Mistério Central da Vida da Igreja! – Dom José Maria Pereira

Depois de ter celebrado os mistérios da Salvação, desde o nascimento de Cristo (Natal) até a vinda do Espírito Santo (Pentecostes), a Liturgia propõe-nos o Mistério da Santíssima Trindade: Deus Pai e Filho e Espírito Santo, festa de Deus, centro da nossa fé. Quando pensamos na Trindade, vem à mente, sobretudo, o aspecto do Mistério: são Três e são Um, um só Deus em três Pessoas. Na realidade, Deus só pode ser um Mistério para nós na sua grandeza, todavia Ele se revelou: podemos conhecê-Lo no seu Filho, e assim conhecer também o Pai e o Espírito Santo. O Pai e o Filho e o Espírito Santo são um só, porque são amor, e o amor é a força vivificadora absoluta, a unidade criada pelo amor é mais unidade do que uma unidade puramente física. O Pai doa tudo ao Filho; o Filho recebe tudo do Pai, com reconhecimento; e o Espírito Santo é como que o fruto deste amor recíproco do Pai e do Filho.

O texto do Evangelho de hoje diz-nos: “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16). No mundo existe o mal, o egoísmo, a maldade, e Deus poderia vir para julgar este mundo, para destruir o mal, para castigar aqueles que agem nas trevas. No entanto, Ele demonstra que ama o mundo, que ama o homem, não obstante o seu pecado, e envia aquilo que tem de mais precioso: o seu Filho Único; e não só O envia, mas doa-O ao mundo. Jesus é o Filho de Deus que nasceu para nós, que viveu para nós, que curou os doentes, perdoou os pecados e acolheu todos. Respondendo ao amor que vem do Pai, o Filho entregou a sua própria vida por nós: na Cruz, o Amor misericordioso de Deus chega ao seu ápice. E é na Cruz que o Filho de Deus nos obtém a participação na vida eterna, que nos é comunicada mediante o dom do Espírito Santo. Assim, no Mistério da Cruz, estão presentes as Três Pessoas divinas: o Pai, que doa o seu Filho único para a salvação do mundo; o Filho, que cumpre até ao fundo o desígnio do Pai; e o Espírito Santo – infundido por Jesus no momento da morte – que vem nos tornar partícipes da vida divina e a transformar a nossa existência, para que seja animada pelo amor divino.

O Papa Bento XVl assinalou que “este domingo da Santíssima Trindade, em certa maneira, recapitula a revelação de Deus ocorrida nos mistérios pascais: morte e ressurreição de Cristo, sua ascensão à direita do Pai e a efusão do Espírito Santo. A mente e a linguagem humanas são inadequadas para explicar a relação existente entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e, entretanto, os Padres da Igreja procuraram ilustrar o mistério de Deus, Uno e Trino, vivendo-o na própria existência com profunda fé.

A Trindade divina, de fato, faz morada em nós, no dia do Batismo. ‘Eu te batizo, diz o ministro, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo’. O nome de Deus, no qual fomos batizados, recorda cada vez que fazemos o sinal da Cruz.

O teólogo Romano Guardini, a propósito do sinal da Cruz, observa: “fazemo-lo antes da oração, para que nos disponha espiritualmente em ordem; para concentrar em Deus os pensamentos, o coração e a vontade; depois da oração, para que permaneça em nós aquilo que Deus nos deu. Isso abrange todo o ser, corpo e alma, e tudo fica consagrado em nome do Deus, Uno e Trino.” E é precisamente em nome deste Deus que o Apóstolo Paulo saúda as comunidades de Corinto, saudando-nos também a todos nós: “A Graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus  (Pai ) e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós” (2 Cor 13, 13).

Seguidamente, Bento XVl afirmou que “no sinal da Cruz e no nome do Deus vivente está, por isso, contido o anúncio que gera a fé e inspira à oração. E, como no Evangelho Jesus promete aos Apóstolos que ‘quando vier o Espírito da Verdade, Ele os introduzirá em toda a verdade’, assim acontece na liturgia dominical, quando os sacerdotes dispensam, semana após semana, o pão da Palavra e da Eucaristia”.

Toda a vida da Igreja está impregnada pelo Mistério da Santíssima Trindade. E, quando falamos, aqui, de mistério, não pensemos no incompreensível, mas na realidade mais profunda que atinge o núcleo do nosso ser e do nosso agir.

Mas é Cristo quem nos revela a intimidade do mistério trinitário e o convite para que participemos dele. “Ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt, 11, 27). Ele nos revelou também a existência do Espírito Santo junto com o Pai e o enviou à Igreja para que a santificasse até o fim dos tempos; e revelou-nos a perfeitíssima Unidade de vida entre as Pessoas divinas (Cf. Jo 16, 12-15).

O mistério da Santíssima Trindade é o ponto de partida de toda a verdade revelada e a fonte de que procede a vida sobrenatural e para a qual nos encaminhamos: somos filhos do Pai, irmãos e coerdeiros do Filho, santificados continuamente pelo Espírito Santo para assemelharmo-nos cada vez mais a Cristo.

