Artigos, Notícias › 26/06/2021

Homilia na Missa de São Josemaría Escrivá

Celebramos hoje São Josemaría Escriva, sacerdote nascido em 1902 na Espanha, que recebeu a
missão de pregar a vocação universal à santidade e ao apostolado, como filhos de Deus, no meio
do trabalho profissional e das circunstâncias correntes da vida. Através dele, Deus nos chama a
«servir com amor ardente à obra da Redenção», mediante um apostolado de amizade e
sinceridade.

Por ocasião da canonização de São Josemaría o papa João Paulo II disse: “São Josemaría foi
escolhido pelo Senhor para anunciar a chamada universal à santidade e mostrar que a vida de
todos os dias e a atividade corriqueira são caminho de santificação. Pode-se dizer que foi o santo
do cotidiano. De fato, estava convencido de que, para quem vive sob a ótica da fé, todas as coisas
são ocasião de um encontro com Deus, todas se tornam um estímulo para a oração. Vista dessa
forma, a vida cotidiana revela uma grandeza insuspeitada. A santidade apresenta-se
verdadeiramente ao alcance de todos”.

São Josemaría foi o santo do cotidiano. Ele nos recordou que todos os nossos trabalhos, quando
feitos por amor a Deus e ao próximo, são ocasião de encontro com Deus. Tudo pode ser estímulo
para a nossa oração. Assim ele nos ensina que a santidade está ao alcance de todos os cristãos.
A mensagem de São Josemaría era uma novidade na sua época e ainda hoje é revolucionária. O
cardeal Herranz, que trabalhou muitos anos com São João Paulo II, São Josemaría e o beato dom
Álvaro, diz que a afirmação da vocação universal à santidade e ao apostolado é também o centro
do ensino do Concílio Vaticano II. Ele diz que isso é uma mensagem parecida a uma “bomba
atômica”, que ainda deve explodir na vida da Igreja. Quando essa bomba explodir, essa mensagem
se expandir, o nosso mundo será renovado a partir da força da Palavra de Deus.
São Josemaría afirmou que todos os cristãos, de qualquer condição social ou estado de vida, são
chamados à plenitude da vida cristã, ou seja, à santidade. Ele dizia que “para nós, cristãos, a
felicidade é a fidelidade”. Fidelidade a Deus, à graça batismal que recebemos e constitui a
verdadeira fonte da santidade. A felicidade é a fidelidade à nossa vocação original.
São Josemaría ensinou também que todos os cristãos são chamados a estar com Deus, dialogando
incessantemente com ele. Todos são chamados a terem uma alma contemplativa, dentro do
mundo. Isso implica que as realidades cotidianas não são um obstáculo para a contemplação
amorosa de Deus, mas um meio de encontro com Cristo e com o próximo.

Ele disse: “para sermos contemplativos no meio do mundo, temos de nos preocuparmos sempre
com os outros, por amor a Deus, e a não pensar em nós mesmos; de modo que, ao final do dia,
vivido os afãs diários, no nosso lar, na nossa profissão ou ofício, poderemos dizer, ao fazer o
nosso exame de consciência: Senhor, não sei o que dizer de mim mesmo; só pensei nos outros,
por ti!” Segundo São Josemaria, vivemos bem o nosso dia quando pensamos apenas nos outros.
Assim aproveitamos realmente o nosso tempo e colocamos a serviço dos outros os dons recebidos
de Deus.

As leituras de hoje são textos que foram muitas vezes meditados por São Josemaría. Eles revelam
o centro da espiritualidade transmitida por ele à Igreja.

A primeira leitura narra a criação do homem à imagem e semelhança de Deus. Essa criatura é
especial, pois “o Senhor Deus tomou o homem e colocou-o no jardim de Éden, para o cultivar e
guardar” (Gen. 2, 15). São Josemaria dizia que esse texto afirma que a vocação original do homem
é ao trabalho, ao cultivo do jardim, que é o mundo. O mandamento do trabalho é, portanto, prévio ao pecado original. O trabalho bem-feito, por amor a Deus e ao próximo, é nossa vocação original,
e não um castigo. Pelo trabalho participamos da obra da Providência de Deus no mundo. Por isso
o trabalho é um meio de santificação, e não um obstáculo ao nosso encontro com Deus. O Salmo
de hoje é o segundo, que os fiéis do Opus Dei costumam meditar todas as terças-feiras. Fala do
mistério da filiação do Messias, amado por Deus e perseguido pelos poderes desse mundo.

