A WebTV Amor Divino entrevistou o Diácono Permanente Wagner e sua esposa, Vanessa, coordenadores diocesanos da Pastoral Familiar. O casal, da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, em Santo Aleixo, Magé, falou sobre o tema deste ano: “Família, torna-te aquilo que és”.
Segundo o diácono, a proposta é incentivar as famílias a viverem sua vocação como espaços de amor, acolhimento, respeito e cuidado. Casados há 23 anos e juntos há 28, Wagner e Vanessa compartilharam experiências da vida matrimonial e da criação dos dois filhos. Eles ressaltaram que a presença de Deus, o diálogo, o respeito, o perdão e a coerência são fundamentais para fortalecer os laços familiares.
O casal também destacou a importância da participação dos pais na educação e na formação dos filhos. Durante a entrevista, foi abordado o combate à violência contra a mulher, incluindo as formas física, psicológica e moral. Vanessa lembrou que a Igreja deve orientar as vítimas e encaminhar os casos aos órgãos competentes. A programação da Semana Nacional da Família inclui missas, encontros formativos, reuniões comunitárias e ações nas redes sociais.
Outro destaque foi o Catecumenato Matrimonial, iniciativa que prepara os casais para a vivência consciente do sacramento do matrimônio.
Para o casal, a formação é necessária diante da fragilidade das referências familiares na sociedade atual. A Semana Nacional da Família começa com o Dia dos Pais e termina na solenidade da Assunção de Nossa Senhora.
Rogerio Tosta – Então, para iniciarmos, apresentem-se um pouco aos nossos espectadores que estão acompanhando esta conversa.
Diácono Vagner: Olá, Rogério! Olá, irmãos e irmãs! Eu sou o Diácono Vagner. Nós somos casados há 23 anos e somos da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, em Santo Aleixo, aqui em Magé, na Baixada Fluminense. Participamos da Pastoral Familiar há 16 anos, desde quando ela foi implantada aqui em Santo Aleixo. Faço parte da primeira turma de diáconos permanentes e tenho 13 anos de ordenação. Estamos juntos nessa caminhada ao longo do tempo.
Vanessa – Estamos juntos há 28 anos. Começamos a namorar na Igreja, participando do grupo jovem e de peças de teatro. Temos até uma foto aqui para lembrar o dia em que começamos a namorar: ele fazia o papel de São José, e eu fazia o papel de Nossa Senhora. Por isso, vem daí a nossa devoção tão forte à Sagrada Família.
Escolhemos este lugar em nossa casa, onde temos algumas imagens, e o nosso namoro começou assim. Desde então, estamos sempre envolvidos e presentes em tudo o que acontece na Igreja. Também participo da catequese e da equipe de ornamentação da Igreja. Cuidamos das flores e da iluminação das celebrações solenes. É uma bênção ter toda essa caminhada feita na presença do Senhor.
Diácono Vagner – Temos dois filhos: José Henrique e José Eduardo. O José Henrique tem 17 anos, e o José Eduardo tem 13. Eles são coroinhas, cerimoniários e participam do FAC e do JOAM. A família toda está envolvida nessa caminhada, graças a Deus.
Rogerio Tosta – Depois dessa apresentação, surgiu-me uma pergunta. Nós, jornalistas, planejamos as coisas, mas, durante a entrevista, sempre surge algo novo. Vanessa, como é ser esposa de um diácono que exerce muitas funções na Igreja? Além de participar da Pastoral Familiar e de outros movimentos, ele tem uma função específica: servir ao altar e ajudar o padre na paróquia. Como é essa experiência? Como tem sido essa vivência para você?
Vanessa: Às vezes, é um pouco complicado. Eu brinco que o Vagner nunca segurou os filhos durante a missa. Sempre fui eu, com a ajuda da minha mãe e da comunidade. Havia dias em que eu acabava perdendo tudo na Igreja. Quando eles eram bebês, eu nem sabia mais quem estava segurando cada um.
Mas isso é apenas um detalhe. Na verdade, é uma bênção. Desde o momento do convite, em 2007, feito pelo Padre Moura, aqui na nossa querida paróquia, assumi esse papel de coparticipadora, de dividir essa missão com ele. Eu entendo as ausências e o trabalho dele e procuro estar sempre à disposição, como intercessora. De certa forma, também procuro cuidar para que essa ausência não seja tão sentida pelos nossos filhos.
