Entre o Favor e a Justiça: a acepção de pessoas e a corrupção silenciosa das instituições – Pe. Anderson Alves

Em cidades de porte médio, onde relações familiares, amizades e interesses profissionais frequentemente se entrelaçam, é comum que oportunidades de trabalho sejam acompanhadas por indicações, recomendações e intervenções de pessoas influentes. Em si mesmas, essas práticas não são necessariamente condenáveis. Ajudar alguém, apresentar suas qualidades ou indicar um profissional competente pode ser um gesto legítimo de solidariedade. O problema surge quando a recomendação deixa de ser uma simples manifestação de confiança e passa a influenciar decisões que deveriam ser tomadas com base exclusivamente em critérios objetivos e justos. Nesse momento, a recomendação transforma-se em privilégio, e o privilégio converte-se em injustiça.

Esse fenômeno é conhecido, na tradição moral cristã, como “acepção de pessoas”, uma prática já condenada na Bíblia. Trata-se da atitude de favorecer alguém não pelos seus méritos reais, mas por laços de parentesco, amizade, influência ou conveniência. Embora muitas vezes seja praticada sob a aparência de normalidade ou de afeto familiar, a acepção de pessoas representa uma violação do princípio da justiça, que exige igualdade de critérios para todos.

Um caso clássico estudado na teologia moral católica ajuda a compreender melhor essa questão. João, funcionário de alto escalão do Ministério das Finanças, tinha dois filhos jovens, Estêvão e Timóteo, ambos qualificados, formados e procurando emprego havia mais de um ano. Como pai, João sofria ao vê-los sem perspectivas profissionais. Movido por esse desejo legítimo de ajudá-los, decidiu utilizar sua influência para facilitar a entrada deles em cargos públicos.

No primeiro caso, João procurou Manuel, diretor de um banco que havia aberto concurso para preencher trinta vagas administrativas. Durante a conversa, destacou as qualidades do filho Estêvão e deixou claro seu interesse em vê-lo contratado. Após as provas, verificou-se que Estêvão havia alcançado pontuação suficiente para aprovação, mas não para ocupar uma das vagas disponíveis. Inconformado, João voltou a insistir junto a Manuel. Este, desejando preservar uma boa relação com alguém influente em assuntos futuros de interesse do banco, intercedeu junto à comissão avaliadora para que Estêvão fosse incluído entre os aprovados, substituindo um candidato mais bem classificado.

No segundo caso, João conversou com José, vice-prefeito da cidade, sobre a candidatura de Timóteo a um concurso para advogados interinos da prefeitura. Embora afirmasse desejar apenas justiça e igualdade de tratamento, o contexto da conversa revelava interesses implícitos. Tanto João quanto José sabiam que, em breve, uma decisão tributária importante para a prefeitura dependeria do órgão presidido por João. Após o concurso, Timóteo foi admitido apesar de não ter alcançado a nota mínima exigida. A justificativa apresentada foi a de que havia uma vaga que permaneceria sem preenchimento e, portanto, ninguém seria diretamente prejudicado.

Passado algum tempo, João começou a refletir sobre suas atitudes. Após participar de palestras de formação moral, percebeu que talvez sua atuação não tivesse sido tão correta quanto imaginava. Inicialmente procurou o conselho de um amigo empresário, que o tranquilizou afirmando que qualquer pai faria o mesmo pelos filhos e que não existira injustiça, pois ambos eram competentes para os cargos que receberam. Mais tarde, ouviu de outro sacerdote uma avaliação oposta: seu comportamento havia sido antissocial e seus filhos deveriam deixar os cargos.

Nenhuma dessas respostas o satisfez plenamente. Foi então que buscou orientação de Francisco, um sacerdote experiente em questões relacionadas à vida profissional. Em vez de oferecer uma solução imediata, Francisco o ajudou a examinar sua consciência e a compreender o problema em profundidade.

O sacerdote explicou que a questão principal não era apenas jurídica ou administrativa, mas moral. João havia ultrapassado o limite de uma recomendação legítima e entrado no terreno da pressão indireta. Ao usar sua influência junto a pessoas que tinham interesse em manter boas relações com ele, acabou induzindo terceiros a praticar injustiças. Manuel alterou o resultado de um concurso privado para beneficiar Estêvão. José participou de uma decisão irregular em uma seleção pública para favorecer Timóteo. Em ambos os casos, outros candidatos foram prejudicados, ainda que permanecessem desconhecidos.

Francisco ressaltou ainda que o fato de os filhos serem qualificados não eliminava a injustiça. A questão não era a capacidade deles para exercer os cargos, mas a violação das regras que deveriam garantir igualdade de oportunidades entre todos os concorrentes. A justiça exige não apenas que a pessoa seja apta, mas que alcance a posição por meios legítimos.

Ao mesmo tempo, o sacerdote esclareceu que os filhos não eram culpados pelas manobras realizadas pelo pai, uma vez que não participaram delas nem tinham conhecimento das pressões exercidas. Por isso, não estavam obrigados a renunciar aos cargos. Tal medida poderia gerar novos prejuízos e não repararia adequadamente o mal já causado.

Quanto a João, sua responsabilidade consistia em reconhecer a própria culpa, buscar a reconciliação com Deus e reparar o escândalo provocado. Essa reparação não significava desfazer contratações já consolidadas, mas esclarecer sua posição diante das pessoas envolvidas e abandonar definitivamente práticas semelhantes no futuro.

A lição desse caso permanece extremamente atual. Em qualquer sociedade, é natural que pais desejem ajudar seus filhos e que amigos procurem abrir portas uns para os outros. Contudo, existe uma diferença fundamental entre recomendar alguém por suas qualidades e manipular processos para garantir vantagens indevidas. A primeira atitude pode ser uma expressão legítima de confiança; a segunda é uma forma de injustiça.

A acepção de pessoas corrói instituições, enfraquece a confiança nas regras comuns e prejudica principalmente aqueles que dispõem de menos influência. Uma sociedade verdadeiramente justa é aquela em que oportunidades são distribuídas segundo critérios objetivos, e não segundo o peso das relações pessoais. A verdadeira ajuda não consiste em eliminar obstáculos por meio de privilégios, mas em preparar as pessoas para superá-los com mérito, honestidade e dignidade. É assim que a justiça e o bem comum podem caminhar juntos.

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