Queridos irmãos e irmãs, hoje celebramos a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. Esta celebração está em nosso calendário sempre após a Festa da Santíssima Trindade e, nela, nós recordamos e professamos publicamente a nossa fé em Jesus Cristo presente no Santíssimo Sacramento.
Por isso, hoje unem-se duas realidades: a celebração da Santa Missa e, em seguida, a procissão com a bênção eucarística. A Igreja manifesta sua fé nas ruas, nas praças, em todos os lugares. Ela oferece ao mundo o seu maior tesouro: o próprio Cristo ressuscitado, presente na Eucaristia. A celebração não fica restrita às paredes do templo; ela deve alcançar as nossas cidades e as nossas vidas.
Essa festa tem suas raízes no século XIII. Cerca de um século antes, a Igreja começou a enfrentar heresias de pensadores que afirmavam que Jesus não estava realmente presente no sacramento, mas apenas de forma simbólica ou por sua palavra. Muitos santos e teólogos combateram esse erro.
Foi então que, em uma cidadezinha na Bélgica, uma jovem monja chamada Juliana de Cornillon, que tinha uma profunda devoção eucarística, recebeu uma visão mística. Ela via a lua cheia, mas com uma mancha escura. Sem compreender, rezou, até que o Senhor lhe revelou o significado: a lua era o calendário litúrgico, e a mancha representava a ausência de uma festa dedicada exclusivamente a professar a fé na Eucaristia de forma pública.
Santa Juliana e suas irmãs começaram a pedir na diocese que essa festa fosse instituída. Naquela época, ela recorreu ao seu diretor espiritual, um jovem padre chamado Jacques Pantaleon. Sabendo da santidade daquela monja, ele levou o pedido ao bispo. Após muita insistência, a primeira procissão foi autorizada. Foi um momento belíssimo, em uma região rica em flores, onde o povo enfeitou as ruas, costume que guardamos até hoje.
Os anos passaram. Aquele jovem padre, Jacques Pantaleon, foi enviado em missão para Jerusalém, tornou-se patriarca e, mais tarde, foi eleito Papa, assumindo o nome de Urbano IV. Naquela época, por questões políticas, o Papa não residia em Roma, mas na cidade vizinha de Orvieto.
E foi ali perto que Deus agiu novamente. Um sacerdote alemão, em peregrinação a Roma, sofria com profundas dúvidas de fé: “Será que Cristo está realmente ali ou é apenas um símbolo?”. Ele parou para celebrar a missa na cidadezinha de Bolsena. No momento da consagração, ao elevar a hóstia, ela começou a sangrar de verdade. O sangue de Cristo gotejou, manchando o altar de mármore e o corporal.
Assustado e comovido, o padre levou o fato ao conhecimento do Papa Urbano IV, em Orvieto. O Papa solicitou que as relíquias do milagre fossem trazidas até ele. Houve uma grande procissão de Bolsena a Orvieto. Ao receber o corporal manchado de sangue, o Papa o elevou diante da multidão e bradou: “Corpus Christi!” (O Corpo de Cristo!).
O Papa compreendeu que o que Deus havia pedido anos antes por meio da humilde monja na Bélgica, agora pedia para o mundo inteiro. Em 1264, Urbano IV decretou Corpus Christi como uma festa universal. Esse corporal e o altar manchados estão preservados na Itália até os dias de hoje.
Para que a festa fosse perfeita, o Papa precisava de textos litúrgicos profundos e belos. Ele recorreu ao maior teólogo da época, que por providência divina morava em Orvieto: Frei Tomás de Aquino.
São Tomás aceitou a missão. Ele compôs a Sequência que ouvimos hoje na Missa, transformando a mais alta teologia em poesia e canto. Esse texto responde de forma perfeita às dúvidas que os judeus manifestaram no Evangelho de São João: “Como pode este homem dar-nos a sua carne a comer?”.
São Tomás nos recorda em versos: “Se não vês, não compreendes, gosto e vista tu transcendes, elevado pela fé.” Ele nos ensina que, sob as aparências do pão e do vinho, está o Cristo inteiro: Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Não importa se a hóstia é partida, Cristo não é dividido; Ele está inteiramente presente em cada fragmento. Ele nos recorda que o efeito da Eucaristia depende do coração de quem a recebe: traz vida para quem está na graça de Deus e condenação para quem o recebe indignamente.
São Tomás também resgata as prefigurações do Antigo Testamento: o maná no deserto e o cordeiro sacrificado por Abraão eram figuras que se cumprem agora na Missa. A Eucaristia nos une, extingue nossa orfandade e se torna o nosso Viático, o alimento para a viagem definitiva rumo ao Pai.
Ao terminar de escrever esses textos, que incluem o Tão Sublime Sacramento, a tradição conta que Tomás, trêmulo, colocou os escritos sobre o altar, diante do sacrário, e rezou: “Senhor, o que escrevi está certo?”. O próprio Cristo, do crucifixo, lhe disse: “Tomás, escreveste bem de mim. O que queres em recompensa?”. E o santo respondeu: “Nada mais além de Vós, Senhor.”
Vejam como Deus realiza Seus planos por meio de pessoas simples: a freira Juliana, o padre que se tornou Papa, o teólogo que se fez poeta.
Meus irmãos, nós não precisamos esperar mais nenhuma revelação. Não há nada maior que Deus possa nos dar, porque na Eucaristia Ele já nos deu a Si mesmo por inteiro. Temos nas mãos todos os meios para sermos santos. O que falta, então?
Falta a nossa resposta. Falta a nossa correspondência de amor.
Vamos pedir a Deus, nesta festa tão amada pelo povo brasileiro, a graça de crescer na fé e na devoção. Que ao sairmos às ruas hoje, e no nosso dia a dia, nas nossas casas e no trabalho, nós possamos manifestar publicamente que o nosso sustento, a nossa vida e o nosso maior tesouro é Jesus na Eucaristia.
Amém.





