A Equidade e o Eichmann Digital: o Risco da Automação da Consciência – Pe. Anderson Alves

Ao aproximarmos esta reflexão dos desafios contemporâneos, torna-se evidente que o diálogo entre Hannah Arendt e Santo Tomás de Aquino ilumina um dos maiores dilemas antropológicos do século XXI: a crescente delegação do julgamento humano às máquinas. Se o perigo do século passado era o homem agir como uma máquina burocrática, o risco atual é permitir que máquinas autênticas assumam o lugar do homem no exercício do discernimento ético, jurídico e até militar.

O que Arendt viu em Eichmann — a abdicação do pensamento, a obediência automática, a frieza estatística — reaparece hoje sob uma nova forma. O “Eichmann Digital” manifesta-se quando algoritmos decidem quem recebe crédito, quem é suspeito em sistemas de policiamento preditivo ou quais alvos devem ser eliminados por drones autônomos. A distância entre o agente e a vítima, que já preocupava Arendt, torna-se agora absoluta. A máquina não vê o rosto do outro; apenas processa dados.

Essa desumanização tecnocrática foi denunciada com força na encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, que adverte que a inteligência artificial não é neutra. Ela pode amplificar desigualdades, reforçar injustiças e promover uma desumanização inédita das relações sociais. O pontífice atualiza a intuição de Arendt: quando decisões de Estado, concessões de direitos básicos ou operações bélicas se tornam automáticas e estatísticas, o limiar ético da sociedade se dissolve. Toda tecnologia que permite atacar, julgar ou excluir sem ver o rosto do outro reduz a vigilância moral e anestesia a consciência.

É precisamente aqui que a advertência da encíclica encontra a Suma Teológica. Santo Tomás reconhece que as leis humanas, por mais bem elaboradas, são incapazes de prever todos os casos particulares. A realidade prática é complexa demais para ser capturada por regras rígidas. Por isso, ele ensina que, em certas situações, não se deve aplicar a letra da lei, mas recorrer à equidade, que é a intenção profunda do legislador. A equidade impede que normas criadas para o bem comum se tornem instrumentos de severidade injusta.

Mas pode um algoritmo praticar equidade? Pode uma inteligência artificial experimentar compaixão? Santo Tomás define a justiça como o habitus pelo qual, com vontade constante e perpétua, se dá a cada um o que lhe é devido. Essa perpetuidade não é repetição mecânica, mas disposição racional e livre de buscar o bem do outro em cada caso concreto. A sede dessa vontade está no apetite intelectual da alma humana, a única faculdade capaz de apreender o bem universal e ponderar a dignidade de cada pessoa.

Uma inteligência artificial, por mais avançada que seja, não possui alma, vontade livre ou apetite intelectual. Opera com sintaxe, estatística e probabilidade. É incapaz, portanto, de virtude, de justiça e de equidade.

Desse modo, delegar o julgamento moral a sistemas automatizados é repetir o erro de Eichmann: abdicar voluntariamente da responsabilidade pessoal. De fato, a justiça exige rosto, proximidade e consciência desperta. Os jovens da Rosa Branca não obedeceram à máquina jurídica do Reich porque sabiam que a lei, quando se afasta do justo, deixa de ser lei. Eles viram o outro, a dignidade ferida, e agiram.

A tecnologia pode ser instrumento de bem, mas nunca substituto da consciência. O risco do nosso tempo não é apenas criar máquinas inteligentes, mas permitir que elas substituam aquilo que há de mais humano em nós: a capacidade de julgar, de discernir e de amar o justo. O grande risco não é a máquina substituir o homem, mas o homem se reduzir a uma máquina incapaz de pensar e agir moralmente.

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