Livro de Daniel inspira reflexão sobre esperança, paz e soberania de Deus.
O Padre Gabriel Vieira Teixeira da Costa a convite do bispo diocesano, Dom Joel Portella Amado, neste mês da Bíblia, nos encontros com o clero, falou sobre o Livro de Daniel, indicado como reflexão para este período pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O Livro de Daniel é uma obra marcada pela esperança, pela fidelidade a Deus e pela proclamação de que somente o Senhor é o verdadeiro soberano da história. Essa foi uma das principais reflexões apresentadas pelo Padre Gabriel Vieira Teixeira da Costa em entrevista a Dom Joel Portella Amado.
A conversa foi motivada pela proposta da Conferência Episcopal de dedicar, durante o Mês da Bíblia, uma atenção especial ao Livro de Daniel. Para o sacerdote, a oportunidade de estudar e meditar sobre o texto bíblico possibilitou um novo olhar sobre a espiritualidade e a ação pastoral. “Essa oportunidade de meditarmos um pouco sobre o Livro de Daniel nos permitiu recentrar a nossa espiritualidade e também a nossa ação pastoral à luz da Palavra de Deus”, afirmou.
A seguir a entrevista na íntegra:
Dom Joel Portella Amado: O que significou para você falar sobre o Livro de Daniel para os grupos de padres?
Padre Gabriel Vieira Teixeira da Costa: Essa oportunidade de meditarmos um pouco sobre o Livro de Daniel nos permitiu recentrar a nossa espiritualidade e também a nossa ação pastoral à luz da Palavra de Deus. Esse foi um pedido da nossa Conferência Episcopal para que, neste Mês da Bíblia, escutássemos, de modo especial, esse livro.
A experiência de preparar essa conversa com os padres também me fez retomar os principais temas do Livro de Daniel: a teologia da história, a proclamação da soberania de Deus e a não subserviência aos impérios deste mundo. O livro proclama que Deus é o Senhor da história e que nada — realmente nada, nenhum sistema político, nenhuma ideia ou estrutura deste mundo — pode ocupar um lugar que somente Deus deve ocupar na vida dos pastores e dos fiéis do Senhor.
Essa experiência de voltar ao Livro de Daniel e preparar esse encontro com os padres me fez rever não somente um pouco da minha vida pastoral, mas também fazer uma espécie de anamnese da minha caminhada na paróquia. Quantas vezes somos confrontados com realidades que nos fazem perder a esperança, concentrar-nos nos problemas e desafios imediatos e esquecer que Deus conduz a história e utiliza os acontecimentos para provar a sua fidelidade! As suas promessas realmente triunfam diante de todos os impérios do mundo.
Então, nessa conversa com os padres, nasceu e cresceu no meu coração uma frase: nós, sacerdotes, somos chamados a ser guardas da esperança. Somos homens chamados a guardar a esperança na experiência da fidelidade de Deus e a ajudar os nossos irmãos, que caminham nas nossas comunidades, a serem pessoas de esperança e a viverem verdadeiramente a esperança cristã.
Dom Joel: Você vê no Livro de Daniel um livro bastante atual?
Padre Gabriel: Sim, sem dúvida alguma. A Palavra de Deus é, realmente, lâmpada para os nossos pés. Percebemos que o Livro de Daniel — e, com ele, toda a verdade da nossa fé — confirma que a Sagrada Escritura é inspirada, viva e vivificante.
A atualidade da Palavra de Deus se traduz exatamente nisso: ela se aplica a cada momento da história e parece feita precisamente para aquele momento. Essa é a sua potência.
Hoje, sobretudo quando olhamos para todos os desafios globais, regionais e nacionais, vemos que somos instados por essa Palavra a renovar a nossa esperança, proclamando a soberania de Deus diante de tantas tentações de subserviência e, de modo especial, de desesperança.
Dom Joel: O Livro de Daniel trata da esperança num momento em que parece que tudo desapareceu?
Padre Gabriel: Sim. O Livro de Daniel nasce da experiência da crise do povo de Deus. Ao reler a sua história à luz da Aliança, o povo recebe esta palavra de Deus: a fidelidade divina nos faz triunfar diante de qualquer circunstância da vida.
É, portanto, um livro profundamente marcado pela esperança. Essa esperança culmina, inclusive, na profecia do capítulo 7, na visão de Daniel sobre o Filho do Homem. Essa é a visão à qual Nosso Senhor recorre para se apresentar como aquele que vem realizar plenamente a promessa de Deus: o Filho do Homem que desce dos céus para estabelecer o seu reinado eterno.
