Dom Ireneu Penna ocupa um lugar singular na história intelectual e educacional brasileira. Engenheiro de formação, professor universitário e monge beneditino, sua trajetória revela uma combinação rara de fé, ciência e compromisso pedagógico. Mais do que um acadêmico brilhante, foi um homem capaz de integrar tradição e inovação, tornando-se referência tanto na Filosofia e na Teologia quanto na renovação do ensino da Matemática no país.
Nascido em 1916, em São José dos Campos, mudou-se ainda jovem para o Rio de Janeiro, onde estudou cultura clássica no Liceu Francês. Aos 21 anos, formou-se em Engenharia Civil pela então Universidade do Rio de Janeiro e obteve licenciatura em Matemática. Sua carreira pública começou cedo: foi secretário de Educação e Cultura do Distrito Federal (à época, Rio de Janeiro) e, em 1939, partiu para Paris para aprofundar seus estudos em Filosofia, justamente no ano em que a Europa mergulhava na Segunda Guerra Mundial.
Em Paris, ampliou sua formação em Matemática, Filosofia, Sociologia e Psicologia. Aproximou-se do pensamento de Jacques Maritain, cuja influência marcou sua leitura de Santo Tomás de Aquino e seu modo de articular fé e razão. Num contexto em que o prestígio intelectual brasileiro gravitava em torno dos bacharéis em Direito, destacou-se como engenheiro e intelectual católico, ligado ao Centro Dom Vital e atento às transformações culturais do século XX.
Em 1941, aos 24 anos, ingressou no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, onde encontrou o ambiente ideal para unir vida espiritual e reflexão intelectual. Ordenado sacerdote em 1947, passou a lecionar Matemática e Filosofia no Colégio e na Faculdade de São Bento. Sua vocação docente consolidou-se ao longo das décadas, marcada pela clareza, pelo rigor conceitual e pela capacidade de integrar saberes distintos sem reduzi-los.
Nos anos 1960, em meio ao Movimento da Matemática Moderna, Dom Ireneu tornou-se um dos principais responsáveis por introduzir no Brasil as propostas inovadoras do belga Georges Papy, que buscavam renovar currículos, métodos e materiais didáticos. Sob sua liderança, o Colégio de São Bento transformou-se em um verdadeiro laboratório pedagógico, com novos livros, materiais concretos e os célebres “Apontamentos de Matemática”, elaborados por ele para uso dos alunos. Essa iniciativa marcou profundamente o ensino da disciplina no país, tornando-o mais dinâmico, estruturado e alinhado às exigências contemporâneas.
Como monge e educador, Dom Ireneu lecionou Matemática na Universidade do Distrito Federal e Filosofia na UFRJ. Sua contribuição, porém, ultrapassou a sala de aula: participou de debates sobre educação, publicou artigos e influenciou a formação de gerações de professores. Sua vida foi marcada pela síntese entre contemplação e ação, entre a tradição beneditina e a inovação pedagógica, entre a fé e a ciência.
Dom Ireneu Penna faleceu em 1991, mas seu legado permanece vivo. O Colégio de São Bento continua sendo referência em excelência acadêmica, em grande parte graças às reformas que ele implementou. Sua memória inspira educadores e intelectuais a reconhecer que o verdadeiro ensino não se limita à transmissão de conteúdos, mas envolve a formação integral do ser humano — uma tarefa que exige tanto profundidade intelectual quanto sensibilidade espiritual.





