Entre os muitos temas tratados por Dom Cirilo Folch Gomes em “Riquezas da Mensagem Cristã”, poucos recebem uma exposição tão cuidadosa quanto o primado de Pedro e sua continuidade na vida da Igreja. A partir de uma leitura atenta da Escritura, da Tradição e da história eclesial, o autor apresenta uma síntese sólida e acessível sobre a natureza do ministério petrino e sua transmissão ao longo dos séculos.
Para Dom Cirilo, o ponto de partida é claro: o ministério confiado a Pedro por Cristo não se esgota na pessoa do apóstolo, mas pertence à própria estrutura da Igreja. Assim como Moisés, chamado “pastor de Israel”, foi sucedido por Josué, também Pedro deveria transmitir seu encargo enquanto durasse a comunidade fundada por Cristo. Nada nos textos bíblicos que tratam do primado sugere que esse ministério fosse limitado ao período apostólico; ao contrário, a lógica interna das palavras de Jesus aponta para uma função permanente.
A interpretação de Mateus 16,18–19 ocupa lugar central em sua argumentação. A promessa das chaves, o poder de ligar e desligar e a garantia de que as portas do inferno não prevalecerão são entendidas como expressão da presença contínua de Cristo na Igreja. Pedro é o representante visível daquele que permanece com sua comunidade “até a consumação do século”. A missão de confirmar os irmãos, mencionada em Lucas 22, e o pastoreio confiado em João 21 reforçam essa dimensão duradoura.
Dom Cirilo observa que Jesus não apenas previu a continuidade da Igreja, mas rezou explicitamente por aqueles que viriam a crer por meio da palavra dos apóstolos. A missão confiada ao colégio apostólico, portanto, não se restringe à primeira geração. Dentro desse colégio, a figura de Pedro aparece como princípio visível de unidade, cuja função não poderia desaparecer sem afetar a própria estrutura da Igreja.
O autor dialoga também com posições críticas, como a do teólogo protestante Oscar Cullmann, que reconhece o primado de Pedro, mas o considera limitado aos primeiros anos da Igreja. Dom Cirilo mostra que essa interpretação não se sustenta nem biblicamente nem historicamente. Se Pedro tivesse renunciado ao encargo recebido, ou se sua função tivesse sido absorvida por outra liderança, os textos do Novo Testamento teriam registrado tal mudança. Além disso, a história da Igreja primitiva revela um dado incontornável: desde muito cedo, apenas o bispo de Roma é reconhecido como sucessor de Pedro.
A tradição patrística confirma essa percepção. Já no final do século I, o papa Clemente intervém na comunidade de Corinto para restaurar a ordem. Inácio de Antioquia, no início do século II, descreve a Igreja de Roma como aquela que “preside à caridade”. Irineu, pouco depois, afirma que todas as Igrejas devem concordar com a Igreja de Roma por causa de sua “primazia mais poderosa”. Para Dom Cirilo, esse conjunto de testemunhos não pode ser explicado como uma evolução acidental ou uma distorção histórica, mas como a manifestação concreta da vontade de Cristo, inicialmente implícita e depois reconhecida pela comunidade cristã.
A partir dessa base, o autor mostra que o primado pontifício não é apenas uma questão de organização eclesiástica, mas uma verdade dogmática, definida solenemente pelos concílios de Lião, Florença e, de modo definitivo, pelo Concílio Vaticano I. A Igreja, chamada a ensinar indefectivelmente a verdade revelada, necessita de um árbitro supremo capaz de confirmar os irmãos na fé e de preservar a unidade diante das crises doutrinais. A história das heresias, especialmente no período ariano, ilustra a necessidade dessa instância.
Dom Cirilo conclui que o primado de Pedro, transmitido ao bispo de Roma, pertence à constituição divina da Igreja. Não é um privilégio honorífico, mas um serviço essencial à unidade, à verdade e à continuidade da fé apostólica. Sua exposição, ao mesmo tempo fiel à tradição e acessível ao leitor não especialista, mostra por que “Riquezas da Mensagem Cristã” permanece uma obra de referência para quem deseja compreender a estrutura da Igreja e o lugar do ministério petrino em sua vida.