É um trabalho de conversar, estar junto, explicar e me fazer presente quando ele não pode estar. Ao longo desses 13 anos, eles têm vivido e procurado viver dessa forma. Quando posso, estou junto. Sempre que ele vai assistir a um casamento, eu também o acompanho para ajudar na cerimônia e cuidar do que for necessário. Sempre que temos oportunidade, estou ao lado dele, e fico muito feliz por isso.
Diácono Vagner: Ela vive o ministério diaconal tanto quanto eu. Durante todo o tempo em que exerço o diaconato, nós estamos juntos na Pastoral Familiar e na Comunidade de Comunidades. Também procuro envolvê-la nas atividades em que ela pode me acompanhar e estar presente. Nós vivemos o ministério diaconal juntos. Não é apenas um diácono: somos um casal, uma família diaconal.
Vanessa – Os meninos também têm bastante consciência disso.
Rogerio Tosta – Entramos agora em um tema específico da nossa conversa: a Semana Nacional da Família. Como vocês falaram, vocês vivem o ministério diaconal de forma conjunta. O tema deste ano é “Família, torna-te aquilo que és”. Vocês são pessoas diferentes, com culturas diferentes, mas exercem juntos um ministério que faz com que sejam aquilo que Jesus e Deus nos pedem: “Sejam uma só carne”. Como esse tema chega até vocês? O que ele representa?
Diácono Vagner: O tema “Família, torna-te aquilo que és” é uma frase muito importante do magistério da Igreja. Ela foi extraída da Exortação Apostólica Familiaris Consortio, de São João Paulo II. Neste ano, celebramos 45 anos da publicação dessa exortação e, ao mesmo tempo, dez anos da publicação da Exortação Apostólica Amoris Laetitia, do Papa Francisco. São dois documentos fundamentais para compreendermos a caminhada do olhar da Igreja para a família.
Quando São João Paulo II propôs, no parágrafo 17 da Familiaris Consortio, a frase “Família, torna-te aquilo que és”, ele apresentou uma frase que pode parecer um pouco paradoxal: tornar-se aquilo que já se é. Na verdade, trata-se de um chamado para que a família exerça sua vocação fundamental e primordial de ser lugar de acolhimento, de amor, de respeito e de convivência. Muitas vezes, porém, as nossas famílias não conseguem viver plenamente dessa forma.
A Familiaris Consortio faz justamente esse convite: olhar para a família e permitir que ela se reconheça como é. Depois, a Amoris Laetitia complementa essa reflexão, mostrando como devemos viver como uma família pastoral e como uma família verdadeiramente cristã. Neste ano, a Igreja no Brasil nos propõe esse tema para refletirmos sobre a realidade familiar, sobre como a família deve ser e sobre o chamado para que ela viva dessa maneira.
Não se trata de obrigar a família a ser algo artificial, mas de mostrar a realidade da família tal como foi pensada pelo Criador. A família foi uma das primeiras realidades pensadas por Deus. Quando Ele criou o homem e a mulher, já estava ali a família. Ela foi pensada dentro de um projeto que, muitas vezes, deixamos se perder ao longo do caminho.
Vanessa – Na prática, é muito importante compreendermos e formarmos bem a nossa identidade familiar. Vivemos em um mundo no qual a família é muito atacada. Algumas pessoas apresentam a família como algo que já não tem força ou importância. Pelo contrário, sabemos o tamanho da importância e da necessidade de termos famílias bem formadas.
Nós, que somos famílias cristãs e católicas, devemos compreender muito bem esse papel e mostrar ao mundo aquilo que somos. Como o tema nos propõe, devemos ser famílias unidas, famílias que curam, famílias que cuidam de seus filhos e que assumem a educação deles como uma das maiores responsabilidades de suas vidas. Mais ainda: devemos cuidar para levar a nossa família para o céu. Esse é o maior objetivo da nossa vida.
Rogerio Tosta – Quando falamos em família, sabemos que todos os dias precisamos celebrá-la, principalmente aqueles que vivem em família. Precisamos celebrar essa unidade. Mas por que a Igreja estabelece uma semana específica para celebrarmos a família? Qual é o objetivo da Semana Nacional da Família?
