele, impedir uma nova catástrofe global era um dever universal.
Paulo VI interveio diretamente sobre a Guerra do Vietnã. Em 1969, declarou que “a guerra e toda outra guerra” deveriam cessar, chamando isso de seu “desejo fervoroso”. Criticou o prolongamento do conflito, que custava vidas e recursos, mas reconheceu que o modo correto de o encerrar exigia um procedimento responsável, capaz de respeitar compromissos internacionais e garantir o direito de autodeterminação de um povo fraco e digno de assistência. Em mensagens de 1967 e 1970, deplorou as hostilidades contínuas, pediu trégua, armistício e negociações justas, e invocou que os responsáveis se inclinassem para uma solução rápida “na concórdia, na independência e na liberdade”.





