Dom Paulo Cezar destaca memória, santidade e missão nos 80 anos da Diocese de Petrópolis

Durante sua permanência na Paróquia Santo Antônio, no bairro do Alto, em Teresópolis, onde presidiu a missa do padroeiro e a ação de graças pelos 80 anos da Diocese de Petrópolis, o Cardeal Dom Paulo Cezar Costa, arcebispo de Brasília, não escondeu a alegria de retornar à Igreja particular na qual realizou o Seminário Menor e os estudos de Filosofia. Sua alegria se manifestou tanto na celebração da Santa Missa quanto no reencontro com antigos colegas do Seminário Diocesano Nossa Senhora do Amor Divino, hoje sacerdotes atuantes na Diocese.

Em sua homilia, o Cardeal agradeceu o convite do bispo diocesano, Dom Joel Portella Amado, para presidir a celebração jubilar e ressaltou a importância da Diocese na própria vida e vocação.

“Com alegria e afeto, saúdo Dom Joel, digníssimo bispo desta Igreja particular, desta Diocese; saúdo os padres, de forma especial o Padre Renato, digníssimo pároco desta paróquia; saúdo os religiosos, religiosas, seminaristas; saúdo cada um e cada uma; saúdo também as autoridades presentes”, iniciou Dom Paulo Cezar.

Cardeal relembra formação em Petrópolis

Ele recordou o período de formação vivenciado na Diocese: “Aqui eu passei seis anos, no Seminário Nossa Senhora do Amor Divino, em Correas, e tenho certeza de que vocês também ajudaram na minha formação. Tenho certeza de que aquilo que sou hoje devo, em parte, a esta Igreja. Sempre que fazemos memória, precisamos olhar e reconhecer aqueles e aquelas que participaram da nossa vida, marcaram a nossa história; e esta Igreja, sem dúvida, ajudou na minha formação.”

Ao situar a celebração no contexto do jubileu diocesano, o Cardeal sublinhou que “neste dia em que a Igreja celebra com júbilo Santo Antônio, um dos santos mais amados pelo povo cristão e pregador incansável do Evangelho, aqui no Decanato Santa Teresa damos graças a Deus pelos 80 anos da Diocese de Petrópolis: 80 anos de fé e história, de memória, compromisso, santidade e missão”.

Dom Paulo Cezar convidou a assembleia a recordar os pastores e os muitos rostos que construíram essa história: “Celebrar estes 80 anos nos faz recordar os bispos desta Igreja: Dom Manoel Pedro, Dom José Fernandes Veloso, Dom José Carlos Vaz, Dom Filippo Santoro, Dom Gregório Paixão e, agora, Dom Joel Portella. Traz à memória tantos presbíteros que doaram a vida nesta Igreja; tantos leigos e leigas que, com sua doação alegre, bela e generosa, ajudaram a construir estes 80 anos de evangelização e missão. Celebrar é ter uma memória agradecida por tudo o que o Senhor fez e continua realizando hoje na história.”

Paróquia Santo Antônio como “mãe da evangelização” em Teresópolis

O Cardeal recordou ainda o papel histórico da Paróquia Santo Antônio do Paquequer, definida por ele como “mãe da evangelização” em Teresópolis, mostrando como fé, cultura e desenvolvimento da cidade caminharam juntos: desde a primeira capela erguida em 1822, quando a região ainda pertencia a Magé, passando pela elevação à igreja matriz em 1855 e pela criação da Freguesia de Santo Antônio do Paquequer, até se tornar referência religiosa para toda a região.

Inspirando-se na parábola do grão de mostarda, ele explicou que a Diocese e a paróquia são hoje “fruto maduro” de pequenos começos: “Às vezes, vemos hoje a grande hortaliça e não percebemos o que Deus foi fazendo, a partir daqueles e daquelas que plantaram a semente de mostarda. Hoje nós somos esse fruto maduro; hoje vocês aqui são esse fruto maduro desses 80 anos: uma Igreja viva. É preciso fazer memória; é preciso ir reconhecendo o que Deus fez e o que Deus continua fazendo hoje.”

A verdadeira sabedoria vem da intimidade com Deus

Ao comentar as leituras, Dom Paulo Cezar aprofundou a figura de Santo Antônio a partir do Livro da Sabedoria, destacando a importância do dom da sabedoria. Ele lembrou a oração do texto bíblico — “Orei e foi-me dada a prudência, supliquei e veio a mim o espírito da sabedoria” — e afirmou que a sabedoria “é mais preciosa que o ouro, a prata e todas as riquezas da terra” e “mãe de todos os bens”.

