Dom Joel Portela: “”somos convidados a perceber um detalhe do carinho do Pai Eterno”

Dom Joel Portela Amadobispo de Petrópolis (RJ) foi o pregador do terceiro dia da Novena Preparatória para a Festa do Pai Eterno. Em 2023, durante a Assembleia Nacional dos Bispos do Brasil, Dom Joel Portella foi eleito para presidir a Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil para o quadriênio 2023-2027. Em 31 de janeiro de 2024 é nomeado pelo Papa Francisco, Bispo da Diocese de Petrópolis, com sua posse ocorrida no dia 09 de março de 2024 na Catedral São Pedro de Alcântara.

Eis a íntegra da homilia:

Minhas irmãs, meus irmãos, a minha primeira palavra é uma palavra de gratidão, gratidão aos Missionários Redentoristas, por meio do Padre Provincial, a toda a família redentorista, que tão carinhosamente cuida desse santuário, minha gratidão à Arquidiocese de Goiânia, a meu amigo de longa data, Dom João Justino, a Dom Donival aqui presente. Gratidão a vocês. Eu cheguei cedo por estar um pouquinho com vocês e me sentir junto com a família redentorista, junto com toda a Arquidiocese de Goiânia e com vocês aquilo que foi dito no início da missa.

Como é que é a mesma frase? “Somos todos romeiros!”. Vamos repetir para não ficar feio na televisão: “somos todos romeiros, somos todos, e isso somos todos romeiros do pai eterno!”.

É tão bom estar aqui! Se amanhã eu já tenho que voltar para minha terra, voltar para o meu dia a dia que é bom e gostoso, eu volto daqui me sentindo romeiro como cada um, como cada uma, e a alegria de poder participar da festa e participar desse terceiro dia em preparação à festa. O tema desse ano é muito interessante porque vem do jeito como Jesus rezava, usando uma palavra lá do seu idioma, Jesus vai chamar o pai eterno, o divino Pai Eterno, Abbá!. A turma que estuda isso, até hoje vai tentando traduzir essa palavra para nós, para o nosso idioma. Eu diria “papai”, “meu papai”, “meu papazinho”. A tradução pode ser qualquer uma dessas e outras, mas o que fica por trás da novidade de Jesus, que o pessoal daquele tempo não chamava o divino Pai Eterno desse jeito, não chamava sequer a Deus de Pai, está em que Jesus mostrou uma profunda intimidade com o Pai e mostrou uma coisa que, para mim, pessoalmente, é muito significativa: mostrou que o divino Pai Eterno é carinho, é amor, é misericórdia.

Isso é fundamental, isso muda tudo, é isso que fascina a vida de cada um de nós e se lá no corre e corre da vida, nós acabamos às vezes, acho que vocês não, que eu só estou vendo gente santa aqui na minha frente, mas vocês estão rindo, né, mas é isso mesmo. Às vezes a dor, às vezes o sofrimento, às vezes a dificuldade, às vezes a maldade, tudo isso pode fazer com que a amargura tome conta do coração e nós nos esquecemos dessa palavra tão importante que percorre toda a preparação desse ano e a festa, o Abbá, o pai, “meu pai”, “meu papazinho”, “meu papai”, e aí você pensa numa criança e todo mundo aqui tem ou teve criança em casa. Quando a criança vem assim daquele jeitinho, “meu papai”, “minha mamãe” também, mas “meu papai”, e a criança quer ficar no teu colo, o que significa, no caso aqui por falar no pai, o que significa o colo do pai, carinho, aconchego, proteção e tudo mais que a gente possa imaginar.

