A Espiral do Perdão: Da Vingança Humana à Misericórdia Divina – Pe. Anderson Alves

Queridos irmãos e irmãs,

Se nós quiséssemos resumir a Liturgia da Palavra deste 24º Domingo do Tempo Comum em duas frases do próprio Senhor no Sermão da Montanha, poderíamos resumir nestas duas: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” e “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.

O Senhor exige que sejamos misericordiosos com os nossos irmãos porque Ele é o Pai das Misericórdias. Criou-nos por misericórdia, mantém-nos vivos por misericórdia e perdoa as nossas faltas diárias porque é rico em misericórdia. A misericórdia que recebemos do Senhor é a mesma que devemos comunicar aos nossos irmãos.

Hoje, continuamos a ouvir o capítulo 18 do Evangelho de São Mateus, o chamado Discurso Comunitário, que traz os ensinamentos de Jesus para a vida em comunidade. No domingo passado, a liturgia nos apresentava o ensinamento da correção fraterna: como proceder quando o irmão peca contra nós. Mas a correção fraterna exige algo prévio: o perdão. Não basta apenas corrigir; é preciso antes ter o coração desarmado de qualquer rancor. Nós perdoamos para voltar à paz com o irmão e com Deus, mas também precisamos querer a salvação de quem nos ofendeu. Corrigimos para salvar, para tirar a pessoa do pecado e trazê-la de volta à comunhão com Deus e com a Igreja.

É dentro desse contexto que Pedro se aproxima e pergunta a Jesus: “Senhor, quantas vezes devo perdoar o meu irmão se ele pecar contra mim? Até sete vezes?”.

Pedro julgava estar sendo extremamente generoso. Na época de Jesus, havia um debate entre os rabinos sobre quantas vezes se devia perdoar: alguns diziam uma vez, outros diziam até três. Pedro propõe sete — o número da perfeição na criação —, imaginando ter atingido o topo da sabedoria e da caridade humana.

Mas a resposta de Jesus corta radicalmente essa contabilidade: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”.

Os Padres da Igreja revelam a profundidade espiritual escondida por trás desses números.

Primeiro, São João Crisóstomo nos explica que Jesus não estava fixando um teto matemático de 490 vezes para, depois disso, autorizar a vingança. O número “setenta vezes sete” é uma linguagem bíblica que significa perdoar sempre, de forma ilimitada e contínua. Assim como Deus não impõe um limite de vezes para nos acolher no Sacramento da Penitência, o cristão não pode viver com uma “calculadora na mão” para medir até onde vai a sua caridade.

Em segundo lugar, São Jerônimo faz uma leitura moral e simbólica: o número dez representa os Dez Mandamentos da Lei, e o número sete representa o tempo (os sete dias da semana em que decorre a nossa vida). Multiplicar setenta por sete significa que, por mais que os nossos irmãos pequem todos os dias contra nós, violando os mandamentos de Deus, devemos estar prontos a perdoar diariamente, sem guardar mágoa para o dia seguinte.

Para ajudar a compreender esse ensinamento, Jesus conta uma parábola. Como nota São Jerônimo, na Palestina era costume ensinar verdades espirituais por parábolas, para que a doutrina ficasse gravada na vida e na memória do povo.

Jesus fala de um rei que decide acertar as contas com os seus servos. Trouxeram-lhe um que lhe devia dez mil talentos.

Meus irmãos, dez mil talentos era uma fortuna astronômica! Para termos uma ideia, o talento na época era uma medida de peso que equivalia a cerca de 32 kg de prata (6.000 denários). Toda a arrecadação anual de impostos da Judeia e regiões vizinhas ficava em torno de 800 a 1.000 talentos. Uma dívida de 10.000 talentos exigiria a arrecadação total de impostos de toda a província por mais de dez anos — o salário de milhões de dias de trabalho!

Por que Jesus usou um número tão absurdo? Porque esses dez mil talentos representam a nossa dívida para com Deus. O número dez mil simboliza a multidão incalculável dos nossos pecados contra os Dez Mandamentos. Diante de Deus, nossa dívida é impagável por nossas próprias forças. Ninguém tem com o que pagar a própria salvação.

Diante da ordem do patrão de vender o servo com sua mulher, filhos e bens — imagem da ruína total que o pecado traz para a vida humana —, o homem prostra-se e suplica: “Dá-me um prazo e eu te pagarei tudo”.

Ele pede um prazo, algo humanamente impossível de cumprir. Mas o texto diz que o patrão teve compaixão, soltou o empregado e perdoou-lhe a dívida toda. São Gregório Magno observa que a misericórdia de Deus sempre supera o que temos capacidade de pedir. Ele não deu apenas um tempo; deu o perdão total. É o que Deus faz conosco quando reconhecemos nossa miséria e nos dobramos diante d’Ele: saímos da Sua presença totalmente purificados e perdoados.

Mas aquele homem sai dali e encontra um companheiro que lhe devia cem denários — o equivalente a cem dias de trabalho. Uma dívida real, mas perfeitamente pagável em poucos meses. O que faz aquele que foi perdoado? Agarra o colega pelo pescoço, sufoca-o e exige: “Paga o que me deves!”.

O companheiro faz exatamente o mesmo gesto que ele fizera minutos antes: ajoelha-se e suplica: “Dá-me um prazo e eu te pagarei”. Mas ele se recusa e manda jogá-lo na prisão.

Como aponta Santo Agostinho, aquele homem esqueceu de onde tinha acabado de sair. Havia recebido o perdão de uma montanha e negou ao irmão um punhado de areia. Não é exatamente isso o que fazemos? Deus nos perdoa ofensas gravíssimas, e nós guardamos rancor por coisas pequenas, por palavras impensadas, por divergências bobas do dia a dia. Quantas brigas de família, entre pais e filhos, ou entre esposos, começam por motivos insignificantes e duram anos por falta de perdão?

Os outros servos viram aquilo, ficaram tristes e contaram ao patrão. O rei manda chamar o empregado e o chama de “servo perverso”.

Notem um detalhe profundo: o rei não o chamou de perverso por ter contraído a dívida de dez mil talentos. A dívida encontrou compaixão. Ele foi chamado de perverso porque não usou de misericórdia após ter recebido a misericórdia. A crueldade com o irmão anulou a graça que havia recebido. O rei indignou-se e entregou-o aos torturadores até que pagasse toda a dívida.

E Jesus conclui com esta advertência solene: “É assim que meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão”.

Perdoar “de coração” significa tirar a mágoa do fundo da alma. Não é apenas uma aparência externa de perdão enquanto se guarda o rancor para se vingar no futuro; é perdoar integralmente. Como nos lembra a primeira leitura de hoje, a vida passa rápido e o fim de todos nós se aproxima: por que carregar a bagagem pesada do rancor para a eternidade?

Meus irmãos, não sejamos pessoas rancorosas. O perdão que concedemos ao nosso irmão por uma falta pequena tem o poder de abrir as portas da misericórdia de Deus para a multidão dos nossos próprios pecados.

Vamos pedir a Deus nesta Eucaristia a graça de compreender e viver este Evangelho. Que tenhamos a humildade de reconhecer a nossa imensa dívida diante de Deus e a generosidade de perdoar setenta vezes sete a todos os que nos ofendem, para que possamos alcançar, hoje e sempre, a misericórdia do Pai. Amém.

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