A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Piedade, em Magé, foi reaberta oficialmente na noite de terça-feira, 1º de setembro, após permanecer fechada por mais de uma década para obras de restauração. A solenidade de abertura e bênção contou com a presença do bispo diocesano, Dom Joel Portella Amado, de sacerdotes, autoridades civis e militares e, principalmente, da comunidade católica do município.
Emocionado, o pároco da igreja, padre Leonardo Tassinari, destacou o significado religioso e histórico da reabertura do templo. Em seu discurso, afirmou que o momento representava muito mais do que a conclusão de uma obra.
“Abrir novamente as portas da nossa Igreja Matriz não é um mero ato administrativo, nem apenas a entrega de uma obra concluída. É um gesto de profunda fé, de resgate da nossa identidade e de gratidão ao Deus de toda a consolação, que nos permitiu guardar e renovar o santuário que nossos antepassados ergueram com tanto amor.”
A cerimônia marcou a retomada das atividades religiosas no templo, considerado um importante símbolo da fé e da história de Magé.
Leia na íntegra o discurso do padre:
Excelentíssimo e Reverendíssimo Dom Joel Portella Amado, nosso Bispo Diocesano e amado pastor,
Prezadas Autoridades Civis e Militares, representantes do Poder Executivo e do Poder Legislativo,
Queridos irmãos do Conselho Administrativo Paroquial e do Conselho Pastoral Paroquial,
Estimados Benfeitores, Dizimistas e Fiéis desta amada Paróquia Nossa Senhora da Piedade,
Meus irmãos e minhas irmãs em Cristo Jesus,
Hoje, a Providência Divina concede ao povo de Magé a alegria de reencontrar a sua casa espiritual, fazendo deste histórico e abençoado chão de Magé testemunha de um daqueles momentos que ficam gravados não apenas nos livros de história, mas também no coração e na alma de um povo. Abrir novamente as portas da nossa Igreja Matriz não é um mero ato administrativo, nem apenas a entrega de uma obra concluída. É um gesto de profunda fé, de resgate da nossa identidade e de gratidão ao Deus de toda a consolação, que nos permitiu guardar e renovar o santuário que nossos antepassados ergueram com tanto amor.
Olhar para esta Matriz é contemplar a própria história do Recôncavo Fluminense e da formação da nossa nação. Desde os primórdios da ocupação destas terras, quando o sesmeiro Simão da Motta fincou as primeiras raízes no Morro da Piedade, passando pela devoção de Cristóvão de Barros e pela generosidade de João Dantas no século XVII, aquele templo foi a colina sagrada de onde emanou o Evangelho para toda a região. Quando as leis do tempo e da geopolítica colonial exigiram a transferência da sede paroquial para o local onde cresceria nossa cidade, às margens da estrada Magé – Sapucaia, no século XVIII, a fé de nosso povo ergueu este altivo templo que hoje contemplamos.
Esta Igreja não pertence apenas ao nosso município; ela é um tesouro da Diocese de Petrópolis e do patrimônio cultural e religioso do Brasil. Inserida na rota do ouro e nos caminhos devocionais que conectavam as minas de Minas Gerais à Baía de Guanabara, a nossa Matriz guardou ao longo dos séculos a memória, a arte barroca e rococó associada ao gênio de Mestre Valentim, e a piedade de gerações que aqui choraram, rezaram, batizaram seus filhos e celebraram o Mistério Pascal. Tombada como patrimônio do Estado do Rio de Janeiro, esta casa é o coração pulsante do Caminho das Centenárias e um farol de fé para a Baixada Fluminense.
A relevância deste sagrado templo extrapola as suas dimensões físicas e seus limites territoriais, consolidando-se como um verdadeiro bastião espiritual e documental da nossa Igreja. Depois da criação desta freguesia em alvará régio no final do século XVII e as minuciosas descrições registradas pela histórica visita pastoral de Monsenhor Pizarro, a atual Matriz de Magé sempre figurou como centro irradiador da vida litúrgica, da organização comunitária e da caridade cristã no Recôncavo Fluminense. Ela é a testemunha viva de séculos de devoção, articulando uma vasta rede de capelas que alimentaram a fé do nosso povo. Celebrar nesta igreja é reconhecer a pedra angular sobre a qual se assentou não apenas a religiosidade dos fiéis, mas a própria tessitura social do nosso município e de nossa diocese que este ano completa 80 anos.
Irmãos e irmãs, o caminho que nos trouxe até a noite de hoje foi longo, minucioso e desafiador. Restaurar uma igreja bicentenária não é simplesmente pintar paredes; é um verdadeiro exercício de arqueologia e respeito à memória de Deus gravada na matéria. O processo de restauração que hoje entregamos à comunidade revelou segredos que o tempo havia escondido sob sucessivas camadas de tinta.
Com o cuidado científico dos técnicos e sob o olhar atento dos órgãos de proteção ao patrimônio, cada centímetro desta estrutura foi trabalhado com reverência. Contemplamos hoje a redescoberta da magnífica policromia interna da escola rococó: a talha graciosa do retábulo-mor com a recuperação do brilho do ouro-rubi, os marmorizados azuis e vermelhos que encantam o nosso olhar, e a harmonia cromática dos altares laterais. As colunas que sustentam o coroamento do altar em Verde recuperaram a vivacidade dos jardins do paraíso que os artistas setecentistas quiseram retratar. Na fachada e na torre, a sóbria cantaria em gnaisse e os elementos em decorativos foram consolidados, devolvendo ao centro urbano de Magé a sua silhueta mais nobre, com seu galo vigilante no topo da torre. Cada prego, cada folha de ouro e cada gota de tinta aplicada neste templo representam o esforço de reatar o fio da nossa história e oferecer ao Senhor o que temos de mais belo.
