Queridos irmãos, celebramos hoje o vigésimo terceiro domingo do Tempo Comum e iniciamos a reflexão sobre o capítulo dezoito do Evangelho de São Mateus. Este trecho é dedicado inteiramente à vida em comunidade, ensinando-nos como deve ser o convívio dos cristãos. A ideia central é que toda a nossa existência precisa ser regida pela caridade, o amor verdadeiro que nos une plenamente a Deus e, por meio d’Ele, aos nossos irmãos.
A caridade, virtude sobrenatural infundida em nosso batismo, precisa ser cultivada com o auxílio da graça e o exercício da nossa liberdade. Por meio dela, amamos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo por causa de Deus, reconhecendo que somos todos filhos do mesmo Pai. Amar ao próximo é o grande mandamento que sintetiza toda a revelação sagrada (Dt 6, 5; Lv 19, 18). Quando o mestre da Lei questiona Jesus sobre o mandamento principal, o Senhor recorda que toda a Lei e os Profetas se sustentam no amor a Deus e ao próximo (Mt 22, 37-40). O próprio Decálogo (Êx 20, 1-17) divide-se nesse duplo movimento: os três primeiros preceitos tratam do amor a Deus, e os sete restantes, do amor aos irmãos. Na segunda leitura de hoje, São Paulo reitera que o amor é o pleno cumprimento da Lei, pois quem ama o irmão não lhe faz mal algum (Rm 13, 8-10).
No Evangelho de hoje, o amor cristão se manifesta de duas formas concretas e inseparáveis: a correção fraterna (Mt 18, 15-18) e a oração em comunidade (Mt 18, 19-20). Ambas caminham juntas. Corrigimos o irmão para mantê-lo em comunhão de oração conosco e, ao mesmo tempo, só é capaz de corrigir com sabedoria quem cultiva uma vida íntima de oração.
O dever da exortação fraterna já estava presente no Antigo Testamento, como lemos no profeta Ezequiel (Ez 33, 7-9) e no livro dos Provérbios, que declara que a correção ao sábio gera gratidão, enquanto a exortação ao insensato produz desprezo (Pr 9, 8). O verdadeiro sábio é humilde para acolher a exortação e amadurecer; já a insensatez nasce do orgulho de quem se julga autossuficiente. A palavra de hoje nos convida a um sincero exame de consciência sobre como acolhemos as correções em nossa vida.
A correção deve brotar sempre do amor, nunca do desejo de humilhar. Comentando esta passagem na Catena Áurea, Santo Agostinho nos exorta sobre a intenção do coração diante da ofensa:
Se teu irmão pecou contra ti, perdoa-lhe em teu coração; mas se o perdoares e te calares, cometerás maior falta do que ele. Ele errou, e com isso feriu a si mesmo; não queres curar a ferida do teu irmão? Deves esquecer a tua injúria pessoal para buscares a cura dele. Se o fizeres por ressentimento, já não estás a corrigi-lo, mas a satisfazer o teu próprio orgulho (Santo Agostinho, Sermão 82, citado na Catena Áurea de São Mateus 18, 15).
Perdoar é uma obrigação contínua, como rezamos no Pai-Nosso (Mt 6, 12), mas a caridade autêntica exige buscar a salvação de quem errou. O pecado rompe a comunhão com Deus e com a Igreja. Por essa razão, a orientação de Jesus é ir ao irmão em particular (Mt 18, 15). Se a falta é reservada, a correção deve ser discreta, protegendo a fama do próximo sem murmurações ou julgamentos públicos. Santo Agostinho compara o pecador a alguém adormecido espiritualidade:
Aquele que pecou é como quem está adormecido ou tomado pela cegueira do pecado; por isso, tu, que estás lúcido, deves ir até ele para despertá-lo. Não vás para acusar com acrimônia, mas para oferecer o remédio com brandura e restaurar o teu irmão (Santo Agostinho, Sermão 82, citado na Catena Áurea de São Mateus 18, 15).
Caso o irmão não ouça o apelo a sós, o Senhor orienta levar uma ou duas testemunhas (Mt 18, 16; Dt 19, 15). Santo Agostinho (Santo Agostinho, De Urbis Excidio, citado na Catena Áurea de São Mateus 18, 16) ensina que essa medida visa despertar a razão do faltoso diante da gravidade dos fatos. Se ainda assim persistir a obstinação, a falta deve ser levada à Igreja (Mt 18, 17), cabendo aos pastores o dever de zelar pela unidade do rebanho, a exemplo do próprio Agostinho, que dedicou seu ministério episcopal a combater os erros e reconciliar os afastados.
Se nem a Igreja for ouvida, o obstinado passa a ser considerado como um pagão ou publicano (Mt 18, 17). Isso significa que ele próprio escolheu afastar-se da comunhão. Diante disso, resta-nos a atitude de orar com perseverança pela sua conversão, para que possa retornar ao convívio da fé.
Ao falar sobre a autoridade de ligar e desligar (Mt 18, 18), o Evangelho utiliza uma imagem hebraica sobre desatar as amarras do pecado. Assim como Jesus ordenou que desatassem as faixas de Lázaro ao ressuscitá-lo (Jo 11, 44), a Igreja recebeu a autoridade de desatar os nós da culpa por meio do sacramento da reconciliação, devolvendo a vida graça ao pecador.
Por fim, o Senhor promete que onde dois ou três estiverem reunidos em Seu nome, Ele estará presente (Mt 18, 19-20). Santo Agostinho e os Santos Padres (Santo Agostinho; São João Crisóstomo; Santo Hilário de Poitiers, citados na Catena Áurea de São Mateus 18, 19-20) ensinam que a eficácia da oração não depende do número de pessoas, mas da união sincera dos corações na verdade e na caridade.
Peçamos ao Senhor, nesta Santa Missa, a graça de viver este Evangelho. Que tenhamos a coragem e a delicadeza de corrigir nossos irmãos para a salvação deles, e a humildade de acolher as correções que nós mesmos precisamos receber. Que a caridade, a oração e a busca pela unidade guiem sempre os nossos passos. Amém.
Texto da Homilia no 23º Domingo do Tempo Comum – 06 de setembro de 2026





