Maria Angélica fala sobre fé, família, saúde e música após vencer Festival de Música da Diocese de Petrópolis

Maria Angélica, compositora e participante da Paróquia Nossa Senhora Aparecida, em Parada Modelo, Guapimirim, foi uma das finalistas e vencedora do Festival de Música da Diocese de Petrópolis, realizado em comemoração aos 80 anos da Diocese, que aconteceu durante o Congresso Diocesano da Juventude, realizado no dia 3 de maio, em Teresópolis.

A música vencedora, intitulada “Eucaristia, Sustento na Evangelização”, nasceu durante um período delicado de sua vida, marcado por cirurgias e tratamentos de saúde. Em entrevista à Web TV Amor Divino, Maria Angélica falou sobre o processo de composição, sua experiência com a Eucaristia, a importância da comunidade, a vocação familiar e profissional e a participação de sua família na vida da Igreja.

Rogerio Tosta – Qual é a sua atuação na Igreja?

Maria Angélica: Participo da Paróquia Nossa Senhora Aparecida, em Parada Modelo, aqui em Guapimirim. Nosso padre é o padre Caio Martins. Faço parte desta comunidade há alguns anos. Vim de outra diocese, da Diocese do Rio de Janeiro, onde cresci. Durante a minha juventude, atuei na música da Diocese do Rio. Depois que me mudei para cá, fiquei bastante tempo sem servir. Mais tarde, Deus acabou me conduzindo, e nós retomamos o serviço e voltamos a ofertar o dom que Ele mesmo nos deu. Aqui na paróquia, além da música, também sirvo na Pastoral Familiar e no ECC — Encontro de Casais com Cristo. Sou esposa do Marcelo e mãe do Miguel e da Cecília.

Rogerio Tosta – Como surgiu a composição da música vencedora do festival?

Maria Angélica: A história foi conduzida por Deus desde o princípio. No ano passado, por volta do final do mês de julho, fiz uma cirurgia que parecia ser simples. Porém, com o andamento das consultas e dos exames, a situação acabou se complicando um pouco.

Fui encaminhada a um especialista, e a primeira consulta com ele foi em agosto. Foi uma consulta muito difícil. Eu estava passando por dias bastante tensos. Exatamente uma semana depois dessa consulta, o edital do Festival de Música foi publicado.

De certa forma, aquele edital parecia um presente de Deus, para que eu me dedicasse à proposta, ocupasse o meu tempo com aquela atividade e com aquilo que o Senhor estava colocando diante de mim naquele período da minha vida, enquanto eu permanecia afastada das minhas atividades por causa das questões médicas.

O edital foi aberto no final de agosto e permaneceu disponível até o início deste ano. Durante esses meses, fui tratando do problema de saúde e estudando para fazer a composição.

Como o edital já apresentava um tema e uma proposta muito bem definidos, aproveitei aquela oportunidade que Deus me deu para estudar mais a Bíblia e aprofundar-me no conteúdo apresentado.

Parti desse estudo para conseguir fazer a composição, que foi se desenvolvendo aos poucos. Às vezes, eu precisava parar para realizar um tratamento ou uma nova cirurgia. Por fim, tudo deu certo.

Depois do terceiro procedimento cirúrgico, conseguimos fazer a gravação do áudio que precisava ser enviado. Tive a ajuda do meu marido, que entende mais da parte tecnológica do que eu, e da Alice, que tocou teclado comigo e abraçou a ideia desde o princípio.

Conseguimos gravar o áudio na nossa paróquia, enviamos o material e ficamos aguardando a divulgação dos finalistas.

Quando saiu o resultado, ficamos muito felizes, confiantes e também muito gratas. Eu fiquei muito grata a Deus. Depois, quando vamos discernindo melhor o agir de Deus em nossa vida, percebemos que as coisas vão se encaixando.

Foi um período difícil, mas também muito propício. Creio que Deus tinha, desde o princípio, um objetivo para a minha vida durante aquela fase. Ele usou uma questão de saúde para, por meio daquela cruz e daquele deserto, alcançar o objetivo que Ele próprio tinha: a evangelização através da música.

Rogerio Tosta – Como você se preparou para escrever a letra?

Maria Angélica: Além da própria Sagrada Escritura, principalmente dos Evangelhos, também li bastante o Catecismo da Igreja Católica. Como eu estava em casa, de repouso, sem poder realizar nenhuma atividade, ficava muito tempo sentada assistindo à televisão. Então, comecei a acessar o YouTube e assisti a muitas pregações de padres que traziam palavras muito boas.