Contemplar a beleza desta Matriz restaurada é elevar a mente e o coração ao próprio Mistério Divino. O espaço sacro, em toda a sua rica linguagem estética — da fluidez do Rococó à nobreza da ornamentação em folha de ouro, dos relevos da Arma Christi no altar-mor até a elevação do camarim em seus tronos —, não existe para a ostentação humana, mas para ser uma antecipação da beleza celeste. Cada detalhe cromático, a sobriedade das pedras de gnaisse na fachada e o jogo de luzes e sombras no interior do templo compõem um verdadeiro hino de louvor visível. Essa harmonia artística nos ensina que a beleza é via de acesso a Deus: ao encantar os nossos olhos, ela nos convida ao recolhimento, à oração e ao enlevo da alma.
Esta grande obra é fruto de um verdadeiro coro de mãos e corações que se uniram pelo mesmo ideal. A minha mais profunda e filial gratidão a Vossa Excelência Reverendíssima, Dom Joel Portella Amado, nosso Bispo Diocesano, que hoje preside esta solene liturgia de reabertura. Obrigado, Dom Joel, por caminhar conosco e por nos confirmar na fé nesta memorável noite.
Agradeço, do fundo do meu coração, a você, fiel paroquiano de Nossa Senhora da Piedade. Obrigado pela confiança inabalável, pela paciência diante das limitações que as obras nos impuseram, pelo empenho constante e pela participação orante. Um agradecimento especialíssimo aos membros do Conselho Administrativo Paroquial (CAP) e do Conselho Pastoral Paroquial (CPP), que não pouparam noites de trabalho, reuniões e dedicação para que o projeto não esmorecesse. E como não recordar, com comoção, de cada um dos nossos dizimistas? É o seu dízimo fiel, a sua oferta humilde de cada mês, que mantém acesa a chama desta comunidade e sustentou a vida paroquial ao longo de tantas gerações. Cada centavo partilhado com amor transformou-se em louvor: em pedra e cor para a casa do Senhor.
Não podemos também deixar de reconhecer com justiça e gratidão a união de esforços das instituições civis que compreenderam o valor histórico e social desta edificação. Expresso os nossos sinceros agradecimentos à Prefeitura Municipal de Magé, que, por meio da Fundação de Cultura, concedeu um aporte financeiro decisivo para o andamento dos trabalhos. Nossa gratidão ao Governo Federal e à emenda parlamentar destinada pela deputada, que permitiu o restauro e a dignificação do presbitério — o coração litúrgico do templo. E, com viva satisfação, agradecemos ao Governo do Estado do Rio de Janeiro, lembrando que a complementação do orçamento para a nossa majestosa fachada está sendo viabilizada porque o nosso projeto conquistou o 1º lugar no edital Reviver Memória do Estado, promovido pela Secretaria de Cultura. Essa conquista nos enche de orgulho e demonstra a seriedade com que tratamos este bem precioso.
Se hoje celebramos com entusiasmo a conclusão desta grande e principal etapa da restauração, devemos tomar plena consciência de que a missão não termina neste dia de festa; pelo contrário, ela ganha um novo e exigente capítulo. A preservação deste patrimônio sagrado e quase tricentenário é um dever contínuo que cabe, de modo primordial e fundamental, a cada um de nós, fiéis católicos desta paróquia. Se os órgãos públicos e os especialistas nos ajudaram a resgatar a estrutura e a cor, é a nossa comunidade orante quem deve zelar diariamente por este espaço. Já nos preparamos, inclusive, para os próximos passos: no ano que vem, buscaremos vencer um novo edital com o objetivo de realizar a substituição e a manutenção do piso, devolvendo a esta Matriz o seu assoalho original em madeira. Cuidar desta casa, mantê-la limpa, protegida, respeitada e viva é um ato de amor à nossa própria história e de fidelidade ao compromisso com as gerações futuras. Que cada paroquiano se sinta um guardião atento da nossa Matriz, compreendendo que a manutenção do templo de Deus é extensão do nosso culto e da nossa fé.
Queridos paroquianos, ao reabrirmos hoje estas portas, não estamos apenas contemplando a beleza das paredes e da talha restaurada. Estamos, acima de tudo, reacendendo a chama da nossa missão. Esta Igreja restaurada deve ser, agora com renovado vigor, uma comunidade viva, onde os pobres encontrem acolhida, onde os aflitos recebam o consolo do Mestre e onde cada fiel renove o seu compromisso de fé.
A verdadeira restauração que hoje celebramos não é apenas a das pedras deste templo, mas a renovação da fé de um povo que continua acreditando que Deus caminha conosco ao longo da história. Que Nossa Senhora da Piedade, cuja imagem venerável no retábulo-mor acolheu as dores e as esperanças de tantas gerações, continue a cobrir com o seu manto sagrado a nossa paróquia, a nossa diocese e o nosso município.
Que estas portas permaneçam sempre abertas para Deus e para todos aqueles que O procuram. Que esta Igreja continue a atravessar os séculos como testemunha da fé, da esperança e da caridade. E que, quando as futuras gerações contemplarem este templo, possam dizer com orgulho: nós recebemos este patrimônio de nossos pais, cuidamos dele com amor e o transmitimos ainda mais belo aos nossos filhos.
Muito obrigado a todos, e que Deus abençoe a nossa Paróquia.
*Viva Nossa Senhora da Piedade!*
*Viva Nosso Senhor Jesus Cristo! ! !*
Pe. Leonardo Tassinari









