Quando o Mal se Torna Banal: Arendt, Santo Tomás de Aquino e Leão XIV – Pe. Anderson Alves

No dia 9 de junho de 2026, participei de um seminário na EMERJ – Escola da Magistratura do Rio de Janeiro – dedicado ao estudo da justiça segundo Santo Tomás de Aquino. Ao preparar minha exposição, retomei os artigos da Suma Teológica que tratam do direito, da justiça, da injustiça e do julgamento (II-II, q. 57–60). Essa releitura despertou em mim o desejo de revisitar um dos julgamentos mais emblemáticos do século XX: o de Adolf Eichmann, realizado em Jerusalém em 1961.

Eichmann, capturado na Argentina e levado a Israel, era o administrador responsável pela logística que deportou milhões de judeus aos campos de extermínio nazistas. Esperava-se encontrar nele um monstro ideológico, um fanático movido por ódio racial. Contudo, a filósofa Hannah Arendt, enviada pela revista The New Yorker, encontrou algo muito mais perturbador: um homem comum, medíocre, incapaz de pensar criticamente sobre seus atos. Em Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal, Arendt descreve esse fenômeno como um “vazio abissal”, uma ausência de reflexão moral que permitiu que ele se tornasse instrumento de destruição em escala industrial.

A defesa de Eichmann — “cumpri ordens”, “respeitei a lei”, “fui fiel ao juramento” — revela exatamente o que Arendt denunciou: a suspensão voluntária do juízo moral. O mal, nesse caso, não brota de uma perversidade excepcional, mas da renúncia à responsabilidade pessoal. Eichmann não era um demônio; era um burocrata obediente, alguém que preferiu a segurança da conformidade à inquietação de pensar.

Essa constatação dialoga profundamente com Santo Tomás de Aquino, para quem, a justiça é uma virtude que ordena os atos humanos ao bem do outro. Ela exige discernimento, prudência e responsabilidade. A obediência, embora seja uma virtude, jamais pode ser absoluta: quando a lei humana se afasta da lei moral, deixa de obrigar. A consciência, para Santo Tomás, é o tribunal interior onde o homem reconhece o bem e o mal e assume a responsabilidade por suas escolhas.

É justamente essa dimensão que faltou a Eichmann. Ele não era incapaz de compreender o horror do que fazia; era incapaz de pensar sobre isso. Sua falha não foi intelectual, mas moral. Ele escolheu não julgar, não refletir, não assumir a própria liberdade. Tornou-se, assim, o símbolo de um tipo de mal que não precisa de fanáticos, mas apenas de pessoas que se recusam a pensar.

Ao mesmo tempo em que estudava esses temas, deparei-me com a recém-publicada encíclica Magnifica Humanitas, de Leão XIV, dedicada às questões éticas da inteligência artificial. O documento alerta para o risco de delegarmos às máquinas decisões que exigem discernimento moral. Sistemas automatizados podem executar tarefas com precisão, mas não possuem consciência, responsabilidade ou capacidade de julgamento. A advertência é clara: quando o ser humano abdica de pensar, abre espaço para que estruturas — burocráticas, tecnológicas ou políticas — assumam o controle.

A convergência entre Arendt, Santo Tomás e Leão XIV é impressionante. Todos insistem na centralidade da consciência moral. Todos alertam para o perigo da obediência cega, seja ao Estado totalitário, seja ao sistema técnico. Todos afirmam que a dignidade humana reside na capacidade de discernir e escolher o bem.

O julgamento de Eichmann, portanto, não é apenas um episódio histórico. É um espelho. Ele nos obriga a perguntar se estamos formando consciências capazes de resistir ao mal ou se estamos produzindo indivíduos treinados apenas para obedecer. Em um mundo cada vez mais automatizado, a lição permanece atual: o mal se torna banal quando o pensamento se torna raro.

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