Diácono Vagner: É importante observarmos o histórico de como surgiu a ideia de realizar uma Semana da Família. Na década de 1970, na cidade de Santos, em São Paulo, as Equipes de Nossa Senhora, que são um movimento importante no trabalho com as famílias, decidiram realizar uma semana de formação e oração. Foi assim que tudo começou: como geralmente começam muitas coisas na Igreja, com uma pequena semente de mostarda que foi plantada.
Em 1992, a CNBB decidiu estender essa ação para todo o Brasil. Naquele momento, porém, a Semana da Família ainda não tinha um caráter permanente. Com a vinda do Papa São João Paulo II ao Brasil, em 1997, para o Encontro Mundial do Papa com as Famílias, a Semana da Família tornou-se permanente. Desde 1997, portanto, a Igreja no Brasil vem refletindo todos os anos sobre a família. Estamos chegando à 30ª edição consecutiva.
Essa semana especial tem um significado muito importante, porque acontece dentro do mês das vocações. Ela é celebrada no mês de agosto, justamente porque a família é uma vocação, e o matrimônio, que é um sacramento, também é uma vocação. A Semana da Família começa sempre com o Dia dos Pais e termina na solenidade da Assunção de Nossa Senhora. Eu costumo brincar que a Semana da Família começa no Pai e termina na Mãe, porque essas são as colunas que precisamos ter na família. Todos os anos faço essa brincadeira. É importante celebrarmos e refletirmos sobre toda essa realidade familiar, sobre aquilo que já falamos e sobre tudo o que ainda vamos abordar.
Vanessa: Acho muito bonita essa questão da unidade. Temos um evento nacional: em todas as paróquias e dioceses estaremos falando sobre a família. Isso também causa um forte impacto na sociedade, porque enchemos as redes sociais com essas informações. No trabalho, na rua e nos diversos ambientes, comentamos que estamos participando da Semana Nacional da Família e da Pastoral Familiar. É também um anúncio para o mundo: estamos aqui, somos família e lutamos para que as nossas famílias cresçam e para que as pessoas compreendam a importância de tudo isso para as nossas vidas.
Rogerio Tosta – Durante a Semana da Família, quais são as principais atividades propostas para que as paróquias, as comunidades e as próprias famílias possam desenvolvê-las?
Diácono Vagner: Como existe um tema nacional, a Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família, da CNBB, propõe uma reflexão. A Pastoral Familiar Nacional publica um subsídio, que é justamente esta revista que está aqui: Hora da Família. Nela, encontramos vários temas para discussão. Nas paróquias, esses temas são trabalhados de diversas formas: durante as missas, nas pregações e em reuniões formativas. Na verdade, a revista é estruturada para ser utilizada em reuniões formativas. Dependendo de como a paróquia, a região ou a diocese consegue se envolver e se articular, surgem atividades diversas em todo o Brasil.
Vanessa – Aqui, por exemplo, em nossa paróquia, temos missas nas quais os temas são desenvolvidos pelos padres ou pelos diáconos durante as homilias. No Decanato de Teresópolis, por exemplo, eles se organizam como decanato, e cada dia a atividade é realizada em uma paróquia diferente. Há paróquias que se reúnem em pequenos grupos para discutir os encontros que já são organizados pela CNBB. O importante é que os temas sejam desenvolvidos. A forma de trabalho precisa se encaixar da melhor maneira possível no cotidiano de cada paróquia.
Diácono Vagner – Também aproveitamos para movimentar as redes sociais. Pedimos às pessoas que publiquem fotos e vídeos, fazendo um verdadeiro trabalho de testemunho para a sociedade, para as famílias e para toda a Igreja. Nós influenciamos a maneira como as pessoas olham para a família. Dentro dessa semana, também temos o Dia do Diácono, celebrado no dia 10 de agosto. Temos ainda o Dia de Santa Clara. Algumas paróquias, comunidades e a família franciscana, especialmente neste ano em que celebramos o jubileu de São Francisco, também estarão realizando atividades.
Há toda uma programação relacionada ao mês vocacional. No final da Semana da Família, por exemplo, no domingo, dia 16, haverá a instituição de ministérios para os seminaristas. Tudo isso também gira em torno da questão da família. A família acaba sendo comentada e valorizada ao longo de toda a semana, em diversas atividades.
