Padre José Carlos Medeiros Nunes, conhecido em toda Petrópolis como Padre Quinha, faleceu vítima de um enfarto fulminante na madrugada de 18 de janeiro de 2013, aos 56 anos, na casa da família. Nascido em 1º de julho de 1956, em Petrópolis (RJ), tornou-se um dos rostos mais conhecidos da Diocese, especialmente pelo trabalho social com dependentes químicos, população em situação de rua, enfermos e pessoas em grande vulnerabilidade.
Desde jovem, participou intensamente da vida da Igreja em sua comunidade de Laginha, integrando o grupo de jovens e o Movimento Semente, onde amadureceu sua vocação sacerdotal. Foi ordenado padre aos 32 anos, no dia 11 de dezembro de 1988, e por 15 anos exerceu o ministério presbiteral como sacerdote diocesano.
Ao longo de sua trajetória, foi vigário nas paróquias de Corrêas, Itamaraty e Catedral de São Pedro de Alcântara. Mais tarde, foi liberado pelo então bispo de Petrópolis, Dom Filippo Santoro, para se dedicar integralmente às Pastorais Sociais, foco de sua vida e missão. Em reconhecimento ao seu trabalho junto aos pobres, recebeu o título de Vigário da Caridade. Na cidade, era difícil encontrar alguém que não o conhecesse: visitava presídios, hospitais, orfanatos, asilos, casas simples e ruas, sempre com a mesma postura humilde, paciente e acolhedora.
Seu carisma estava centrado nos “menos favorecidos”: doentes, encarcerados, dependentes de álcool e drogas e irmãos de rua. Foi incentivador do Grupo Assistencial SOS Vida, da Pastoral da Aids e de diversas iniciativas sociais da Diocese. Com olhar atento aos mais fragilizados, fundou a Associação Oficina de Jesus, obra que se tornou referência no cuidado de dependentes químicos.
A Oficina de Jesus nasceu em 1997, quando o padre, já envolvido com os mais necessitados, se viu particularmente tocado pelo sofrimento dos dependentes de álcool. Após momentos de oração e partilha com paroquianos, passou a conversar com moradores de rua e pessoas com família, mas marcadas pelo alcoolismo. Organizou um encontro de cinco dias com cerca de setenta dependentes, com oração, escuta e anúncio do Evangelho. A partir desse caminho, formou-se um grupo que se reunia semanalmente na paróquia para apoio e orientação.
Com o tempo, surgiu a necessidade de oferecer um espaço de residência para tratamento. “O próprio Deus nos deu um sítio”, recordava o padre. Assim nasceu o Sítio Nossa Senhora do Sorriso, destinado à permanência de seis meses dos internos. O lugar foi adaptado com quartos, capela, animais, plantações e atividades de trabalho, realizadas pelos próprios acolhidos. Consagrado a Maria, foi batizado como “Sítio Nossa Senhora do Sorriso”, porque, segundo Padre Quinha, ali era o lugar onde Nossa Senhora sorria ao ver seus filhos doentes se recuperarem e retomarem a vida em sociedade.
Em 2004, diante da grande procura, a obra ganhou um segundo espaço: o Sítio Nossa Senhora das Graças, no bairro Brejal, em Posse, Petrópolis. Ambos os sítios acolhem gratuitamente pessoas dispostas a abandonar o vício, oferecendo assistência espiritual, psicológica, médica e social, com o objetivo de reinserção digna na sociedade. A Associação mantém vínculo com as famílias dos dependentes, promove encontros, palestras e cria redes com outras instituições, firmando convênios e parcerias para sustentar o trabalho.
Além dos sítios, Padre Quinha fundou três casas para acolher irmãos de rua, articuladas com a Pastoral de Rua. Criou ainda uma entidade de reciclagem, gerando renda para manter as casas e sítios e oferecendo trabalho aos recuperados, como caminho de reinserção social. Visitava incansavelmente presídios e hospitais, escutava longamente quem o procurava, nunca tinha pressa e sempre tinha uma palavra de consolo. Muitos o reconhecem como alguém que “via as pessoas como uma possibilidade”, e não como problemas.
Seu ministério também foi profundamente marcado pela fraternidade com outros sacerdotes. Era conhecido como amigo de todos, sempre disponível para apoiar os colegas padres em suas paróquias. “Na verdade é vigário de todas as paróquias”, diziam, porque não havia comunidade que ele não conhecesse ou na qual não tivesse ajudado.
Falecimento, velório e sepultamento
Na sexta-feira, 18 de janeiro de 2013, a Diocese de Petrópolis comunicou oficialmente o falecimento de Padre Quinha. O impacto na cidade foi imediato: milhares de pessoas foram até a Igreja Santa Luzia, na Laginha, e à Igreja São José, em Itaipava, para o velório, conduzido por diversos sacerdotes que rezaram o terço e celebraram missas em sua intenção.
