Após o término do período das grandes solenidades litúrgicas, em que celebramos os mais profundos mistérios da nossa fé, a Igreja nos conduz de volta ao Tempo Comum, um tempo em que somos convidados a meditar sobre a vida pública de Jesus Cristo, sua missão salvífica e seus ensinamentos. É o momento propício para escutarmos o seu chamado e buscarmos uma identificação real com a sua palavra e o seu convite. Neste ano litúrgico, acompanhamos o Evangelho de São Mateus e, de modo especial, voltamos os nossos olhos para o capítulo nono, que nos apresenta a vocação do próprio autor deste livro sagrado.
Algo que desperta imediatamente a atenção de quem se debruça sobre as Escrituras é a posição que esta narrativa ocupa na estrutura do texto. Diferente de outros evangelistas que relatam o chamado dos discípulos logo nas primeiras páginas, Mateus situa a sua própria vocação após uma longa sucessão de milagres e prodígios operados pelo Senhor nos capítulos anteriores.
Como bem observa São João Crisóstomo, essa não foi uma escolha aleatória; Mateus quis colocar o seu chamado entre os maiores sinais realizados por Cristo para deixar claro que a conversão de sua própria alma foi o maior milagre que testemunhou. A fim de compreendermos a magnitude desse sinal, a tradição teológica nos recorda quem era este homem: um cobrador de impostos.
Diferente dos tributos legítimos que as leis humanas justificam para o bem comum, os publicanos daquela época eram vistos pelo povo de Israel como traidores da pátria e pecadores públicos, pois extorquiam os seus irmãos judeus em benefício do Império Romano, que dominava a região, além de frequentemente roubarem quantias extras para o próprio enriquecimento.
Mateus vivia imerso nessa realidade de cobiça e exclusão social até o momento em que Jesus, passando por sua banca, dirige-lhe o olhar e diz apenas uma palavra: “segue-me”. O texto relata que ele se levantou imediatamente, abandonando seus ganhos e suas contas. São Jerônimo questiona-se como um homem tão apegado ao dinheiro pôde responder com tanta prontidão a um comando tão breve, e explica que o Verbo de Deus encarnado, por quem todas as coisas foram criadas, trazia em seu rosto o resplendor da beleza divina, um poder de atração misterioso que tocou o coração de Mateus no mais íntimo, fazendo-o perceber que o Deus que operava milagres o escolhia apesar de sua condição de pecador rejeitado por todos.
Opera-se ali uma troca profunda: o homem que antes vivia para receber e acumular tesouros deste mundo passa a dar e distribuir as riquezas divinas, tornando-se dispensador da Palavra e deixando para a Igreja universal o tesouro do seu Evangelho, que continua a nos transformar ainda hoje.
A comemoração desse encontro se estende a um banquete na casa de Mateus, onde muitos cobradores de impostos e pecadores se assentam à mesa com Jesus. Santo Agostinho e São Gregório Magno nos revelam que este gesto já era uma prefiguração do que seria a missão de Mateus por toda a vida: reunir os transviados e aproximá-los de Cristo por meio da pregação.
Diante da indignação dos fariseus, que criticavam o Mestre por comer com pecadores públicos, Jesus se apresenta como o Médico das Almas, proferindo palavras que servem de advertência para todas as épocas ao afirmar que os que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes. Como nos ensina Santo Ambrósio, os fariseus também estavam profundamente enfermos pelo orgulho e pela hipocrisia, mas permaneciam em sua doença porque se julgavam justos e cheios de santidade, enquanto os publicanos, reconhecendo a própria miséria, abriram-se para receber a cura do Divino Médico.
Ao ordenar que aprendessem o significado de “quero misericórdia e não o sacrifício”, Jesus expõe o vazio de uma religiosidade puramente exterior e formal que carece de compaixão e amor ao próximo.
Concluindo o ensinamento, o Senhor declara que não veio chamar os justos, mas os pecadores, estabelecendo que a verdadeira justiça provém de reconhecer a própria necessidade de redenção. Essa dinâmica divina de escolher o que é fraco e desconsiderado pelo mundo para manifestar o seu Reino repete-se também na vocação de São Paulo e deve ecoar na vida de cada um de nós.
Todos os dias, na simplicidade do Tempo Comum, Jesus passa por nós, revela o seu rosto e repete o convite para segui-lo. Diante disso, somos impelidos a pedir a graça de uma conversão diária e sincera, inspirada na atitude dócil de São Mateus, para que, transformados pela beleza da misericórdia divina e curados de nossas cegueiras espirituais, sejamos também nós enviados como autênticos missionários, capazes de buscar com amor os irmãos que se encontram distantes e necessitados do amor de Deus.