Rogerio Tosta – Tanto na Semana Nacional da Família quanto ao longo da vida, falamos sobre várias formas de viver para que as famílias sejam sólidas e firmes. Na visão de vocês, considerando a experiência de um matrimônio e o trabalho com outras famílias, além da participação em cursos de preparação para novos casais, quais são as características que não podem faltar para que a família seja realmente um espaço de amor, acolhimento e união? Vemos muitas famílias se desfazendo, às vezes por problemas aparentemente banais. Como vocês entendem que as famílias podem se tornar sólidas?
Diácono Vagner: Em primeiro lugar, a presença de Deus é fundamental. Temos um projeto de Catecumenato Matrimonial no qual estamos bastante envolvidos. Conversamos com os casais que estão começando e mostramos a necessidade de reservar um espaço para Deus, para a oração e para a participação na Igreja.
Além disso, é claro que o amor é fundamental. Também precisamos de respeito e diálogo. O diálogo dentro da família é essencial, tanto entre o casal quanto entre pais e filhos. O diálogo precisa existir. A família também precisa se preocupar com o testemunho que deixará para o mundo. Não podemos pensar apenas que estamos dentro de nossa casa, cuidando da nossa vida, e que tudo se resume a isso. Nós não vivemos sozinhos.
A família, como célula principal e matriz da sociedade, precisa transbordar para o mundo. Portanto, uma família precisa da presença de Deus, de amor e de respeito entre seus membros. Quando nos casamos, prometemos ser fiéis, amar e respeitar todos os dias da nossa vida. É importante haver diálogo e a preocupação de agir não apenas dentro da própria realidade, mas também de transformar o mundo e a sociedade em que vivemos.
Vanessa – Também é fundamental que cada membro da família compreenda o seu papel. Nós, como pais, precisamos entender que somos referências para os nossos filhos. Precisamos cuidar deles e não terceirizar a educação, nem para a escola, nem para os avós, nem para as babás ou para outras pessoas que nos ajudam.
Nós somos responsáveis pelos nossos filhos. Também somos responsáveis uns pelos outros. Devemos caminhar juntos, unidos, conversando e pensando sempre uns nos outros. Precisamos compreender que o matrimônio é uma realidade permanente. O casamento é para sempre.
Vivemos em um mundo no qual tudo é muito passageiro e as pessoas já não lutam pelas coisas. A sociedade tornou-se uma sociedade do descartável. Precisamos entender que a nossa família não é descartável. O matrimônio não é descartável, nossos filhos não são descartáveis, e nós precisamos cuidar deles para sempre. Essa é a nossa responsabilidade.
Rogerio Tosta – Sabemos que muitas famílias enfrentam diversos problemas. Tenho um amigo que costuma dizer: “O casal que afirma não ter problemas é justamente o casal que tem problemas”, porque toda família enfrenta dificuldades. Lembro-me de que, em determinado momento da vida de vocês, vocês sofreram um acidente e enfrentaram muitas dificuldades. O Diácono precisou ficar afastado das atividades por causa desse acidente. Quais são os principais desafios enfrentados pelos casais atualmente? Como superá-los, especialmente para educar os filhos e dar um testemunho de amor, fidelidade e unidade à sociedade? O que os casais precisam fazer para superar essas dificuldades?
Diácono Vagner: As dificuldades enfrentadas por uma família são múltiplas e diversas. É difícil enumerar todas. A família, como célula básica da sociedade, enfrenta problemas semelhantes aos da própria sociedade. Se vivemos em uma sociedade muito individualista, esse individualismo acaba atingindo a família. Se vivemos em uma sociedade que valoriza excessivamente os bens materiais, a família também passa a buscá-los e, muitas vezes, não consegue se satisfazer.
Como eu disse, não é possível enumerar todas as dificuldades, mas muitos desafios são comuns. Mencionei a questão do individualismo, que é muito complicada. Na ocasião do acidente que sofri, precisei ficar três meses sem poder colocar o pé no chão, sem poder apoiá-lo. Para mim, foi uma situação muito complicada, porque sempre aprendi que o pai e o marido são responsáveis por cuidar e manter a família.