Sobre Santo Antônio, afirmou que ele foi “homem de vasta inteligência e sólida formação teológica, mas que sabia que o verdadeiro tesouro não está no conhecimento acumulado, e sim na sabedoria que nasce da intimidade com Deus”. Ressaltou também a atualidade de sua mensagem: “Vivemos hoje numa sociedade em que se tem muita informação, mas falta sabedoria. Corremos o risco de viver num mundo com muitas informações e pouca sabedoria.”

O Cardeal estimulou os fiéis a pedirem insistentemente a graça da sabedoria: “Não tenhamos medo de pedir a Deus a graça da sabedoria. Num mundo fragmentado, seduzido pelo poder, pelo prestígio, pelo sucesso material, Santo Antônio nos recorda que a verdadeira riqueza é Cristo. Quem encontra Cristo encontra o tesouro escondido que dá sentido a toda a existência.”

Comentando a Segunda Carta aos Coríntios, Dom Paulo Cezar retomou a imagem paulina dos “vasos de barro”: “São Paulo reconhece a fragilidade humana, mas também a grandeza da graça de Deus que atua em nós. É justamente dessa fragilidade que Deus quer se servir, para que o seu mistério possa avançar.” Ele ressaltou que “a santidade não consiste em ser perfeito segundo os critérios humanos, mas em permitir que Deus realize sua obra em nossa fragilidade. O Senhor não escolhe os mais fortes; ele fortalece aqueles que escolhe. Não escolhe os mais capazes; capacita aqueles que chama.”

“Vós sois a luz do mundo”

Ao refletir o Evangelho — “Vós sois o sal da terra, vós sois a luz do mundo” — o Cardeal insistiu no valor do testemunho cristão: “A vida fala; a existência fala. Com o testemunho, a palavra vem acompanhada da vida.” Lembrou exemplos de grandes santos, como Santo Antônio, Santa Teresa de Calcutá, Santa Dulce dos Pobres e São João Paulo II, e afirmou que o discípulo é aquele que “é capaz de transformar o mundo, de dar sabor ao mundo, de iluminar e, iluminando, conduzir as pessoas à glória do Pai do Céu”.

Para ele, a sociedade atual, marcada por “indiferença religiosa, cultura do descarte, violência, solidão e perda do sentido da vida”, precisa urgentemente dessa luz: “Diante dessas realidades, o Senhor continua dizendo a cada batizado: ‘Vós sois a luz do mundo’. […] Não apenas os santos do passado, mas cada um de nós é chamado a irradiar a luz de Cristo na família, no trabalho, na comunidade, na sociedade.”

Dom Paulo Cezar indicou que, segundo o exemplo de Santo Antônio, essa luz nasce da união entre “escuta da Palavra de Deus, vida de oração e amor concreto aos irmãos, especialmente aos mais pobres e necessitados”.

Agradecer o passado e comprometer-se com o hoje da história

Na parte final da homilia, o Cardeal refletiu sobre a identidade da Diocese de Petrópolis à luz da Lumen Gentium, Constituição Dogmática sobre a Igreja, recordando que em cada Igreja particular está presente a única Igreja de Cristo. Ele alertou para o risco de se olhar apenas o aspecto institucional, esquecendo o mistério profundo da Igreja como “sacramento de salvação”, que realiza a obra de Deus por meio de “vasos de barro” — bispos, padres, religiosos e leigos.

Reforçou a importância da comunhão concreta com o bispo e com o pároco, e não apenas com o Papa de forma abstrata, e afirmou que é na realidade local que a salvação de Deus se torna visível. “Fazer memória é ter a alma agradecida por tudo o que Deus fez e faz; mas é também comprometer-se com o hoje da história, buscando construir uma Igreja mais bela, mais evangelizadora, mais missionária”, concluiu.

Por fim, pediu que a celebração dos 80 anos da Diocese renove o ardor missionário de todos: “Que a celebração desses 80 anos renove o ardor missionário dos presbíteros e de todos os batizados, no caminho de uma Igreja de discípulos missionários, em que todos sejam comprometidos com o anúncio e o testemunho de Jesus Cristo.”

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