O Pecado da Injustiça por Eleição e o Testemunho do Sangue – Pe. Anderson Alves

No tribunal de Jerusalém, Eichmann tentou escapar da responsabilidade moral alegando que não odiava os judeus. Repetia, como um mantra burocrático, que não havia matado ninguém com as próprias mãos e que apenas cumprira o dever de obediência. Ele disse que havia pecado contra Deus, mas não contra o Estado. Que nunca deu a ordem de exterminar nenhum judeu, pois “não havia necessidade”. Essa era a tentativa de revestir a própria ação com uma neutralidade técnica, como se a moral pudesse ser suspensa sempre que a engrenagem administrativa assim exigisse. Hannah Arendt, cuja vida e envolvimento no julgamento de Jerusalém são retratados no filme Hannah Arendt (2012), percebeu que essa defesa não era apenas frágil, mas profundamente reveladora: Eichmann queria ser visto como um funcionário, não como um agente moral.

Santo Tomás de Aquino desmonta essa ilusão. Ele distingue entre fazer algo injusto e ser injusto. Um homem pode cometer uma injustiça por ignorância ou por uma paixão súbita; nesses casos, há culpa, mas não necessariamente uma deformação profunda da alma. No entanto, quando alguém pratica a injustiça por intenção deliberada, com plena consciência e vontade, torna-se injusto por escolha. É o que Santo Tomás afirma na Suma Teológica, ao explicar que o injusto voluntário é aquele que se compraz no próprio ato da injustiça. Segundo ele, ninguém comete injustiça contra a própria vontade nem sofre injustiça de boa vontade.

Eichmann não agiu movido por medo imediato nem por impulso descontrolado. Durante anos, planejou meticulosamente os horários dos comboios que levavam milhões à morte. Buscava eficiência, reconhecimento profissional e promoções. Havia plena deliberação da razão e pleno consentimento da vontade. Sua injustiça não foi acidente; foi projeto. Arendt observa, em Eichmann em Jerusalém, que funcionários alemães que, durante a guerra, decidiram não participar dos massacres não foram punidos: apenas não foram promovidos.

Por outro lado, Tomás de Aquino ensina que a injustiça se opõe diretamente à caridade, que é a forma de todas as virtudes. A caridade orienta a alma para Deus e para o próximo; a injustiça voluntária destrói essa orientação. Por isso, o Aquinate afirma que a injustiça, por seu gênero, é pecado mortal. Não se trata apenas de violar uma norma, mas de ferir o próprio vínculo que une o homem ao bem.

Claus von Stauffenberg e os conspiradores da Operação Valquíria compreenderam essa realidade de modo dramático. O filme Operação Valquíria mostra a tensão moral que os movia. Eles sabiam que o juramento militar não podia obrigá-los a cooperar com um tirano que ordenava o pecado mortal coletivo. Santo Tomás ensina que o homem sofre aquilo que lhe é imposto contra a vontade, mas só comete injustiça quando quer. Assinar papéis, organizar listas, carimbar documentos: tudo isso, quando integrado a uma máquina de extermínio, torna-se participação voluntária no mal.

Os estudantes da Rosa Branca compreenderam o mesmo princípio. Sabiam que distribuir panfletos contra o regime era crime punido com a morte. Ainda assim, escolheram a justiça. Foram executados na prisão, mas deixaram um testemunho que atravessa gerações: a consciência não pode ser comprada pelo medo, nem subjugada pela lei injusta.

O fuzilamento imediato de Stauffenberg e a decapitação dos jovens da Rosa Branca são testemunhos de consciências que preferiram o julgamento de Deus à segurança do pecado institucionalizado, justificado pela legislação civil de um país moderno. Eles compreenderam que a obediência cega não é virtude, mas vício; não é fidelidade, mas fuga; não é disciplina, mas abdicação da própria dignidade moral.

A história, iluminada pela filosofia, pela teologia e até pelo cinema, nos recorda que a injustiça não nasce apenas de grandes tiranos, mas de pequenas escolhas feitas por pessoas humildes e sem reflexão. E que, diante do mal, a neutralidade é sempre uma forma de cooperação.

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