No momento em que precisei ficar deitado, recebendo ajuda das pessoas, e em que a Vanessa teve de me dar banho e cuidar de mim, senti-me muito fragilizado. Ao mesmo tempo, senti-me muito amparado, porque estávamos juntos naquela situação e naquela caminhada. Conversamos com casais jovens e percebemos isso. Cada um tem o seu trabalho, o seu dinheiro e compra as suas próprias coisas. Já vi casos em que a esposa devia dinheiro ao próprio marido. Na minha opinião, isso é algo absurdo.
Há situações em que, dentro de uma mesma casa, cada um tem a sua televisão, o seu quarto e os seus espaços, sem compartilhar praticamente nada. Esse é um grande desafio. Outro desafio é a cultura do descartável, que faz com que as pessoas não consigam atravessar determinadas situações. Falta perdão e falta compreensão. Além disso, surgem outros problemas, como a violência e as dificuldades econômicas. Tudo isso pesa muito sobre a família.
Rogerio Tosta – Você mencionou a questão da violência. Vou aproveitar para fazer uma pergunta importante. Falamos sobre a cumplicidade de vocês e sobre o momento de fragilidade em que você se sentiu amparado pela Vanessa. Hoje vemos muitas campanhas de combate à violência contra a mulher e ao feminicídio. Precisamos tratar desse assunto também dentro da Igreja. Muitas vezes, pensamos apenas na violência física, mas existem também a violência psicológica e a violência moral. Como vocês veem essa questão? Como nós, enquanto Igreja e enquanto pessoas que dão testemunho, podemos trabalhar esse tema?
Vanessa: Fomos convidados pelo nosso amigo Leandro Trius, que é psicólogo e pertence à nossa paróquia. Ele tem realizado um trabalho muito bonito por meio do instituto que criou, e estamos juntos nessa iniciativa. O trabalho acompanha homens que, em algum momento da vida, praticaram violência contra mulheres. Esses homens são acompanhados pelo instituto como parte de seu processo de reintegração.
Durante o encontro, ele falou justamente sobre os diversos tipos de violência e sobre como devemos lidar com essas situações. Também refletimos sobre os limites: até que ponto uma situação pode ser resolvida na Igreja, com o auxílio da Pastoral Familiar e do padre, e a partir de que momento se torna um caso para a polícia e para a Justiça.
Como Igreja, precisamos assumir essa responsabilidade e compreender a gravidade do problema. Não podemos aceitar que uma mulher seja violentada de nenhuma forma e simplesmente dizer: “Vamos aguardar” ou “Vamos esperar”. De maneira nenhuma. Se o que está acontecendo ultrapassa todos os limites, devemos acompanhar essa mulher e orientá-la sobre aquilo que a Justiça e os órgãos competentes do nosso país podem oferecer. Existem instituições responsáveis por cuidar dessas situações, proteger a mulher, prevenir novas agressões e afastar o agressor. Como Igreja, precisamos estar atentos e orientar corretamente. Não podemos aceitar a violência.
Diácono Vagner – Também é importante oferecer formação antes que a situação chegue ao extremo da violência. Precisamos ajudar as pessoas a lidar com seus impulsos e com as próprias histórias. Às vezes, a pessoa que pratica a violência também sofreu violência durante a infância, dentro da própria família. É preciso romper esse ciclo.
Como Pastoral Familiar, temos um olhar muito cuidadoso sobre essa realidade. Isso também aparece nos encontros com os jovens. Como mencionei, nossos filhos participam de movimentos: o mais velho participa do JOAM, e o mais novo, do FAC. Estamos presentes, acompanhando e conversando com eles. A Vanessa é professora e, mesmo fora do ambiente da Igreja, converso com adolescentes e alunos sobre esse tema. Precisamos, como Igreja e como sociedade, olhar para essa situação, que é muito séria.
Vanessa – Muitas mulheres estão sofrendo agressões dentro de suas próprias casas. Isso é muito triste.
Rogerio Tosta – Nessa perspectiva de formação, vocês falaram que seus filhos também participam dos movimentos. Como nós, pais — eu também sou pai e tenho uma filha de 30 anos —, que somos católicos e seguimos Cristo, podemos dar exemplo aos nossos filhos e ser referência para eles dentro de casa, no trabalho e em todos os ambientes em que vivemos?