A missa de corpo presente foi presidida pelo bispo diocesano, Dom Gregório Paixão, OSB, na Igreja São José, em Itaipava, ao lado do Liceu. A celebração contou com a presença de quase todo o clero da Diocese, além dos bispos Dom Francisco Biasin (Volta Redonda – RJ) e Dom Paulo Machado (Uberlândia – MG), religiosos e religiosas de várias regiões, o prefeito de Petrópolis, Rubens Bomtempo, vereadores e uma multidão de fiéis.
A comoção era visível: muitos faziam questão de se aproximar do caixão, beijar a mão do padre e rezar. Entre os relatos, o de Jorge, jovem acolhido por Padre Quinha, que dizia: “Perdi meu pai. Ele me ajudou muito, principalmente na minha recuperação”. Outros tantos internos da Oficina de Jesus, moradores da Chácara da Pastoral de Rua e pessoas atendidas por seu trabalho expressaram gratidão pelo amor recebido.
Na homilia, Dom Gregório falou de “uma manhã de esperança e saudade”, afirmando que Deus “tem saudade de nós” e que chamou Padre Quinha para junto de si para lhe dar a vida em plenitude. “Ele partiu num sono perfeito, certo de que aqui completou sua missão”, disse o bispo, sublinhando que o sacerdote foi um exemplo de amor ao próximo. O arcebispo de Taranto, Itália, Dom Filippo Santoro – que havia sido bispo de Petrópolis – também lamentou a morte, definindo-o como “um padre apaixonado pelo seu sacerdócio, amigo dos pobres, fiel à Igreja”.
O sepultamento ocorreu no início da tarde de sábado, 19 de janeiro, no Cemitério Municipal de Itaipava, após a missa na Igreja São José. Seis anos depois, em 18 de janeiro de 2019, seus restos mortais foram exumados e colocados em urna, depositada em cripta especial na mesma igreja, ao lado dos restos de Monsenhor Brasil. A cerimônia contou com familiares, amigos e sacerdotes, entre eles o pároco Padre Mário Coutinho, Padre Bruno Leonardo dos Santos Magalhães e Padre Janderson Ferreira de Souza.
Memória viva: documentário e livro
A memória de Padre Quinha continua viva em diversas iniciativas culturais e religiosas. Em 28 de julho de 2021, foi lançado na Universidade Católica de Petrópolis o documentário “Padre Quinha – Um coração sem fronteiras”, produzido com patrocínio da Lei Aldir Blanc, por meio do Instituto Municipal de Cultura e apoio da Prefeitura. O filme, idealizado por Lucimar Danelon e Jaqueline Cleffs e dirigido por Diana Iliescu, traz depoimentos de amigos, familiares, sacerdotes e pessoas que foram ajudadas por ele, retratando sua vida e modo de atuar.
Dom Gregório Paixão participa do documentário e resume a experiência de estar com o padre: “Ele via as pessoas como uma possibilidade”. A família do sacerdote acompanhou de perto a produção, e sua mãe, dona Djanira Medeiros Nunes, aparece em imagens que comoveram o público presente no lançamento.
A história do padre também foi registrada no livro “Tragam a Túnica Nova”, de autoria do professor Ataualpa A.P. Filho, lançado no dia 1º de julho, data de seu aniversário, após missa de ação de graças na Igreja São José, em Itaipava. O título, sugerido pelo próprio padre, alude à parábola do Filho Pródigo e ao acolhimento misericordioso que inspirava sua pastoral. O prefácio é assinado por Dom Gregório Paixão, que, embora tenha convivido pouco com o sacerdote, reconhece sua importância para a Diocese por meio dos inúmeros testemunhos recebidos. O atual vigário da Caridade, Padre Rafael Soares, também contribuiu com um texto.
O livro reúne mais de 40 depoimentos de pessoas acolhidas pela Pastoral de Rua e pela Oficina de Jesus. Toda a renda é destinada às obras fundadas por Padre Quinha; os direitos autorais foram doados à Oficina de Jesus, que se responsabiliza pelas futuras reedições. Ataualpa conta que o projeto nasceu de um pedido do próprio padre, feito em 2005, durante uma entrevista sobre o trabalho com população de rua e dependentes químicos. Após sua morte, o autor precisou “se reestruturar” para concluir o livro, afirmando que jamais esquecerá quem o “re-evangelizou” e lhe mostrou “o Cristo vivo no rosto dos irmãos que vivem debaixo das marquises, nas portas dos templos, nas celas dos vícios”.
Legado
O legado de Padre José Carlos Medeiros Nunes é o de um sacerdote que não conheceu fronteiras para a caridade. Vigário da Caridade por vocação e título, fez da cidade seu campo de missão, dedicando-se aos invisíveis, aos afastados, aos feridos pela pobreza, doença e dependência. Sua memória segue viva nas ruas de Petrópolis, nos sítios Nossa Senhora do Sorriso e Nossa Senhora das Graças, nas casas de acolhida, nas pastorais que ajudou a construir e nos muitos que reencontraram a própria dignidade graças à sua fé, seu tempo, sua escuta e seu amor sem pressa.
Os restos mortais do Pe. Quinha encontram-se sepultados na cripta na Igreja São José, em Itaipava.