Por ser o mistério central da vida da Igreja, a Santíssima Trindade é continuamente invocada em toda a liturgia. Fomos batizados em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, e, em seu nome, perdoam-se os pecados; ao começarmos e ao terminarmos muitas orações, dirigimo-nos ao Pai, por mediação de Jesus Cristo, na unidade do Espírito Santo. Muitas vezes, ao longo do dia, nós, os cristãos, repetimos: Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.

Meditando sobre a Trindade, dizia S. Josemaria Escrivá: “Deus é o meu Pai! Se meditares nisto, não sairás dessa consoladora consideração.

Jesus é meu Amigo íntimo! (outra descoberta), que me ama com toda a divina loucura do seu coração.

O Espírito Santo é meu Consolador!, que me guia nos passos de todo o meu caminho. Pensa bem, nisso. Tu és de Deus…, e Deus é teu” (Forja, nº2).

Desde que o homem é chamado a participar da própria vida divina, pela graça recebida no Batismo, está destinado a participar cada vez mais dessa Vida. É um caminho que é preciso percorrer continuamente.

A Santíssima Trindade habita na nossa alma como num templo. E São Paulo faz-nos saber que o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (Rm 5, 5). E, aí, na intimidade da alma, temos de nos acostumar a relacionar-nos com Deus Pai, com Deus Filho e com Deus Espírito Santo. Dizia Santa Catarina de Sena: “Vós, Trindade eterna, sois mar profundo, no qual quanto mais penetro, mais descubro, e quanto mais descubro, mais vos procuro”. Sabemos quem é nosso Deus, mas não basta um conhecimento teórico, não basta saber coisas sobre Ele e falar dele; isso ainda não é fé. É necessário entrar em contato com Ele, escutá-Lo, mergulhar nas Sagradas Escrituras e responder a Ele, amando concretamente as pessoas, começando com aquelas com as quais convivemos, porque Deus as ama e somos todos seus filhos e filhas.

Imensa é a alegria por termos a presença da Santíssima Trindade na nossa alma! Esta alegria é destinada a todo cristão, chamado à santidade no meio dos seus afazeres profissionais e que deseja amar a Deus com todo o seu ser; se bem que, como diz Santa Teresa, “há muitas almas que permanecem rodando o castelo (da alma), no lugar onde montam guarda as sentinelas, e nada se lhes dá de penetrar nele. Não sabem o que existe em tão preciosa mansão, nem quem mora dentro dela”. Nessa “preciosa mansão”, na alma que resplandece pela graça, está Deus conosco: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Desde pequenos, aprendemos de nossos pais a fazer o sinal da cruz e a chamar a Deus: de Pai, Filho e Espírito Santo.

Assim com toda a naturalidade, estávamos invocando o mistério mais profundo de nossa fé e da vida cristã: Santíssima Trindade que hoje celebramos.

Só Cristo nos revelou claramente essa verdade: Fala constantemente do Pai. Quando Felipe diz: “Mostra-nos o Pai…”, Jesus responde: “Felipe… quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,8).

Jesus promete o Espírito Santo: “Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena Verdade”.

Quando se despede, no dia da Ascensão, afirma: “Ide… e batizai em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.”

A contemplação e o louvor à Santíssima Trindade são a substância da nossa vida sobrenatural, e esse é também o nosso fim: porque, no Céu, junto de Nossa Senhora – Filha de Deus Pai, Mãe de Deus Filho, Esposa de Deus Espírito Santo: mais do que Ela, só Deus –, a nossa felicidade e o nosso júbilo serão um louvor eterno ao Pai, pelo Filho, no Espírito Santo.

O então Papa Bento XVl ressaltou que: ” assim como aconteceu com a Virgem Maria, a Santíssima Trindade, composta por Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, deve conduzir a vida de todo cristão, vivendo este mistério com profunda fé e com a necessária abertura à graça “para avançar no amor para Deus e para o próximo”.

Fazendo o sinal da Cruz, nós declaramos, a cada vez, nossa vontade de pertencer à Trindade.

Pense nesta frase de São Paulo: “… nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem entrou no pensamento humano, o que Deus tem preparado para aqueles que O amam” (1Cor 2, 9).

Cremos em Deus, princípio e fim. O nosso Deus, o único e verdadeiro Deus, que tudo pode, tudo sabe, convida e espera resposta. É alguém que o universo inteiro não pode conter, mas que cabe no coração de quem o aceitar.

É alguém que diz no Apocalipse: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, eu entrarei em sua casa e tomarei refeição com ele, e ele comigo. Ao vencedor, farei sentar-se comigo no meu trono…”(Ap 3,20-21).

Celebrar a Trindade é celebrar o mistério de Deus-Amor que se revelou como tal na história da salvação, sobretudo na missão de Jesus. A fé em Deus-Trindade se manifesta, sobretudo, na liturgia, especialmente na celebração da Eucaristia. Nossa oração se dirige ao Pai, por meio de Jesus Cristo, seu Filho, na unidade do Espírito Santo.

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