Diácono Vagner: A questão de ser exemplo começa fundamentalmente pela coerência. Nem todo mundo tem condições de pregar a Palavra, dar uma palestra ou falar para muitas pessoas, mas todos têm condições de dar exemplo. A primeira coisa é ser coerente. Aquilo que falo na Igreja é o que preciso viver dentro da minha casa e em qualquer ambiente. Meus filhos saberão se vou à Igreja, falo bonito no púlpito e prego o Evangelho, mas, ao chegar em casa, não vivo aquilo que estou pregando. Eles percebem. Antes de pregar, é importante viver. Precisamos viver dentro de casa tudo aquilo que ensinamos.
Também precisamos compreender e observar as realidades que nos cercam para saber responder às dúvidas dos nossos filhos. Meu filho pode chegar da escola e contar que um colega vive uma situação familiar complicada. Ele vai me perguntar sobre aquilo, e eu preciso saber conversar com ele e mostrar que existem formas diferentes e melhores de viver.
Educar pelo exemplo é a melhor forma de educar. É preciso ser coerente e fiel àquilo que se fala. Se digo algo, preciso estar vivendo aquilo antes. Nas pequenas coisas isso também aparece. Se falo na Igreja sobre a virtude da honestidade, não posso praticar desonestidade dentro de casa. Se sonego impostos, uso televisão por assinatura de forma ilegal ou faço coisas erradas no trânsito, tudo isso demonstra falta de coerência.
Vanessa – É importante compreendermos a nossa autoridade e mostrar aos filhos que eles têm em quem confiar. Precisamos mostrar que estamos ali para guiá-los na vida e que, para onde quer que vão, terão para onde voltar. Nós somos essa segurança na vida deles.
Essa questão da autoridade é algo muito importante. Como o Vagner já mencionou, sou professora e percebo, nos meus alunos, a ausência da autoridade dos pais. Também percebo o quanto eles sentem falta disso. Estar presente, orientar, estabelecer horários para estudar e para se alimentar, acompanhar a rotina e cuidar: tudo isso faz parte do papel dos pais. Um filho sente-se amado quando os pais estão presentes, ocupando esse lugar de cuidado.
Vejo, na vida dos meus alunos, a ausência dos pais e o quanto eles gostariam de ter pais que cobrassem, exigissem e cuidassem. Acho que isso é muito importante na vida dos nossos filhos: estar presente, saber onde eles estão, com quem estão e o que fazem. Precisamos viver com eles.
Diácono Vagner – Nosso filho mais velho tem 17 anos e fará 18 em breve. Ele começa a entrar em uma fase de fazer escolhas. Está no terceiro ano do Ensino Médio e já precisa escolher qual faculdade fará. Nesse momento, também assumimos o papel de orientar as escolhas, respeitando a decisão dele, mas mostrando as possíveis consequências. Podemos dizer: “Se você escolher esse caminho, terá este percurso. Se escolher outro, talvez seja um pouco mais difícil”.
Esse também é o nosso papel. Já não se trata de conduzir o filho pela mão, mas de orientá-lo. Podemos dizer: “Você pode seguir por esse caminho. Eu talvez não consiga caminhar com você o tempo todo, mas acredito que será um bom caminho”. Isso faz parte da vida. Na verdade, a educação nunca termina. Como você mencionou, mesmo quando o filho tem 30 anos, continuamos oferecendo orientações. E isso continuará fazendo parte da nossa vida.
Rogerio Tosta – Diácono Vagner e Vanessa, estamos chegando ao encerramento da entrevista, mas eu gostaria que vocês falassem um pouco sobre o trabalho do Catecumenato Matrimonial. Qual é a importância desse trabalho? Também quero deixar aqui um testemunho para quem está assistindo: mesmo com dificuldade para andar, o Diácono saiu de Santo Aleixo e foi até Petrópolis para participar de uma reunião com o bispo e falar sobre a importância desse projeto. É importante dar testemunho do sacrifício de alguém que se empenha para tornar um projeto como esse possível.
Diácono Vagner: Rogério, acredito que o Catecumenato Matrimonial surgiu, para nós, a partir de uma necessidade durante a pandemia. Depois, percebemos que era o Espírito Santo agindo. O próprio Papa Francisco publicou documentos sobre o assunto, e foram esses documentos que levei ao bispo naquele dia em que estivemos juntos.