Acredito que temos muitos recursos à nossa disposição para estudar, mas, às vezes, na correria e diante das exigências da rotina, não encontramos tempo para sentar e estudar. Aproveitei, então, aquele tempo que Deus me deu e consegui estudar dessa forma: tanto por meio da leitura quanto por meio dos vídeos que a internet oferece.

Rogerio Tosta – A música fala sobre a Eucaristia. Como foi a sua experiência com Jesus Eucarístico durante esse período?

Maria Angélica: Durante esse período, acabei compreendendo um pouco mais o que é a Eucaristia e o que esse Pão Salvador representa para nós. Passei a buscar mais a Eucaristia. Como eu não estava trabalhando nem realizando outras atividades, nos períodos entre uma cirurgia e outra, quando conseguia me locomover, pude participar da missa semanalmente. Isso foi muito bom. Antes, essa não era a minha realidade; eu participava somente da missa dominical.

Estar na presença de Jesus Eucarístico também durante a semana fez com que eu compreendesse cada vez mais o mistério eucarístico.

Também tive a experiência de o Senhor Eucarístico vir até mim, até a minha casa, nos momentos em que eu não podia ir até Ele. Por meio das mãos de um ministro da Sagrada Comunhão, recebi a comunhão em casa algumas vezes.

Essa experiência é única e difícil até de descrever, porque Ele se torna muito acessível e solícito para conosco em todas as circunstâncias da nossa vida. É como se o Senhor dissesse que quer nos salvar a todo momento, independentemente da situação em que estejamos.

Esse período me aproximou ainda mais da Eucaristia e dos momentos de adoração, principalmente às quintas-feiras. Tive mais tempo para estar na presença d’Ele, e isso fez muita diferença na minha vida. Ajudou-me a atravessar aquele momento relacionado à questão de saúde que vivi.

Rogerio Tosta – A sua experiência também revelou a importância da comunidade. Como os irmãos ajudaram você?

Maria Angélica: Também acabamos vivenciando a espiritualidade de viver em comunidade, porque muitas pessoas me visitaram e rezaram por mim. O meu problema foi no joelho. Incomodava-me muito não poder me ajoelhar, não poder fazer a genuflexão quando entrava na igreja e não poder me ajoelhar na hora da consagração da Eucaristia.

Então, eu dizia a alguns irmãos:

— Empresta-me o seu joelho. Ajoelha por mim enquanto eu não posso.

Isso também é muito bonito. Somente quem vive em comunidade consegue passar por isso e sentir a presença de Cristo por meio dos irmãos.

Rogerio Tosta – Como foi o período de tratamento e de incerteza em relação ao tumor?

Maria Angélica: Quando o problema começou, parecia ser algo simples. Depois, descobri que tinha um tumor no joelho, um tumor de partes moles. Inicialmente, parecia ser algo simples, mas, com o desenrolar da situação, fui encaminhada a um ortopedista oncológico, no Rio de Janeiro, porque havia suspeita de malignidade no exame de imagem. A imagem não estava boa.

A primeira consulta com esse especialista foi muito difícil. Ele apresentou um dos piores prognósticos, fazendo o papel dele como médico, que é falar a verdade, mesmo quando ela é difícil.

Houve também uma situação envolvendo um irmão da Paróquia Nossa Senhora da Ajuda, uma paróquia vizinha. O Adriano, que participa da Renovação Carismática Católica, recebeu de sua mãe uma água de Lourdes e me entregou. Ele disse:

— Quem está precisando é você.

Eu utilizava aquela água durante as minhas orações particulares. Dizia:

— Senhor, Tu tens poder sobre todas as coisas, sobre cada molécula de água. Assim como abriste o Mar Vermelho, penetra nessas células e muda o que tiver de ser mudado.

Eu fazia essa oração, e outras coisas também aconteceram por meio de outros irmãos.

Depois, fiz uma nova biópsia e um novo exame de imagem. As coisas começaram a mudar. No final, descobrimos que o tumor não era maligno; era benigno. Deu tudo certo.

Além da questão da malignidade, ele estava localizado em uma região bastante complexa. Mesmo sendo benigno, quando fosse retirado na cirurgia, eu poderia perder o movimento do pé, caso um nervo importante fosse lesionado.

Eu também pedia:

— Senhor, afasta esse tumor desse nervo. Coloca ali um espaço para que o médico consiga trabalhar com uma margem de segurança.

E o Senhor agiu. Creio nisso. Hoje, só tenho a agradecer por ter dado tudo certo, por não ter ficado com nenhuma sequela e por ter passado por esse momento, porque aprendi muito.

Deus usou tudo isso para me ensinar muitas coisas e, certamente, também para ensinar as pessoas que estavam ao nosso redor. Muitas vezes, somos instrumentos de aprendizado para aqueles que convivem conosco, por meio da cruz que carregamos.

