“Nada na face da terra justifica não amar”, afirma Dom Joel na Celebração da Paixão do Senhor em Raiz da Serra

Mais de 2.500 fiéis se reuniram na tarde desta Sexta-feira Santa, 3 de abril, no Ginásio Jesus, Maria e José, na Paróquia Nossa Senhora da Conceição de Raiz da Serra, em Magé, para a Celebração da Paixão do Senhor presidida por Dom Joel Portella. Em clima de recolhimento, silêncio e profunda oração, o bispo convidou a assembleia a contemplar o mistério da cruz como “o grande embate entre o bem e o mal, entre a vida e a morte”, mas sobretudo como a revelação da força salvadora do amor de Deus.

Desde o início da celebração, o ambiente despojado chamava a atenção dos fiéis. Sem enfeites, com o altar simples e o destaque para a Palavra de Deus, a liturgia realçou o caráter sóbrio e contemplativo da Sexta-feira Santa. “Desaparecem todos os enfeites. Desaparece tudo aquilo que é desnecessário. E o que fica? Fica a Palavra de Deus”, ressaltou Dom Joel, lembrando a extensão das leituras e o longo relato da Paixão.

O bispo sublinhou que o objetivo deste dia não é apenas recordar um sofrimento passado, mas aprender com o modo como Jesus enfrentou a dor, a injustiça e a violência. “O mais importante é o modo como Jesus agiu, como Ele reagiu a tudo aquilo”, afirmou. Ao recordar a prisão, o julgamento e a crucifixão, Dom Joel destacou que não se trata de encenação: “Ele não fingiu, Ele não encenou, Ele não fez um teatro de morte. Morreu mesmo. Mas se entregou por amor.”

Jesus que sofre, ama e permanece

Na homilia, Dom Joel recordou algumas cenas marcantes da Paixão segundo o Evangelho de São João. Ao ser procurado pelos soldados, Jesus se apresenta: “Sou eu”, e pede que os discípulos sejam deixados em paz. Já na cruz, mesmo em meio à dor extrema, Ele se volta para a Mãe e para o discípulo amado: “Mulher, eis aí o teu filho… Eis aí a tua mãe”. Para o bispo, esses gestos revelam que, “no meio de todo o sofrimento, Jesus não pensou n’Ele”.

Convidando os fiéis a se colocar no lugar de Jesus, Dom Joel refletiu sobre a dor de quem vive a injustiça: “Eu só fiz o bem, eu ajudei, eu perdoei, eu curei, e, de repente, é aqui que me colocam?” – imagina Jesus, diante da condenação, da escolha por Barrabás e do grito da multidão. Numa linguagem próxima do povo, o bispo lembrou a tentação humana de desistir: “Pai, chega. Pra tudo na vida tem limite. Eu cheguei ao meu limite. Vou-me embora.”

Contudo, Dom Joel enfatizou que Jesus não abandona a cruz: “Ele ficou porque Ele estava pregado naquilo que veio mostrar para nós: a força salvadora do amor. A força salvadora de algo que nada pode conter, que ninguém pode segurar. Nem a maior de todas as maldades pode segurar.” Assim, a cruz torna-se o lugar onde o amor se mostra mais forte que o ódio, a injustiça e a violência.

O perdão mais forte que a vingança

Recordando a oração de Jesus no Evangelho de Lucas – “Pai, perdoai, porque eles não sabem o que fazem” – Dom Joel apresentou a Sexta-feira Santa como o dia em que se oferece à humanidade uma alternativa radical à lógica da vingança: “Tendo todos os motivos pra desistir de nós, tendo todos os motivos para rogar ao Pai vingança, morte, castigo, Ele reza pedindo perdão”, ressaltou.

O bispo alertou para o risco de ficar preso apenas à dor da Sexta-feira, esquecendo a vitória da Ressurreição: “Corremos o risco de achar que o mal, a dor e o sofrimento ganham na vida.” Por isso, apontou para a continuidade do Tríduo Pascal, convidando os fiéis a testemunhar, já na Vigília e no Domingo de Páscoa, “que a vida venceu a morte”.

Ao comentar o rito da adoração da cruz, Dom Joel explicou o sentido do pano vermelho que envolve o crucifixo: símbolo do sangue derramado, da dor e do sofrimento, que vai sendo retirado, pouco a pouco, para revelar “não apenas a cruz, mas o Crucificado, Jesus na cruz”. E completou: “A cruz de Cristo nos faz perguntar hoje: o amor ganha ou não ganha?”

Viver o sofrimento como ocasião de amar

Aplicando o mistério da cruz à vida dos fiéis, Dom Joel insistiu que “nada na face da terra justifica não amar”. Se Jesus amou “no extremo da maldade” e “no extremo do sofrimento”, também o cristão é chamado a enfrentar suas dores, lutas e dificuldades sem se deixar endurecer: “Que o sofrimento nessa vida não nos torne iguais a Pilatos, iguais aos sumos sacerdotes, que se tornaram tão amargos, profundamente malvados. Pelo contrário, que o sofrimento faça de nós um pouco daquilo que Jesus veio trazer: que a gente possa amar, amar profundamente, amar a Jesus e, em Jesus, amar os irmãos e irmãs.”

Em um momento de grande simplicidade, o bispo comparou o som da chuva que caía do lado de fora à ação da graça de Deus: “A água da chuva não volta ao céu sem ter transformado o chão. A graça de Deus não vem a nós sem ter transformado o nosso coração.” Ao final da homilia, convidou todos a um breve instante de oração silenciosa, pedindo forças ao Senhor para enfrentar as cruzes de cada dia: “Jesus, pela Vossa Santa Cruz, ajudai-me a enfrentar minhas dores, minhas lutas, minhas dificuldades. Ajudai-me a enfrentá-las, amando como Vós nos amastes.”

A celebração prosseguiu com a Oração Universal, a adoração da cruz e a comunhão, em clima de profundo recolhimento e fé. Em comunhão com toda a Igreja, a Paróquia Nossa Senhora da Conceição de Raiz da Serra viveu, assim, a memória da Paixão do Senhor como um forte apelo à confiança, ao perdão e ao amor que não desiste, mesmo diante da cruz.

 

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