Monsenhor Ney Afonso de Sá Earp faleceu em 14 de setembro de 1995, em Petrópolis (RJ), aos 59 anos, após um ano de intenso sofrimento causado por enfermidade insidiosa que debilitou profundamente seu corpo, mas não sua inteligência nem sua fé. Sua morte ocorreu às 1h45 da madrugada, na festa litúrgica da Exaltação da Santa Cruz, símbolo que marcou espiritualmente sua última etapa de vida. O corpo foi velado na Catedral São Pedro de Alcântara; a missa exequial, concelebrada pelo bispo diocesano, pelo bispo emérito e cerca de 40 sacerdotes, precedeu o sepultamento. A missa de sétimo dia foi celebrada na capela do Colégio Santa Isabel, onde ele fizera a Primeira Comunhão.
Nascido em Petrópolis, em 17 de dezembro de 1935, filho do médico Dr. Nelson de Sá Earp e de Amélia Maria Costa de Sá Earp, Monsenhor Ney cresceu em ambiente de fé e de elevada formação humana. Cursou o Seminário Menor São José, no Rio de Janeiro, entre 1949 e 1953, e estudou Filosofia e Teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, de 1953 a 1960. Foi ordenado sacerdote em Roma, em 30 de julho de 1960 (em alguns registros, 3 de julho), iniciando um ministério profundamente ligado ao estudo, ao magistério e à defesa da vida.
Após cursos de pós-graduação em Filosofia, voltou ao Brasil em 1964; em 1971 retornou a Roma e a Toronto (Canadá) para completar sua tese de doutorado, que defendeu brilhantemente em 1974. A sólida formação filosófica e teológica seria base de toda a sua atuação pastoral e intelectual.
Ministério em Petrópolis e no Rio de Janeiro
Em Petrópolis, Monsenhor Ney assumiu por curto período a Paróquia de Bemposta e lecionou no Seminário Diocesano de Corrêas e na Universidade Católica de Petrópolis (UCP). Foi também secretário diocesano de Pastoral Familiar, colaborando com a reflexão e a ação da Igreja na área da família e da vida.
Por vários anos, serviu à Arquidiocese do Rio de Janeiro, onde permaneceu mesmo quando regressou a Petrópolis, mantendo dupla colaboração. No Rio, foi professor:
- na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio);
- na Universidade Santa Úrsula;
- na Faculdade João Paulo II;
- na Escola Mater Ecclesiae.
Até sua morte, integrou a Comissão Arquidiocesana para a Doutrina da Fé e a Comissão Teológica da Arquidiocese do Rio de Janeiro, atuando como referência intelectual e doutrinal.
Defensor da vida e fundador de movimento pró-vida
A grande marca de seu sacerdócio foram os estudos e o empenho pastoral em defesa da vida humana, especialmente dos nascituros. De seu pai, médico respeitado em Petrópolis e profundamente sintonizado com a doutrina da Igreja, herdou conhecimentos científicos sobre a transmissão da vida. A teologia, que cultivava com amor, iluminava e dava sentido ao seu apostolado predileto.
Nos Estados Unidos, conheceu a organização “Human Life International” e, inspirado por ela, iniciou no Rio de Janeiro, em 1978, o “Movimento em Defesa da Vida”, apoiado por um grupo de médicos que até hoje colabora com a causa. Foi o grande mentor e coordenador desse movimento na Arquidiocese do Rio, com ramificações nas dioceses de Petrópolis, Niterói e, mais recentemente, Nova Iguaçu.
Voltou várias vezes aos Estados Unidos, convidado para palestras e pregações e para acompanhar o movimento pró-vida. Em 1988, entrou em contato com o “Pro-Life Rescue”, chegando a participar de “ações de resgate” de nascituros junto a abortórios, algumas noticiadas pela imprensa brasileira. Em julho de 1989, dirigentes do movimento norte-americano, com um grupo de “resgatadores”, visitaram várias paróquias do Rio, divulgando seu trabalho, e também vieram a Petrópolis, onde apresentaram conferências no auditório da Universidade Católica.