Rogerio Tosta – Como foi participar do Festival de Música durante o Congresso da Juventude?

Maria Angélica: Foi tudo muito novo. Nunca tinha participado de nada semelhante. Depois que saiu o resultado e foram divulgados os finalistas, começamos a divulgar a música nos grupos da paróquia, para que as pessoas pudessem aprendê-la.

Como era o Congresso da Juventude, os jovens organizaram uma torcida. Fizeram cartazes e adesivos para colar nas blusas. Foi a coisa mais linda de ver. Eu já ganhei o dia somente pela alegria deles, que contagia. Eu estava precisando muito daquela alegria, porque fiquei extremamente nervosa na semana que antecedeu o Congresso e perdi a voz.

Fui ficando cada vez mais sem voz e pensei:

— Senhor, como vou apresentar a música se não estou conseguindo cantar?

Na inscrição, havíamos colocado apenas o meu nome e o da Alice, que tocou teclado. Fiquei pensando:

— Gente, vou passar vergonha. Não vou conseguir cantar nada. Vai ser um horror!

Na véspera, perguntei a um dos organizadores se poderia levar alguém para me ajudar. Ele respondeu que sim.

Foi então que Deus colocou mais uma pessoa para me ajudar: a Nelma, da nossa paróquia. Ela também serve no Ministério de Música. Prontamente, eu lhe disse:

— Vamos comigo? Preciso de ajuda.

E ela respondeu:

— Vamos!

Na véspera, eu estava completamente sem voz. Fomos até o local para passar o som, mas a minha voz estava horrível.

No dia do festival, a voz melhorou um pouco. Consegui cantar, mas com a segurança de ter uma irmã ao meu lado para me dar apoio, caso fosse necessário.

A presença dela fez toda a diferença. Quando sabemos que há alguém ao nosso lado para nos apoiar e ajudar, isso nos fortalece.

No fim, tudo fluiu bem. Consegui cantar, mesmo com a voz ainda um pouco debilitada, e deu tudo certo.

Rogerio Tosta – Como você concilia a vida familiar, a profissão e os serviços na Igreja?

Maria Angélica: Eu tento administrar tudo. Nem sempre consigo, mas a minha principal vocação é a vocação matrimonial e familiar. A minha família — meu marido e meus filhos — está sempre em primeiro lugar. Digo que não adianta abraçarmos muitos serviços e descuidarmos do nosso serviço primordial.

Tenho a minha vocação matrimonial e familiar e sou professora. Atualmente, está muito difícil. Sou professora de jovens e dou aula somente para o Ensino Médio. Passamos por situações muito tensas e angustiantes.

Em muitas delas, é possível perceber a falta de uma família por trás daquele jovem. Isso faz com que eu queira abraçar ainda mais o serviço familiar na Igreja.

Por isso, estou no ECC e na Pastoral Familiar, para tentar contribuir, de alguma forma, com a formação dessas famílias: tanto na escola, com os jovens, mesmo quando eles nem sempre têm acesso aos pais e familiares, quanto na Igreja, por meio da formação de novos casais através do catecumenato matrimonial.

É lindo ver os resultados do catecumenato matrimonial e a formação dos novos casais.

Participo do ECC há muito tempo. Fiz o ECC quando ainda morava no Rio de Janeiro e pertencia àquela diocese, mas comecei a atuar propriamente quando fui inserida no ECC da paróquia e da nossa diocese.

É muito gratificante para mim. Gosto muito de estar a serviço da Igreja em prol das famílias.

Rogerio Tosta – Como você avalia a situação das famílias atualmente?

Maria Angélica: Hoje, muitas famílias começam a sua história na superficialidade e na ausência de Deus. No início, isso pode até não parecer um problema, mas sabemos que, sem Deus, nada é possível — e, na construção da família, menos ainda.

O inimigo nos tenta o tempo inteiro. Quando essas tentações surgem, se Deus não estiver presente e se não estivermos na presença d’Ele, será muito difícil sustentar uma família diante das dificuldades.

Creio que é por isso que muitas famílias não conseguem se manter hoje. Como começam na superficialidade, falta-lhes um aprofundamento espiritual e um alicerce no Senhor. Falta também uma vivência dentro da Igreja e em comunidade, o que nos ajuda muito.

A ausência desse alicerce acaba destruindo as famílias, infelizmente. Isso acarreta inúmeras consequências para as crianças e os jovens.

Percebo isso principalmente entre os jovens, que são o público com quem trabalho na escola. É muito triste ouvir os relatos que eles contam aos colegas em voz alta, como se fossem coisas normais.

Como seria diferente a história deles se a família tivesse sido construída sobre a rocha!

