Na manhã desta quarta-feira, no Santuário Nacional de Aparecida, teve início a 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que se estende até o dia 24 de abril. Logo após a abertura, os bispos iniciaram os trabalhos e aconteceu a primeira coletiva de imprensa, com a participação do Cardeal Jaime Spengler, presidente da CNBB; de Dom Armando Bucciol, bispo emérito de Livramento de Nossa Senhora (BA) e diretor espiritual do Pontifício Colégio Pio Brasileiro em Roma; e de Dom Lizardo Estrada Herrera, bispo auxiliar de Cusco (Peru) e secretário-geral do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam).
Entre os bispos presentes na Assembleia estão os do Regional Leste 1, inclusive o bispo de Petrópolis, Dom Joel Portella Amado, que terá três intervenções ao longo dos trabalhos: como presidente da Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé, como um dos coordenadores da Comissão Sinodal da CNBB e como presidente do Instituto Nacional de Pastoral Padre Antônio Vieira (Inapaz).
Novas diretrizes da ação evangelizadora e juventude no centro dos debates
Em sua fala de abertura na coletiva, o Cardeal Jaime Spengler destacou o caráter especial desta Assembleia, após a suspensão do encontro no ano passado.
“É para nós fundamental. Nós iniciamos na manhã de hoje a nossa 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Tivemos, no ano passado, de suspender a Assembleia, então este ano existe uma expectativa, um ânimo todo próprio. É bonito ver os bispos aqui se encontrando depois de dois anos de distanciamento”, afirmou.

O presidente da CNBB recordou que a suspensão da Assembleia anterior se deu “porque praticamente na semana que estava prevista a Assembleia, aconteceu o falecimento do Papa Francisco”. Esse contexto, explicou, fez com que se acumulassem temas para o encontro de 2026.
Como tema central, a Assembleia discute, aprofunda e deve aprovar as novas Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil para os próximos anos.
“Como tema central da Assembleia, nós temos a discussão, o debate, o diálogo e a aprovação das diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil para os próximos anos, porque aqui também temos uma decisão a ser tomada pela Assembleia”, explicou o Cardeal.
Habitualmente, as diretrizes são renovadas a cada quatro anos, mas, segundo o presidente da CNBB, há um debate entre os bispos sobre a possibilidade de ampliar esse prazo:
“Existe a tradição de, a cada quatro anos, aprovar diretrizes para a Ação Evangelizadora, mas existe também entre nós um debate no sentido de alongar esse tempo. Vamos ver o que a Assembleia vai decidir em torno desse aspecto das diretrizes.”
O novo texto é fruto de um amplo processo de escuta e participação em todo o país:
“As diretrizes são expressão de um trabalho imenso que foi realizado ao longo desses últimos dois, três anos, envolvendo todas as forças da Igreja no Brasil. Nós aguardamos o documento final do último Sínodo dos Bispos, e isso certamente nos ajudou muito nesse processo de elaboração das novas diretrizes”, destacou.
O Cardeal Jaime enfatizou a extensão da participação e a riqueza do material produzido:
“Creio que são as diretrizes onde houve a maior participação de todas as forças da Igreja. Todos os coordenadores de pastoral das diversas dioceses puderam colaborar, todos os organismos vinculados e relacionados puderam colaborar. Enfim, nós temos um texto muito rico.”
Além das diretrizes, um segundo eixo de trabalho receberá atenção especial: a revisão do documento sobre a juventude no Brasil.
“É a revisão do documento sobre a juventude no Brasil. Um documento que precisava, sim, de atualização, tendo em vista o desenvolvimento científico, tecnológico, as mudanças culturais pelas quais a nossa sociedade vem passando”, afirmou o presidente da CNBB.
Celam: unidade, sinodalidade e atenção aos desafios da América Latina
Representando o Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), Dom Lizardo Estrada Herrera lembrou a estreita ligação do organismo com a Igreja no Brasil.

“O Celam, como vocês sabem, é um organismo eclesial que tem 70 anos, nasceu justo aqui no Brasil, no Rio de Janeiro, e tem um caminho, uma história de unidade, de comunhão, para todos os bispos, as conferências, as 22 conferências, e o Brasil é uma das conferências maiores do mundo, e do nosso continente, é claro”, afirmou.
Segundo o bispo auxiliar de Cusco, a presença do Celam na Assembleia é de escuta, participação e aprendizagem: “Por isso, o Celam está aqui para acompanhar, para ouvir, e também para aprender dos outros bispos do Brasil. Vocês são uma conferência muito grande.”
Dom Lizardo destacou ainda que o Celam, em sintonia com toda a Igreja, está empenhado no processo de implementação do Sínodo sobre a sinodalidade, acompanhando o trabalho das conferências episcopais, das equipes nacionais e diocesanas.
Outro ponto central da reflexão do Celam diz respeito à realidade social do continente: “Outro dos pontos que a nós nos interessa também é a situação que está na América Latina e no Caribe, tudo o que está acontecendo com o meio ambiente, com a casa comum. Para nós também é uma preocupação, como o Celam, a nível de todo o continente.”
O bispo recordou que o Celam atua em rede, em diferentes frentes, e sublinhou a gravidade do tema das migrações: “Também temos a preocupação, para nós, como o Celam, o tema da migração. É um ponto muito, muito importante. Por quê? Porque nossos irmãos saem de situações muito difíceis, não porque eles querem, porque a realidade é frágil. Está relacionado também com a corrupção, com outros males que existem na nossa sociedade.”
Dom Lizardo mencionou ainda a fragilidade das democracias, a violência e a polarização como desafios que ferem o continente: “Nossas democracias são um pouco frágeis, estamos vendo toda a América Latina, vendo as conferências, a violência, e isso nos dói, a polarização. Então, em frente a isso, o que buscamos? A unidade entre todos os bispos da América Latina, e para isso está o Celam. Há muita polarização, há muita divisão, muito individualismo, sim. Por isso, o Celam, seu trabalho é como Cristo quer: a unidade, a comunhão e caminhar juntos.”
Por fim, o secretário-geral do Celam definiu o sentido de sua presença na Assembleia: “Por isso também estou aqui, como presença do Celam, em seus 70 anos, para acompanhar, para ouvir e para aprender e animar os bispos da nossa Conferência do Brasil.”
“A maior assembleia de bispos do mundo”: comunhão, serviço e missão
Dom Armando Bucciol, bispo emérito de Livramento de Nossa Senhora (BA) e atualmente diretor espiritual do Pontifício Colégio Pio Brasileiro, partilhou a alegria de retornar à Assembleia após alguns anos em Roma.

