Na festa de Nossa Senhora do Amor Divino, Dom José Maria aponta Maria como Mestra da relação com a Trindade

Na noite da solenidade da Santíssima Trindade, 31 de maio, o Santuário Mariano Nossa Senhora do Amor Divino, em Corrêas, Petrópolis, reuniu fiéis de diversas paróquias para a missa em honra à padroeira da Diocese de Petrópolis e em ação de graças pelos 80 anos de criação da diocese. A celebração foi presidida por Dom José Maria Pereira, bispo auxiliar da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, com a presença de Dom Joel Portella Amado, bispo de Petrópolis, diversos sacerdotes, religiosos, seminaristas e devotos de Nossa Senhora do Amor Divino.

Logo no início de sua homilia, Dom José Maria dirigiu palavras de gratidão e afeição a Dom Joel, ao clero e à comunidade, sublinhando a amizade e a paternidade espiritual do bispo diocesano, e saudou o vigário geral, padre Paulo César, o reitor do santuário, padre Rodrigo Alberti, o reitor do Seminário Diocesano, padre Luiz Henrique, o vice-reitor, padre Tiago José, o monsenhor Luiz Mello, o diácono Cássio, as religiosas e os seminaristas, que chamou de “coração da diocese”.

Mistério da Trindade: não para ser “deixado de lado”, mas contemplado

Ao introduzir a reflexão sobre a liturgia do dia, Dom José destacou a centralidade do mistério trinitário na vida cristã, combatendo a ideia de que, por ser mistério, a Santíssima Trindade deva ser “deixada de lado”.

“Quando nós falamos em Santíssima Trindade, muita gente pensa: ‘É mistério, se é mistério, deixa pra lá, não vou me meter com isso, não dá para explicar’. Mas não é porque não entendemos que devemos deixar pra lá, porque é um mistério tão importante que envolve toda a nossa vida. Em todos os momentos, nós somos envolvidos por essa Trindade, por esse Deus de amor”, afirmou.

Segundo o bispo, a melhor “pregação” sobre a Trindade seria o silêncio contemplativo:

“Se a gente pudesse parar para meditar sobre a Trindade, a melhor pregação seria o silêncio: para contemplar, para ficar extasiado diante do grande amor de Deus. Quando a gente pensa na Trindade, a gente pensa no maior amor de Deus. É tão grande aquele amor que não coube apenas nele: Ele é Pai, Ele é Filho, Ele é Espírito Santo. Ele quer contagiar com esse amor, como Pai, como Filho e como Espírito Santo.”

Dom José lembrou ainda que toda a vida cristã começa e se desenvolve sob o sinal trinitário: o sinal da cruz e a saudação litúrgica “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, bem como a oração “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo”.

“Nós fomos criados para dar glória a Deus. A nossa vida deve ser uma constante glória a Deus”, sublinhou.

A Trindade na liturgia e nas Escrituras

O bispo mostrou como a própria liturgia da Igreja “educa” os fiéis no mistério da Trindade: Pentecostes encerra o Tempo Pascal, seguido do Domingo da Santíssima Trindade e, na quinta-feira seguinte, da solenidade de Corpus Christi.

“A beleza da nossa fé: tantos mistérios que sustentam a nossa vida. Sem eles, nós não seríamos nada, seríamos cadáveres ambulantes”, disse.

Comentando a segunda leitura, Dom José recordou a saudação paulina que se tornou fórmula litúrgica:

“São Paulo diz: ‘A graça de nosso Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós’. Vejam: desde o início do cristianismo, Paulo citando a Trindade – a graça do Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo.”

No Evangelho (Jo 3,16), ele destacou o encantamento de São João diante do amor divino:

“Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho unigênito…’. Peçamos a Deus a graça de também nós sermos encantados pelo amor de Deus, de nos sentirmos amados por Deus.”

