O cardeal Dom Orani João Tempesta, arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro, presidiu na manhã de sábado, 6 de junho, a santa missa em ação de graças pelos 80 anos da Diocese de Petrópolis, na Capela São José de Anchieta, no Poço Bento, em Magé, território da Paróquia Nossa Senhora da Piedade. A celebração reuniu fiéis, autoridades civis, agentes de pastoral e membros do clero diocesano, em um dos locais mais simbólicos da presença de São José de Anchieta na região.

Logo no início de sua homilia, o cardeal manifestou a alegria de celebrar o jubileu da Diocese em um lugar de tanta significação histórica e espiritual:
“Caríssimo Dom Joel, caríssimos sacerdotes, diáconos, agentes de pastoral, senhoras e senhores, autoridades civis — prefeitos, vereadores, deputados — irmãos e irmãs desta região de Magé, para nós é uma alegria poder nos saudar de verdade, aqui neste lugar ligado a São José de Anchieta, um lugar de peregrinação e também de oração. Nós bendizemos a Deus por podermos, neste lugar, viver e fazer memória, celebrar a história dos nossos antepassados, os passos já dados.”
Dom Orani recordou a tradição segundo a qual São José de Anchieta teria passado pela região, deixando sinais concretos de sua presença e de sua ação evangelizadora:
“É muito bom saber que São José de Anchieta, cuja festa celebraremos no próximo dia 9, e cuja memória hoje motivou esta missão, passou por esta região. Aqui, justamente na evangelização e na missão, também houve alguns prodígios, como o fato de ter abençoado este lugar, fazendo brotar água para a região, que, no século XVI, era bastante inóspita e marcada por muitas dificuldades.”

O arcebispo destacou ainda o vínculo histórico entre a região, a antiga prelazia e a Arquidiocese do Rio de Janeiro, ressaltando a continuidade da fé ao longo dos séculos:
“Nos alegramos de estar aqui, já que, naquela época, também estávamos ligados, enquanto prelazia do Rio de Janeiro, que tem 450 anos, ou Arquidiocese do Rio de Janeiro, que tem 350 anos, e aqui a paróquia começou há 330 anos. Portanto, recordamos essa ligação que existe, embora hoje Petrópolis pertença à província eclesiástica de Niterói.”
Ao refletir sobre o significado dos 80 anos da Diocese de Petrópolis, Dom Orani ressaltou que o jubileu é, ao mesmo tempo, memória e compromisso:
“Nós bendizemos a Deus por este momento que a Diocese de Petrópolis vive: celebramos 80 anos, com várias celebrações em lugares marcantes da Diocese, que retomam um pouco a memória da história, mas também nos impulsionam para a frente, para o futuro, com a nossa responsabilidade. Vemos que somos herdeiros de grandes sinais e de pessoas que vieram antes de nós, mas também somos ponte para o futuro, para aquilo que virá. Neste tempo de tantas transformações e mudanças, somos chamados a ser essa Igreja viva: homens e mulheres de fé, que caminham no Senhor e, pela vida que levam, testemunham Jesus Cristo ressuscitado.”

O cardeal situou o Poço Bento e Magé como portas de entrada da fé na região serrana do Rio de Janeiro:
“Assim foi também a vida de Anchieta, cuja memória missionária hoje celebramos, e assim também foi a vida daqueles que nos precederam aqui nesta região, no Poço Bento, em Magé, que é porta de entrada para o trabalho de evangelização e para a presença da Igreja na região serrana do Rio de Janeiro.”
A partir da Liturgia da Palavra do dia, Dom Orani destacou dois grandes eixos para a caminhada da Diocese: a centralidade da Palavra de Deus e a entrega total da própria vida a Cristo. Comentando a segunda carta de São Paulo a Timóteo, afirmou:
“Sabemos que a carta de São Paulo a Timóteo é um pouco um testemunho, um testamento de Paulo ao seu filho na fé. Ele diz: ‘Proclama a Palavra, insiste oportuna ou inoportunamente, argumenta, repreende, aconselha, com toda paciência e doutrina’. Paulo fala também para nós hoje, para que nós, herdeiros de tantas coisas belas e de tanta história, continuemos a anunciar, a proclamar a Palavra de Deus com todo o nosso coração e com toda a nossa vida.”

