Queridos irmãos e irmãs, celebramos hoje o décimo segundo domingo do tempo comum e a liturgia nos convida a dar continuidade à leitura do Evangelho de São Mateus, que temos acompanhado de perto nas últimas semanas. Há duas semanas, fomos tocados pelo relato da vocação de Mateus, o cobrador de impostos que deixou para trás a mesa da coletoria, abandonou a busca obsessiva pelos bens terrenos e abraçou decididamente o chamado de Cristo. Naquela reviravolta espiritual, Mateus fez uma troca admirável com Deus, pois deixou de viver para receber os bens deste mundo e passou a distribuir os dons celestes, renunciando ao acúmulo egoísta para se entregar inteiramente ao Senhor e aos irmãos. Ele se tornou o grande evangelista que transmite a Palavra a todos os povos e nações, tornando-se um modelo luminoso para cada um de nós.
Na semana passada, aprofundamos essa caminhada ao ouvir sobre a escolha dos doze apóstolos, e é comovente notar como Mateus se coloca humildemente no oitavo lugar da lista. Ele poderia ter se apresentado com títulos pomposos de grande evangelizador, mas preferiu assinar como Mateus, o cobrador de impostos. Com isso, ele não quis colocar diante dos homens o seu próprio mérito, mas sim o seu pecado, evidenciando onde ele estava quando o Senhor o encontrou e como foi plenamente transformado pela graça divina. Essa autopercepção é tão profunda que ele insere a narrativa de sua vocação no capítulo nono, que é justamente a seção dos milagres e sinais de Jesus, mostrando que a sua conversão foi um dos maiores milagres operados pelo Mestre.
Aquele homem apegado ao dinheiro e considerado traidor da pátria transformou-se por completo e nos entregou o texto que ouvimos na missa de hoje, retirado do capítulo décimo, conhecido como o discurso missionário. Jesus está enviando os seus apóstolos e fala abertamente das dificuldades que eles enfrentarão, mas também assegura a presença constante da providência divina que nunca nos desampara. O que mais salta aos olhos neste trecho de apenas sete versículos é que Jesus repete por três vezes a expressão não tenhais medo. Se percorrermos toda a Sagrada Escritura, veremos que essa exortação é a que mais aparece na Bíblia, manifestando que Deus conhece perfeitamente as nossas fraquezas, tentações e o peso das perseguições.
Diante disso, a teologia de São Tomás de Aquino nos recorda que o bem é mais forte na sua bondade do que o mal na sua maldade, pois o bem procede do próprio Deus e tem substância, enquanto o mal é apenas uma desordem permitida pelo Senhor para a nossa santificação e para a perfeição de todas as coisas (cf. SUMA TEOLÓGICA, I, q. 109). Por essa razão, o Evangelho nos ensina que não devemos temer nenhuma força deste mundo, e que o único temor legítimo que deve habitar o nosso coração é o medo de perder a comunhão e a amizade com Deus por meio do pecado.
Jesus nos liberta do medo das perseguições e das calúnias ao garantir que nada há de encoberto que não venha a ser revelado, prometendo que toda mentira e injustiça sofridas por amor ao Reino serão esclarecidas e trazidas à luz, se não no tempo presente, certamente no juízo final. O Mestre exorta os discípulos a proclamarem sobre os telhados o que ouviram no segredo, e essa imagem dos telhados planos da Palestina nos convida a evangelizar a partir da nossa parte superior. Os antigos Padres da Igreja nos ensinam na sua exegese que o telhado representa a nossa própria alma e mente elevada; pregar sobre os telhados significa, portanto, que a nossa inteligência e a nossa vontade precisam estar imbuídas e iluminadas pela Palavra no mais alto grau para anunciá-la com total clareza e fidelidade ao mundo.
Jesus também nos pede para não temer aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma, lembrando que quase todos os apóstolos sofreram o martírio, mas mantiveram a alma intacta. Santo Agostinho ilustrava essa fidelidade com uma frase forte ao dizer que foi melhor Jó no esterco do que Adão no Paraíso, pois Adão, mesmo na abundância, cedeu ao pecado, enquanto Jó, na miséria e na dor, permaneceu fiel a Deus e não permitiu que as circunstâncias mudassem a sua vontade (cf. SERMÃO 51, 12).
Esse verdadeiro temor de Deus nos concede uma liberdade interior extraordinária, como aquela demonstrada por Santo Inácio de Loyola e São Francisco Xavier quando, na pobreza dos primeiros anos da Companhia de Jesus, ouviram um barulho estranho na madrugada e concluíram com santa indiferença que se fosse um ladrão não haveria nada para roubar, e se fosse o demônio ele só faria o que Deus permitisse, decidindo simplesmente voltar a dormir em paz (cf. RIBADENEYRA, Vida de Santo Inácio; CÂMARA, Memórias). Para consolidar essa coragem, Jesus nos aponta a beleza da providência divina ao usar a poesia da criação, afirmando que se o Pai do céu cuida com tanto zelo dos pequenos pardais e conta até mesmo os cabelos da nossa cabeça, com muito mais amor cuidará de nós, que valemos mais do que muitos pássaros.
Ao final de seu discurso, o Senhor nos apresenta uma promessa e uma exortação sobre a necessidade de professarmos a nossa fé diante do mundo, garantindo que se nos declararmos a Seu favor diante dos homens, Ele também se declarará a nosso favor diante do Pai Celeste. Os Padres da Igreja explicam detalhadamente que o texto original grego traz uma riqueza ainda maior ao sugerir um declarar-se “em” Cristo. Conforme nos recordam grandes pastores da antiguidade, como São João Crisóstomo e São Hilário de Poitiers, professar a fé desse modo significa que o nosso testemunho não brota apenas de lábios externos, mas de uma união íntima, existencial e substancial com Ele; quem permanece enraizado no Senhor confessa a sua fé não apenas com palavras fáceis, mas com a própria vida moldada por essa comunhão divina.
Que nesta celebração possamos acolher esse envio missionário, vencendo todos os receios humanos, políticos ou espirituais, e que purificados pelo santo temor de ofender a Deus, depositemos nossa confiança cega na Sua providência, declarando a nossa fé com a vida e com as ações de cada dia, fortalecidos pela Sua Palavra e pelo Seu amor de Pai. Amém.
Pe. Anderson Alves, 21/06/2026