Também no Brasil foram realizadas “ações de resgate” junto a clínicas abortivas, buscando esclarecer gestantes, oferecer apoio e providenciar assistência após o parto. O número de vidas poupadas por essa atuação foi grande; algumas foram salvas no último instante, constituindo o consolo espiritual de Monsenhor Ney e a alegria de muitas mães agradecidas.
Atuação junto a legisladores
O Movimento em Defesa da Vida, sob sua orientação, atuou com eficácia no assessoramento de legisladores. Médicos do movimento foram a Brasília para depor em comissões da Constituinte de 1988, levando dados científicos e estatísticos e projetando filmes realistas e impressionantes sobre práticas abortivas. O mesmo trabalho foi feito durante a elaboração da Constituição do Estado do Rio de Janeiro e da Lei Orgânica do Município. Com isso, ajudaram a evitar que leis aprovassem o aborto como “pena de morte” para nascituros inocentes, comparado, em seus textos, ao crime de Herodes atualizado para a sociedade contemporânea.
O número de consciências esclarecidas pela ação apostólica de Monsenhor Ney e a “coroa de vidas salvas” em consequência de seu trabalho são, aos olhos da fé, méritos valiosos para sua recompensa eterna.
Enfermidade, última fase e espiritualidade
Durante cerca de um ano, enfrentou uma enfermidade grave, que debilitou profundamente seu corpo, sem atingir, porém, sua inteligência penetrante nem seu zelo pela Verdade e pela Igreja. Impedido de ir à igreja, obteve a faculdade de celebrar a Santa Missa em casa, o que fez diariamente, com grande fervor, até poucos dias antes da morte, quando cãibras intensas e repetidas já não lhe permitiam continuar.
Mesmo enfermo, manteve-se atuante. Em 8 de setembro de 1995, apenas seis dias antes de falecer, ainda redigia um relatório sobre as atividades do Movimento em Defesa da Vida, talvez o último texto de sua vida. Sacerdote exemplar, amigo de todas as horas, deixou muitos ensinamentos, especialmente sobre a centralidade da vida, a dignidade da pessoa humana e a fidelidade à doutrina da Igreja.
Últimas palavras
No dia 13 de setembro de 1994, um ano antes de sua morte, redigiu aquelas que são consideradas suas últimas palavras espirituais, um verdadeiro testamento de fé:
“Deus Pai é infinitamente bom.
E Seu Filho deu Seu Sangue
e Sua Vida por nós.
Podemos e devemos corresponder,
mediante a graça do Espírito Santo,
a ajuda da Virgem Maria e de toda a Igreja.
Senão, vamos nos desencontrar
na eternidade.
Salvem muitos bebês e muitos pobres.
Façam celebrar muitas Missas
por papai e por mim.
Obrigado a todos,
especialmente a mamãe.
Vou alegre.
Deus me perdoe e perdoem todos
todo mal que cometi, sabendo ou ignorando.”
Nelas, resume o amor a Deus, à Igreja, aos pobres e às crianças por nascer, bem como seu pedido humilde de perdão e gratidão.
Reconhecimento e legado
Sabiamente, como recorda a Revista Ação (Petrópolis, ano XLVI, nº 525, outubro de 1995), Monsenhor Ney acolheu e cumpriu o apelo bíblico: “Resgatai aqueles que são injustamente levados à morte” (Provérbios 24,11). O bispo diocesano à época e muitos sacerdotes destacaram sua figura como sacerdote culto, corajoso e profundamente comprometido com a causa da vida.
Com seu falecimento, em 14 de setembro de 1995, a Diocese de Petrópolis, a Arquidiocese do Rio de Janeiro e o movimento pró-vida perderam um grande pastor, teólogo e militante da vida. Seu legado permanece:
- nas vidas salvas que não chegaram a ser interrompidas no ventre materno;
- nas consciências formadas contra a banalização do aborto;
- nos documentos e pareceres que influenciaram leis e constituições;
- nas aulas, conferências e escritos que continuam a inspirar defensores da vida.
Monsenhor Ney Afonso de Sá Earp é lembrado como sacerdote exemplar, intelectual de alto nível, amigo leal e apóstolo decidido contra qualquer atentado à dignidade da pessoa humana. Sua memória segue viva na Igreja e nos movimentos em defesa da vida, como um chamado permanente a unir fé, razão e coragem no cuidado dos mais frágeis.