“Depois de 33 anos de vida no Brasil, não sei por quê, mas Dom Jaime me pediu para voltar, e estou como diretor espiritual no Colégio Pio Brasileiro há mais de dois anos. É uma experiência muito bonita viver no Pio Brasileiro. Valeria a pena conhecer a riqueza desta presença na Igreja do Brasil em Roma”, afirmou.
Ele contou que, a pedido da presidência da CNBB, foi chamado para pregar o retiro aos bispos durante a Assembleia: “Não sei por quê, mas sempre a presidência me pediu para pregar o retiro. Sabe, na vida acontece: te pedem alguma coisa, você pensa ‘como posso cair fora?’ Pensa e não encontra nenhuma justificativa. E, no final, acaba aceitando.”
Dom Armando disse ter vindo “matar a saudade” da Assembleia, da convivência e da comunhão entre os bispos: “Tinha vindo para matar saudade, depois de quatro anos que não participava da Assembleia, para reencontrar os bispos e assim viver esta experiência que, para mim, nos 19 anos em que participei, foi uma experiência de extraordinária comunhão. Participar, ter este privilégio da Assembleia dos Bispos, a maior do mundo, onde tem a variedade máxima, somos de tantos países, de regiões diferentes, e, porém, eu confesso, sempre respirei aquela que é a comunhão eclesial. Mesmo uma experiência do Espírito Santo na nossa Igreja Católica.”
Sobre o retiro que começa na tarde de hoje com os bispos, Dom Armando explicou o tema geral: “O tema que costurei é ‘No seguimento de Jesus Cristo, crucificado e ressuscitado, para testemunhar e louvar o seu amor’.”
Entre os assuntos que irá desenvolver, estão as exigências e desafios do seguimento de Cristo, o zelo pastoral para evangelizar e a coragem evangélica nas relações humanas:
“Os temas que irei apresentar são, antes de tudo, ‘No seguimento de Jesus Cristo: exigências e desafios’. Falarei depois do zelo pastoral para evangelizar. A Igreja está no mundo… a Igreja existe para evangelizar. (…) Depois, o tema que tratarei amanhã é a paresia evangélica. Paresia, palavra muito significativa, é liberdade, é coragem, para viver relações humanas transparentes. (…) Na nossa Igreja, na sociedade, apesar de tantas ambiguidades que perpassam as relações humanas, devemos procurar esta transparência, esta autenticidade.”
O bispo emérito destacou ainda a lógica evangélica do serviço, especialmente no ministério episcopal: “Depois, um outro assunto: ‘Servos por amor’. Como Jesus que lava os pés. Nós, os bispos, quanto mais poder, mais serviço. Esta é a lógica evangélica. Conseguimos vivê-la? É o ideal que Jesus nos propõe e que constantemente devemos procurar.”
Por fim, Dom Armando mencionou sua longa ligação com a liturgia e a importância de celebrá-la a partir do Evangelho: “Enfim, minha tarefa na Igreja foi, sobretudo, ligada à liturgia: para uma liturgia fiel ao Evangelho. Na sociedade tem tantas expressões litúrgicas. A política tem sua liturgia, o futebol é assim. Quando uma liturgia fica mesmo caracterizada pelo Evangelho é viver e viver da liturgia que celebramos com olhos e coração de fé.”
Caminhar juntos na missão
A primeira coletiva da 62ª Assembleia Geral da CNBB evidenciou o clima de comunhão entre os bispos do Brasil e da América Latina, a centralidade da missão evangelizadora e a preocupação com os desafios pastorais e sociais do nosso tempo.
As novas diretrizes da Ação Evangelizadora e a atualização do documento sobre a juventude, em sintonia com o caminho sinodal da Igreja, deverão orientar a atuação da Igreja no Brasil nos próximos anos. A presença de organismos como o Celam e de bispos com experiência internacional, como Dom Armando, reforça a dimensão de unidade, escuta e serviço que marca esta Assembleia.
Fotos: Print das imagens do Youtube/CNBB