O Catecumenato Matrimonial já existe há seis anos na Paróquia de Santo Aleixo. Agora vamos iniciar a décima turma, com novos formandos e pessoas que participarão do processo de catecumenato. Percebo que isso representou um grande avanço na preparação para o matrimônio, embora ainda precise se desenvolver mais. O sacramento do matrimônio é um dos sete sacramentos. É uma ação da graça de Deus na nossa vida e na vida da Igreja. Também é um sacramento de serviço.
Ele está em igualdade com o sacramento da Ordem. No entanto, não conseguimos imaginar um sacerdote sendo formado em apenas um dia. Os sacerdotes são formados ao longo de oito ou nove anos. Quando falamos do matrimônio, porém, muitas pessoas pensam apenas na festa, nas fotografias e na celebração.
Por isso, é importante oferecer uma formação que permita aos noivos compreender o que a Igreja pensa sobre o matrimônio, além de proporcionar vários encontros para reflexão e preparação. Hoje, o Catecumenato Matrimonial já é uma realidade em nossa diocese. Praticamente todas as paróquias estão adotando esse método. Ele ainda não está implantado de forma permanente em todas elas, mas, se Deus quiser, chegará a todas. As paróquias que o adotaram são unânimes em afirmar que o trabalho tem produzido muitos frutos.
Vanessa: O Catecumenato Matrimonial é muito necessário na época em que vivemos. Na época da minha mãe, por exemplo, muitas famílias ensinavam aos próprios filhos o que significava ser uma família. Eram famílias bem constituídas, nas quais cada pessoa ocupava o seu lugar. No próprio convívio familiar, aprendíamos o que era ser esposa, esposo e marido. Hoje, com a fragilidade das famílias, muitas pessoas já não têm referências. Não sabem como ocupar o lugar de esposo ou de esposa.
Por isso, a Igreja precisa orientar. Se as famílias não estão conseguindo cumprir esse papel e se vivemos em uma sociedade fragilizada nesse aspecto, a Igreja não pode permitir que o sacramento seja recebido de qualquer maneira. Precisamos cuidar e orientar os jovens e também as pessoas mais velhas que vêm receber o sacramento. Elas precisam de orientação nesse momento. A Igreja não muda, mas adapta sua forma de trabalhar às necessidades de cada período histórico.
A Igreja da Idade Média enfrentou realidades diferentes das que vivemos hoje. Portanto, precisamos adaptar nossas ações às necessidades da sociedade atual. O Catecumenato Matrimonial é uma resposta muito forte a essa realidade: famílias fragilizadas que não conseguem formar seus filhos e jovens que precisam ser preparados para assumir uma nova família. A Igreja entra com o Catecumenato Matrimonial para enfrentar essa situação.
Rogerio Tosta – Quero agradecer muito a disponibilidade de vocês. A sua, Diácono, que respondeu rapidamente ao convite. Agradeço a disponibilidade de vocês, não apenas para esta entrevista, mas também por todo o trabalho e pela missão que realizam na paróquia e na Igreja. Agradeço não somente a vocês, mas também aos seus filhos, que caminham juntos nessa missão. Que Deus estenda sempre suas bênçãos sobre vocês, pela intercessão da Virgem Maria.
A Semana Nacional da Família nos lembra que o amor precisa ser vivido diariamente, com diálogo, paciência, perdão e compromisso. Que possamos colocar em prática o lema: “O amor jamais acabará”. A família jamais acabará. Mesmo com tudo o que se faça para destruí-la, ela nunca acabará. Mas é preciso vivenciar esse amor. Para encerrarmos, quero deixar que vocês façam uma mensagem final. E, Diácono, não posso deixar de pedir também a sua bênção.
Vanessa: Queremos agradecer muito pelo convite. Muito obrigada por terem se lembrado de nós neste tempo em que estamos vivendo a Semana Nacional da Família em nossa diocese. Agradecemos o convite e reforçamos a todos o chamado para que procurem saber, em suas paróquias, como será realizada a programação, para que vocês e suas famílias possam participar. É um momento de unidade e de estarmos juntos, para rezarmos, refletirmos e mostrarmos ao mundo que somos família e que estamos aqui. Nós resistimos.
Diácono Vagner: Posso falar em nome de toda a Pastoral Familiar da diocese: todos nós estamos aguardando vocês, não apenas durante esta semana. Colocamo-nos à disposição para oferecer a assistência possível e necessária a todas as famílias da diocese, para que todos possam caminhar na fé e na esperança do nosso Senhor.