Tentamos continuar trabalhando e fazendo o mínimo que conseguimos, na esperança de ajudar algumas dessas almas jovens, para que não reproduzam, nas futuras famílias que construírem, aquilo que deu errado na família de origem.

Procuramos apresentar valores aos quais, muitas vezes, eles não tiveram acesso na educação familiar.

Ainda hoje, uma aluna estava conversando comigo, e eu disse que tenho 22 anos de casada. Ela exclamou:

— Nossa! Como a senhora aguenta?

Para eles, é muito estranho ver um relacionamento tão longo, porque, o tempo todo, a juventude descarta pessoas e relacionamentos como se fossem objetos.

É preciso mostrar a eles que é possível. Se eu conseguir mostrar isso a um ou a outro, já terá valido a pena.

Rogerio Tosta – O que motivou você a escolher a profissão de professora?

Maria Angélica: Quando comecei a dar aulas, o que me motivou foi a possibilidade de trabalhar na área que havia estudado e à qual me dediquei academicamente, sem descuidar da minha família. Como o horário era mais flexível, a profissão se encaixou de maneira muito adequada à minha realidade. Esse foi um dos principais motivos. Consegui unir o útil ao agradável, como se costuma dizer.

Quando comecei, a educação não estava tão difícil como está hoje. Era agradável ver a evolução dos alunos.

No início, dei aulas para a Educação de Jovens e Adultos. Aprendi muito com alguns alunos idosos, que tinham histórias de vida muito marcantes e carregadas de sentimentos e aprendizados.

Alguns alunos me ensinaram mais do que eu consegui ensinar a eles. Toda essa troca constante na educação sempre foi muito motivadora.

Depois, com a inserção da tecnologia, as coisas foram mudando e se complicando. Alguns valores foram se perdendo, e a educação ficou bastante difícil.

Mas não podemos desistir. É como se o Senhor dissesse:

— Eu preciso de vocês. Não sou apenas Eu. Tenho muitos professores que continuam firmes nesse serviço.

Esses professores tentam, mesmo que minimamente, construir uma juventude com uma base educacional para que os alunos consigam alcançar seus objetivos profissionais, tenham vontade de melhorar, fazer uma faculdade ou um curso superior, conseguir um bom emprego e ser pessoas dignas, seguindo caminhos corretos na vida.

Rogerio Tosta – Que pessoas contribuíram para a realização da música?

Maria Angélica: Tenho muito a agradecer. Agradeço ao padre Caio, que me auxiliou na conferência da letra, para que não houvesse nenhum erro litúrgico. Agradeço também ao padre Gabriel, que foi nosso padre anteriormente e agora está fazendo doutorado. Ele sempre foi muito solícito e zeloso em relação à liturgia e à música. Aprendi muito com ele e preciso agradecê-lo também.

Agradeço à Alice, que tocou teclado comigo, ao meu marido, que me ajudou com a gravação, e à Nelma, que esteve comigo no festival quando perdi a voz.

Agradeço a todas as pessoas que ajudaram indiretamente, muitas vezes sem sequer saber o quanto estavam ajudando, especialmente com suas orações ao longo desses meses. Essas orações me sustentaram diariamente.

Agradeço a Deus, acima de tudo, por esse presente. O festival foi um presente que ocupou o meu tempo e me fez ficar ainda mais próxima do Senhor.

Agradeço também pelo dom da música e pelo dom de servi-Lo.

Rogerio Tosta – Que mensagem você gostaria de deixar para as famílias e para as comunidades?

Maria Angélica: Que as famílias percebam a importância da vivência em comunidade desde o princípio, cada uma servindo com o seu próprio dom. Nem sempre será um dom musical, mas certamente há algum dom que pode ser colocado a serviço da família e da comunidade.

Que sejamos formadores e bons testemunhos neste mundo que tanto precisa de nós, cristãos.

Rogerio Tosta – Quais são as suas palavras finais?

Maria Angélica: Acho que a melhor forma de terminar é agradecendo. Tenho muito a agradecer. Deus fez muitas coisas na minha vida e em nossas vidas desde o princípio. Meu marido e eu nos conhecemos na Igreja, participando de encontros de jovens. Também servi na música durante a minha juventude e cheguei a participar de um coral em 1997, quando o Papa veio ao Brasil, em uma missa celebrada no Aterro do Flamengo.

Só tenho a agradecer a Deus por tantas maravilhas e a todas as pessoas que me ajudaram ao longo dessa caminhada. Agradeço por esse presente, que ocupou o meu tempo, me fez ficar ainda mais próxima do Senhor e me permitiu servir por meio da música. Que as famílias compreendam a importância da vida em comunidade e coloquem seus dons a serviço da Igreja e do próximo.

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