O Livro de Daniel, assim, já nos conduz ao Novo Testamento e nos faz encontrar em Jesus a plenitude dessa promessa. Para nós, cristãos, essa promessa já não é apenas uma expectativa: é uma realidade. O Reino de Deus já começou neste mundo por meio do Evangelho plantado em nossos corações.
Dom Joel: Algumas pessoas dizem que o Livro de Daniel é difícil e confuso. De onde vem essa dificuldade?
Padre Gabriel: Acredito que essa dificuldade nasce dos diversos gêneros literários presentes no livro.
Nos primeiros seis capítulos, encontramos sobretudo narrativas de fidelidade. Depois, aparece um gênero literário bastante desafiador: o apocalíptico. Esse gênero utiliza muitos símbolos, sinais e imagens, algumas até assustadoras, como feras, bestas, guerras e acontecimentos catastróficos.
Toda essa linguagem apocalíptica, que às vezes pode assustar ou confundir as pessoas, é, na verdade, um gênero literário que encontramos tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, especialmente no Livro do Apocalipse de São João. O Apocalipse recolhe muitas imagens da literatura apocalíptica de Daniel.
No fundo, essa linguagem, que parece difícil e confusa, é uma leitura simbólica da própria história de Israel e da soberania de Deus. Toda aquela linguagem tem como finalidade fazer emergir uma verdade: as bestas, as feras e os poderes deste mundo que agem como animais selvagens, destruindo, violentando e provocando violência, todos eles perecem diante do Reino de Deus.
Esse Reino vem do alto e não vence pela violência. Ele vence por meio de um reinado que traz a paz. É o Reino que entra no mundo como desígnio de Deus, o Senhor da história.
Portanto, no fundo, essa linguagem tão difícil e desafiadora é uma forma de proclamar a soberania de Deus e mostrar a besta fera e o destino dos poderes deste mundo.
Dom Joel: O Livro de Daniel não prevê o futuro nem é um livro de adivinhação. É um livro que, por meio de uma linguagem própria e peculiar, explica e interpreta o presente.
Padre Gabriel: Exatamente. Até porque todas as Sagradas Escrituras, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, proíbem taxativamente qualquer tipo de prática de adivinhação. Isso é um pecado gravíssimo contra Deus. Somente Deus é o Senhor da história; somente Ele conhece o passado, o presente e o futuro. A nós, isso não cabe. Nosso Senhor, no Evangelho, veta claramente qualquer tipo de adivinhação, inclusive a respeito do seu retorno, da parusia. Portanto, esse é, para nós, um assunto interditado.
Deus expressamente não deseja isso para o seu povo. Ele deseja a fidelidade e a Aliança. A adivinhação é, exatamente, uma demonstração de desconfiança em relação a Deus. Queremos fazer o nosso caminho sem Ele.
O Livro de Daniel, portanto, não é um livro de adivinhação nem uma forma de previsão de acontecimentos futuros. É um livro que nos ajuda a interpretar os poderes deste mundo à luz da soberania e do poder de Deus, que são eternos e absolutos. De fato, o Livro do Apocalipse também é isso: uma leitura do momento presente à luz das verdades eternas de Deus.
Dom Joel: Que conselho você daria a alguém que dissesse: “Eu gostaria de ler o Livro de Daniel, mas acho que ele é difícil”?
Padre Gabriel: Eu aconselharia, primeiramente, a leitura atenta dos seis primeiros capítulos. Ali encontramos uma narrativa mais linear e simples, menos simbólica e com uma linguagem de mais fácil compreensão. Nessa parte, emerge um tema muito claro: a fidelidade a Deus.
A fé gera a Aliança com Deus, e essa Aliança configura a nossa existência e a nossa identidade. Essa relação com Deus permeia a nossa vida e dá identidade a todas as nossas relações: com as outras pessoas e com a sociedade.
Assim, nos primeiros capítulos, é importante acolher essa grande verdade que é apresentada. Depois, ao continuar a leitura do Livro de Daniel, especialmente na parte mais apocalíptica e simbólica, é preciso concentrar-se em uma chave de leitura: a soberania de Deus.
Essa deve ser a chave para compreender essa parte do livro: o poder de Deus sobre os poderes representados pelas feras e sobre os poderes mundanos.
Se você ler os capítulos 7 a 11 tendo como chave de interpretação a ideia de que os poderes deste mundo são simbolizados pelas feras, enquanto a soberania de Deus é proclamada pela vinda do Filho do Homem, compreenderá que o poder de Deus sempre vencerá os poderes temporais deste mundo.
Com essa perspectiva, será possível fazer uma leitura proveitosa e muito saudável do Livro de Daniel.