O trecho da Carta aos Romanos (8, 14-17) que escutamos fala do fundamento da espiritualidade
que São Josemaría transmitiu: o mistério da nossa filiação divina. Sobre isso, disse São João Paulo
II: “O Senhor fez com que [São Josemaría] entendesse profundamente o dom da nossa filiação
divina. E ele ensinou a contemplar o rosto terno de um Pai, no Deus que fala a nós através das
mais diversas vicissitudes da vida. Um Pai que nos ama, que nos acompanha passo a passo, e
nos protege, nos compreende e espera de cada um de nós uma resposta de amor. A consideração
desta presença paterna, que acompanha o cristão em todas as partes, lhe proporciona uma
confiança inquebrantável; em todos os momentos pode confiar no Pai celestial. Nunca se sente
só, nem tem medo. Quando se depara com a Cruz, não vê nela um castigo, mas uma missão que
lhe foi confiada pelo próprio Senhor. Portanto, o cristão é necessariamente um otimista, porque
sabe que é filho de Deus em Cristo”.

No Evangelho Lc. 5, 1-11, escutamos as palavras de Jesus Cristo aos Apóstolos: “Avança para
águas mais profundas, e lançai vossas redes para a pesca”. “Duc in altum”: esse é o lema que São
João Paulo II propôs à Igreja no início do terceiro milênio. Essa afirmação foi muitas vezes
meditada e pregada por São Josemaría. Ele percebeu nessas palavras a afirmação da vocação
universal dos cristãos ao apostolado. Todos são chamados a lançar as redes das palavras de Deus
para pescar muitos homens nesse mundo, levando-os para a barca da Igreja, conduzindo-os depois
à outra margem, ou seja, à vida eterna com Deus e todos os santos.

Esse Evangelho diz ainda que Jesus chamou os primeiros Apóstolos no seu lugar de trabalho. O
trabalho profissional é portanto ocasião de encontro com o Senhor. Em Caminho, São Josemaría
disse: “O que a ti te admira, a mim parece-me razoável. – Deus foi-te procurar no exercício da
tua profissão? Foi assim que procurou os primeiros: Pedro, André, João e Tiago, junto das redes;
Mateus, sentado à mesa dos impostos… (S. Josemaria, Caminho, n. 799).

Comentando esse texto, Santo Agostinho disse que os Apóstolos «receberam de Jesus as redes
da Palavra de Deus, lançaram-nas ao mundo, como num mar profundo, e recolheram esse grande
número de cristãos que vemos com assombro» (Santo Agostinho, Sermão 248, 2). São Cirilo de
Alexandria dizia que «a rede continua a ser lançada, enquanto Cristo chama à conversão aqueles
que, segundo a palavra da Escritura, se encontram no meio do mar, quer dizer, no meio das
ondas tempestuosas das coisas do mundo» (São Cirilo de Alexandria, Comentário ao Evangelho
de São Lucas, homilia 12). Agora somos nós que devemos continuar a “pesca divina”. Devemos
lançar as redes da sua Palavra no mar revolto desse mundo, a fim de levar os homens a Cristo, à
Igreja, à vida eterna.

Naquela ocasião apresentada no Evangelho São Pedro passou a noite toda pescando e nada
apanhou. De repente, um desconhecido, o filho do carpinteiro, lhe disse para ir para águas mais
profundas e lançar as redes. No início ele duvidou, mas logo confessou: “sobre a Tua palavra,
lançarei as redes” (Lc 5, 5). Então aconteceu o milagre.

O mesmo acontece conosco, se escutamos o Senhor. São Josemaría disse em Cristo que passa:
“se me seguis, eu vos farei pescadores de homens: sereis eficazes, e atraireis as almas para Deus.
Devemos, portanto, confiar nessas palavras do Senhor: meter-nos na barca, pegar nos remos,
içar as velas, e lançar-nos a esse mar do mundo que Cristo nos deixa como herança. Duc in
altum! (Lc 5, 4): fazei-vos ao largo e lançai as vossas redes para pescar” (S. Josemaría, Cristo
que passa, n. 159).Agradeçamos a Deus o dom da vida e obra de São Josemaría e peçamos a ele a graça de vivermos
e anunciarmos a todos os homens que todos estão chamados à santidade, a participar do
apostolado de Cristo, santificando o próprio trabalho e tendo uma vida realmente contemplativa
no meio do mundo

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