“O Senhor é o refúgio do pobre” é o título da Mensagem para o X Dia Mundial dos Pobres deste mês de novembro. Assim, o Pontífice dedica a sua intenção de oração do mês ao “bom uso das riquezas”. Através da Rede Mundial de Oração do Papa, com a campanha “Reza com o Papa”, o Santo Padre convida os fiéis e todas as pessoas de boa vontade a rezar para recordar e aprofundar que “partilhando construímos o futuro”.
Na sua oração, o Papa dirige-se ao “Senhor da vida” e reconhece que “tudo o que temos vem de Ti”: a terra fértil, os talentos recebidos e o esforço daqueles que nos precederam. “Nada é apenas nosso; tudo é um dom partilhado”, afirma na sua oração. O Pontífice reconhece que a riqueza, “desejada ou alcançada”, pode endurecer o coração e levar-nos a esquecer os mais frágeis, e pede perdão “pelo acumular em vez de partilhar, pelo uso dos bens como poder e não como serviço”. Perante essa realidade, recorda que a verdadeira riqueza “não está naquilo que guardamos, mas naquilo que oferecemos com amor” e pede ao Espírito Santo que nos ensine a usar o dinheiro, o tempo, os talentos e as oportunidades como “instrumentos de fraternidade”, para que cada decisão económica, familiar ou comunitária nasça de um “coração livre”. A oração conclui com o pedido para que sejamos testemunhas de “uma riqueza transformada em serviço e misericórdia”, sinal do Reino de justiça e de paz.
Oração do Papa
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Senhor da vida,
tudo o que temos vem de Ti:
a terra fértil, os talentos recebidos,
o esforço de quem nos precedeu.
Nada é só nosso, tudo é dom partilhado.
Mas, tantas vezes, Senhor, deixamos que a riqueza, desejada ou alcançada
endureça o nosso coração,
nos feche no egoísmo
e nos faça esquecer os mais frágeis.
Perdoa-nos por acumular em vez de partilhar,
por usar os bens como poder e não como serviço.
Tu recordas-nos que a verdadeira riqueza
não está no que guardamos,
mas no que entregamos com amor.
Um coração desapegado transforma o mundo:
abre caminhos de justiça,
derruba muros de indiferença,
semeia esperança entre os pobres.
Pedimos-Te, Senhor,
que o teu Espírito nos ensine a usar o que temos
— dinheiro, tempo, talentos, oportunidades —
como instrumentos de fraternidade.
Que cada decisão económica, familiar ou comunitária
nasça de um coração livre,
capaz de reconhecer que todo o bem é comum,
e que só partilhando construímos o futuro.
Faz de nós testemunhas de uma riqueza
convertida em serviço e misericórdia,
para que a nossa vida, unida à de outros,
seja sinal do teu Reino de justiça e paz.
Amém.
Uma riqueza cada vez mais concentrada
A intenção de oração do Papa responde a uma realidade que está relacionada com a atualidade que vivemos. A riqueza financeira das famílias atingiu, em 2025, um recorde de 268,4 biliões de euros, mais 8,6% do que no ano anterior, segundo o Global Wealth Report 2026 da Allianz. Ainda assim, a riqueza não chega a todos: nos países analisados, os 10% mais ricos da população detêm 85,4% dos ativos financeiros líquidos, enquanto a metade mais pobre, quase 3 mil milhões de pessoas, praticamente não possui nada.
Entretanto, o número de pessoas com grandes fortunas continua a aumentar. Segundo o Global Wealth Report 2026 do UBS, 2025 registou quase um milhão de novos milionários em dólares, mais de 2.600 por dia, e desde 2020, a riqueza média tem-se afastado cada vez mais da mediana, ou seja, da riqueza de uma pessoa comum. Os ganhos, portanto, distribuem-se de forma desigual: a riqueza dos mais ricos cresce mais rapidamente do que a de uma pessoa comum.
A mensagem de Leão XIV para o X Dia Mundial dos Pobres
Leão XIV já tinha alertado para este paradoxo na sua primeira exortação apostólica, Dilexi te (4 de outubro de 2025): num mundo em que os pobres são cada vez mais numerosos, assinala o Papa, também crescem “algumas elites de ricos, que vivem numa bolha muito confortável e luxuosa” (n.º 11). E adverte que esta situação alimenta uma cultura do descarte que tolera, com indiferença, que milhões de pessoas vivam em condições indignas.
A mesma mensagem percorre a Mensagem para o X Dia Mundial dos Pobres, que será celebrado a 15 de novembro de 2026 sob o lema “O Senhor é o refúgio do pobre”. Nela, o Papa contrapõe a obsessão de quantos acumulam riquezas apenas para si próprios à perseverança de Deus, que abre o coração e acolhe, e propõe um exame de consciência que inclui uma pergunta incómoda: “Temos consciência da nossa pobreza e preferimo-la à riqueza injusta? Vamos ao encontro dos pobres, experimentando a sua marginalização? Escutamos os seus pensamentos e partilhamos as suas esperanças?”.
Em maio de 2021, o Papa Francisco dedicou a sua intenção de oração pelo “mundo das finanças”, pedindo que se rezasse para que os responsáveis pelo mundo financeiro colaborassem com os governos, a fim de regulamentar os mercados financeiros e proteger os cidadãos dos seus perigos
Do dom ao serviço
O Padre Cristóbal Fones, sj, diretor internacional da Rede Mundial de Oração do Papa, afirma, nesta ocasião, que “é importante fazer um exame interior, começando por agradecer tudo o que recebemos como dom e sabendo que, como todo o dom, Cristo nos pede que o coloquemos ao serviço dos outros. Isto diz respeito a todos nós, sem exceção”.
A partir da Rede Mundial de Oração do Papa, sublinha-se que esta intenção de oração não é apenas um convite a rezar, mas também a deixarmo-nos transformar. Propõe-se, por isso, traduzir a oração em cinco ações e gestos concretos: a) reconhecer que tudo é dom e agradecer; b) partilhar com generosidade aquilo que somos e temos, dando e dando-nos; c) gastar com consciência, discernindo; d) colocar os talentos ao serviço do bem comum; e) viver com sobriedade evangélica, isto é, com simplicidade.
Sobre a Rede Mundial de Oração do Papa
A Rede Mundial de Oração do Papa é uma Obra Pontifícia confiada à Companhia de Jesus. Está presente em mais de 90 países e reúne uma comunidade espiritual de mais de 22 milhões de pessoas que procuram viver cada dia a disponibilidade para colaborar na missão de Cristo. No centro desta missão estão as intenções mensais de oração do Papa, que convidam a centrar–se nos desafios da humanidade e na missão da Igreja.
Foi fundada em 1844 como Apostolado da Oração. Em dezembro de 2020, o Papa Francisco instituiu esta Obra Pontifícia como Fundação Vaticana e aprovou os seus estatutos definitivos em julho de 2024.