O arcebispo enfatizou que o anúncio do Evangelho se dá, antes de tudo, pelo testemunho:
“Primeiro, pelo testemunho, colocando em prática a Palavra de Deus. Depois, também, nas celebrações, nos encontros, nas pequenas comunidades, no trabalho que realizamos dia a dia, fazendo ressoar a Palavra de Deus vivida. Foi assim com Anchieta, que aprendeu o idioma da região para poder pregar e, como bom catequista, soube usar diversos meios para anunciar o Evangelho.”
Ele não deixou de mencionar as dificuldades do tempo presente, em continuidade com as advertências de São Paulo:
“São tantas situações que se afastam do Evangelho, da Palavra da Verdade, meus irmãos e irmãs, e nós somos chamados a não desanimar, a continuar testemunhando o Senhor. Temos aqui um grande exemplo, aquele que abriu caminho para tanto trabalho de evangelização nesta região, São José de Anchieta, cuja memória hoje celebramos de modo especial, e que deixou este Poço Bento como sinal marcante, conservado até hoje.”

Em seguida, o cardeal retomou o Evangelho do dia, sublinhando a figura da viúva pobre que entrega tudo o que tem:
“Jesus vê as ofertas no Templo e fala da pobre viúva, que ofereceu duas pequenas moedas, de pouco valor, mas que para ela significavam tudo, mais do que as grandes quantias que outros depositaram no tesouro. Todos deram um pouco do que lhes sobrava, enquanto ela, na sua pobreza, ofereceu tudo o que possuía para viver. Esta também foi a vida de Anchieta: na juventude, deixou seus estudos na Europa e veio para o Brasil, entregando-se completamente ao Senhor.”
Dom Orani recordou o exemplo de São José de Anchieta como modelo de entrega e criatividade missionária:
“Sabemos como eram as coisas no século XVI: longas viagens, caminhadas difíceis, condições precárias. E, no entanto, ele, homem culto, que escrevia em latim um poema à Virgem Maria, que sabia brincar, ensinar e catequizar com teatros, cantos, poesias e tantos recursos, entregou-se completamente ao Senhor. Com a sua vida, marcou profundamente o trabalho de evangelização no Brasil e também nesta nossa região.”

O cardeal convidou cada fiel a não ter medo de entregar a própria vida a Deus:
“Não tenhamos medo de entregar nossa própria vida ao Senhor. Quanto mais deixamos o Senhor reinar em nosso coração e quanto mais nos entregamos, por causa d’Ele, na missão, mais encontramos a verdadeira vida. ‘Quem perde a sua vida por amor de mim a encontrará’, diz o Senhor Jesus Cristo.”
Ao projetar o futuro da Diocese de Petrópolis, Dom Orani insistiu na necessidade de uma Igreja missionária, alegre e comprometida:
“Precisamos de pessoas que vivam intensamente a vida cristã, que sigam Jesus Cristo com alegria, que o tenham como Senhor do coração e da vida, e que, com entusiasmo, contagiem o mundo com esta presença alegre do Senhor. Nós, ao celebrarmos os 80 anos da Diocese de Petrópolis, somos chamados a nos rejuvenescermos na fé, quanto mais homens e mulheres, vivendo o Evangelho, forem presença nas cidades, nos bairros, nas casas, com o Evangelho vivido e posto em prática.”

Por fim, o arcebispo situou o jubileu diocesano no contexto da história maior da Igreja na região, marcada pela presença católica desde o século XVI:
“Todos nós — bispos, padres, diáconos, religiosos, religiosas, povo de Deus — somos chamados a reconhecer que o Brasil deve muito à presença histórica da Igreja Católica, em tantas situações, e também aqui, nesta região. Ao mesmo tempo, temos a necessidade de atualizar, de encarar os desafios de hoje: tantas situações controversas no mundo, ideologias, narrativas, e também em nosso Estado, com tantas incoerências, violências e pobrezas. Que a Diocese de Petrópolis, neste seu 80º aniversário de criação e instalação, tendo uma história ainda mais antiga nesta região desde o século XVI, possa encontrar cada vez mais homens e mulheres que sejam pontes para o futuro.”
Encerrando sua mensagem, Dom Orani sintetizou o chamado a uma vida de entrega e confiança em Cristo:
“Que cada um de nós ofereça ao Senhor as ‘duas pequenas moedas’ da viúva — isto é, tudo o que somos — e, ao mesmo tempo, anuncie a Palavra oportuna e inoportunamente, proclamando Aquele em quem colocamos nossa esperança e confiança: Jesus Cristo, nosso Senhor. Agradeço a oportunidade de celebrar com vocês os 80 anos da Diocese de Petrópolis e de perceber, nesta história, a ação de Deus que vai guiando a nossa vida, levando-nos a agradecer pelo passado, enfrentar os desafios do presente e construir o futuro, pela evangelização e pela nossa entrega ao Senhor. São José de Anchieta, rogais por nós!.”