“Cristão não é de cara de velório”: certeza de ser amado

Em tom direto, Dom José Maria criticou a postura pessimista e amarga que muitas vezes se encontra entre os cristãos, contrapondo-a à certeza do amor de Deus:

“A gente vê tantas pessoas amarguradas, cheias de ódio, azedas, com cara de velório, que esqueceram que são amadas por Deus. O mundo inteiro pode me odiar, mas Deus me ama. Essa deve ser a beleza de um cristão: ter a certeza de que é amado por Deus. O cristão não deve ser cristão de cara de velório, de Sexta-feira da Paixão. Se entendeu que Cristo está vivo, vive com cara de Domingo de Páscoa.”

Ele insistiu na necessidade de deixar-se transformar pelo amor recebido:

“Deus me criou por amor; por amor, o seu Filho veio ao mundo e, morrendo na cruz, por amor, deu a vida por mim para me salvar. Este amor é tão grande que Ele pede ao Pai e manda o Espírito de amor. Por isso, não podemos viver de ódio, de vingança, de amargura. O mundo precisa entender: precisamos amar, porque Deus é amor, e esse amor nos foi derramado na pessoa de Cristo e do Espírito Santo.”

O mistério da Trindade: não um “quebra-cabeça”, mas caminho de salvação

Dom José fez questão de afastar a visão intelectualista do dogma trinitário:

“O mistério da Trindade não é um quebra-cabeça, uma ‘trigonometria’ reservada para os sábios. Ele está no contexto da salvação: Pai, Filho e Espírito Santo no contexto da salvação. Não nos afasta de Deus por não o compreendermos; ao contrário, nos deixa fascinados por tanto amor.”

A partir disso, convidou os fiéis a uma atitude mais positiva e agradecida:

“Fomos criados para reconhecer que somos amados e, por isso, agradecer mais, olhar mais para cima, elevar mais os olhos para Deus, reclamar menos. Reclamação atrai reclamação, negatividade atrai negatividade. Sejamos mais positivos; olhemos mais para Aquele que nos amou; exalemos mais amor do que azedume.”

E rezou:

“Trindade Santa, quero que a minha vida seja realmente um testemunho deste amor, de um Deus que é Pai, de um Deus que é Filho, de um Deus que é Espírito Santo. Essa Trindade habita em nós; não podemos esquecer disso.”

Maria, Mestra do Amor Divino e modelo de relação com a Trindade

Por se tratar também da festa de Nossa Senhora do Amor Divino, padroeira da diocese, celebrada em 31 de maio, Dom José ligou o mistério trinitário à figura de Maria:

“Não podemos deixar de olhar para Maria, porque ela é a melhor Mestra, a Rainha, a Senhora, a Mãe que tem a relação mais íntima com a Santíssima Trindade. Ao olhar para Nossa Senhora do Amor Divino, nós entendemos que é possível ter uma relação de amor com a Trindade.”

Recordando uma antiga forma de piedade mariana, ressaltou:

“Quando rezamos o terço, dizemos: Filha de Deus Pai, Mãe de Deus Filho, Esposa de Deus Espírito Santo, e ao mesmo tempo nossa Mãe. A melhor Mestra do Amor Divino é Nossa Senhora do Amor Divino.”

Dom José também apresentou Maria como modelo de serviço e abertura ao próximo:

“Ela poderia ter dito: ‘Agora sou rainha, venham me visitar, tragam presentes para mim’. Mas o Evangelho diz que ela saiu apressadamente para servir. Não havia helicóptero, não havia Uber, eram montanhas, dias de caminhada.

Hoje vivemos num mundo de pessoas egoístas, que olham apenas para o próprio umbigo. Maria é Mestra: nos ensina a sermos servidores, abertos ao próximo, a ir ao encontro do outro.”

Concluindo, retomou as palavras de Nossa Senhora em Caná, que dão o tom de sua exortação aos fiéis da Diocese de Petrópolis:

“Peçamos à Virgem do Amor Divino, intercessora, Mãe de Deus, que, como em Caná da Galileia, continua a dizer a cada um de nós: ‘Fazei tudo o que Ele vos disser’. Façamos mais a vontade de Deus. Ninguém soube fazer tão bem a vontade de Deus como ela.”

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