Por isso, hoje, terceiro dia, nós somos convidados a perceber um detalhe do carinho do Pai Eterno, guarda isso, pelo menos do dia de hoje, o divino Pai e, se possível, dar alguma coisa para a pessoa que ama. Não faz sentido, no nosso dia a dia, nas nossas relações humanas, você amar alguém e não querer estar perto da pessoa amada. Vou fazer uma pergunta pouco malvada, mas vou fazer. Tem alguém aqui que tem saudade de outra pessoa? Alguém respondeu, ela gritou lá atrás! A saudade pode ser de alguém que está distante, em outro país, numa outra cidade. Saudade de alguém que já foi para junto do divino Pai Eterno, por que existe saudade? Porque na vida, existiu amor, existiu carinho. Por isso é tão importante perceber a presença do divino Pai Eterno como uma presença carinhosa no meio de nós.

Mas não tem só isso. Quando você ama, você quer dar alguma coisa para outra pessoa. Você quer manifestar o seu carinho por meio de alguma coisa. Certa vez, num consultório médico, me preparando para fazer um exame, tinha um senhor em frente a mim sentado com um bebê no colo. O pai ia doar uma parte do fígado para o bebê. E uma senhora, que às vezes a gente fala umas coisas que não deve, disse: “eu nunca faria isso, doar um pedaço de mim para ninguém”. O pai olhou para aquela senhora, deu uma respirada e disse: “Mas é meu filho, eu daria eu daria a minha vida”. “Você não faria isso?” Cuidado agora com a resposta. “Você não faria isso?” Não, estou vendo que não.

Não deixe o medo da doação tomar conta de você. O amor é mais forte do que qualquer dor, do que qualquer dificuldade, do que qualquer medo. E olha que bonito hoje, o terceiro dia. O divino Pai Eterno não apenas nos deu coisas e ele nos dá, mas nos deu seu próprio filho. Se quem ama quer ficar junto e se quem ama dá alguma coisa, Jesus é o grande presente do Pai. Eu gosto de dizer, aqui no Brasil: “o senhor esteja convosco!” e qual é a resposta? “Ele está no meio de nós!”. Proclamação de fé, proclamação do amor e do divino Pai Eterno que deu seu filho para ficar junto de nós. Por isso, se a vida às vezes é difícil, se a vida às vezes é dura, é preciso perceber essa presença do Senhor no meio de nós.

Uma presença por meio de vários sinais, desde os pequenos sinais até os grandes sinais. Vocês querem ver um? Olha como o Pai Eterno é carinhoso com a gente. Vocês já viram a Lua? Dá uma olhadinha para a câmera. A câmera pegou ainda pouco. Olha lá. São João XXIII, no dia em que foi apresentado como Papa, pede para olharmos a lua. Olha lá a câmera mostrando a lua para a gente. É a luz da Lua que não é o Sol, não tem a luz própria, mas da luz que recebe do Sol ela ilumina a noite. Noite sem Lua tem sua beleza, mas eu quero uma noite com a Lua, a iluminar nossos caminhos, mesmo que uma lanterna não tenha mais a bateria, a pilha.

Você quer outro exemplo? A Lua está lá. Olha para o lado. Olha para a pessoa que está do lado. Não vai fazer muita força para dizer. Você é um presente do Pai Eterno para mim. Fala isso aí. Mas aí, vocês também são presentes para mim.

Você quer outro sinal? Os dois santos de hoje. São Pedro e São Paulo. Dois homens diferentes na personalidade, dois jeitos diferentes de viver a vida, de viver a fé, mas olha o que a palavra de Deus fala para nós deles hoje. Pedro, no Evangelho de hoje, Jesus faz uma pergunta para preparar para a outra. De quem o pessoal está falando? Se fosse hoje, Jesus diria assim: o que as redes sociais estão dizendo de mim? Naquele tempo, o que o pessoal está falando? Desculpe a brincadeira. O que as fofoqueiras estão dizendo de mim? Os fofoqueiros pior ainda? Um diz uma coisa, outro diz outra, porque não descobriu o que Pedro descobriu. Qual foi a resposta de Pedro? Tu és o Messias, o Filho de Deus. Pedro conviveu com Jesus. Pedro viu quem era Jesus. Pedro viu Jesus. Pedro acompanhou os milagres. Pedro se debruçou diante de Jesus. Afasta de mim, Senhor, porque eu sou pecador. Qual foi a resposta? Tu és o Messias.

Paulo, não tem hoje o texto, mas a gente conhece. São Paulo tem um texto que, na Carta dos Filipenses, me deixa encantado. Para mim, o viver é Cristo. São duas expressões dessa paixão, desse amor que percebe o carinho do céu por nós, o carinho do Pai Eterno que nos dá, na força do Espírito, o Filho. E aí, quero ver agora, quem não acertar. Quando alguém diz para você, “eu te amo”, qual é a única resposta certa? Vocês não sabem amar, não? É isso, isso, não é, eu vou publicar no Instagram, não. Vamos dizer juntos: Eu te amo. Qual é a resposta? Eu te amo também. Se você percebe que, por Jesus, na força do Espírito, o divino Pai Eterno diz: “eu te amo”, você só pode dizer o que para ele? Sabe quando você diz isso? É a fé.

Eu creio, eu acredito, eu sou apaixonado. Por isso, olhe a primeira leitura e a segunda leitura de hoje. Pedro preso. Paulo prestes a ser morto. Os dois, Pedro e Paulo presos e condenados por causa de Jesus. Aí você diz: “tá estranho esse negócio. Ele veio lá de longe para me enganar, porque ele falou que o céu é carinhoso e eu vejo o Pedro preso, Paulo condenado”. Olha que coisa. Pedro, as portas da prisão são abertas e Paulo sabe que passando a porta da morte, como Pedro passou pelas portas da prisão e viu a rua, Paulo passando pela porta da morte, que todos nós temos que passar um dia, Paulo vê o Senhor na eternidade. Os olhos de Paulo e os nossos olhos vão ver face a face aquele Senhor que convida, aquele que nós tanto amamos. Isso é grande ou não é? É muito grande. É muito significativo. Por isso, olhe a frase de Pedro na primeira leitura. Eu sei que o Senhor me libertou!.

Olha a frase de Paulo na segunda leitura. Combati o bom combate, guardei a fé. É como se dizer, guardei esse amor tão grande. É o discípulo do Pai Eterno, o devoto, o romeiro, a romeira e aquela pessoa que descobre no Pai Eterno esse carinho infinito manifestado por Jesus e que, vindo aqui, em meio a todas as dificuldades, “prisão de Pedro, condenação de Paulo” não perde a fé e continua sendo romeiro do Pai Eterno, continua sendo apaixonado, apaixonada por Cristo e continua amando a igreja.

Há dificuldades, meu Deus, quem não tem? Mas como é que diz o provérbio: “ruim com ela, pior sem ela”. É isso, é isso. Ruim com ela, pior sem ela. E não é ruim não. Se nós nos deixamos conduzir pela força do Espírito, o Senhor Jesus, como em Emaús, caminha conosco e o Espírito nos fortalece.

Posso fazer um pedido e terminar? Viram a cadeira em que eu fico? É o tempo de eu chegar lá. Não mais do que isso. Faz silêncio. Faz um silêncio profundo e tem essa frase na cabeça: “Senhor, eu te amo”. A frase de Pedro, “Senhor, tu sabes que eu te amo. Divino Pai Eterno, tu sabes que eu sou teu romeiro. Tu sabes que eu te amo”. E aí, do teu jeito, do teu modo, faz a tua oração. Agradece todo esse carinho, toda essa força, todo esse amor. Mesmo não merecendo esse carinho, esse amor, o Divino Pai Eterno, na força do Espírito, pela salvação de Jesus, nos ama e nos ama infinitamente. Se alguém diz: “Eu te amo”, só tenho uma resposta: “Eu te amo também”. No silêncio, no mais profundo silêncio, mas agora, façamos a nossa oração pessoal, silenciosa, do fundo do coração. Amém.

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