Diocese, Notícias › 06/05/2021

Padre Francisco: uma vida marcada pelo amor ao próximo

Padre Francisco Montemezzo, 83 anos, morreu na noite de quinta-feira, no Hospital SMH, onde estava internado nos últimos meses, onde estava sendo acompanhado por uma equipe de profissionais de saúde. O bispo da Diocese de Petrópolis, Dom Gregório Paixão, OSB, manifestou sua tristeza pela morte do Padre Francisco. O velório e o sepultamento ainda não foram divulgados.

Francisco Montemezzo nasceu em 13 de julho de 1937, na região da Bastia, localizada a 20 Km de Pádua, na Itália. Filho do casal Egídeo e Letícia. O segundo em quatro irmãos – Antônio, Fábio e Sérgio – Padre Francisco sempre falou com alegria e orgulho de seus irmãos, cunhadas e sobrinhos. No dia 18 de julho do mesmo ano de seu nascimento, foi batizado por um padre que era primo de seu pai, que fora ordenado dois dias antes de seu nascimento.

Francisco teve uma infância modesta, ao lado de três irmãos, cercado do carinho de sua família, que era muito fervorosa. Todos os dias, à noite, quando sua mãe terminava as tarefas domésticas, sua avó reunia em torno dela todas as crianças da família. Na sala iluminada por uma palha de milho que queimava, rezavam o terço e repetiam todo o catecismo.

Desde pequeno, ele dizia para ao padre de sua comunidade, que gostaria de ser padre como ele. Todos os dias de manhã cedo, Francisco ia a missa, sendo que a igreja, ficava a 2 Km de sua casa. Depois da missa voltava para casa, tomava seu café e andava mais dois Kms para ir à escola.

À tarde voltava para a igreja para ir ao catecismo. Aos sete anos, Francisco fez sua primeira comunhão, quando usou, pela primeira vez um terninho branco de linho que foi tecido e confeccionado pela sua mãe.  Depois, tornou-se coroinha e no rigoroso frio do inverno, sua avó o cobria com o seu xale para o aquecê-lo ao longo caminho da igreja.

Com 12 anos, ele pediu ao pai para ir para o seminário.  O pai disse que não podia, porque tinha outros irmãos e não tinha como mantê-lo.  Francisco chorou por não poder ir para o seminário.  Até que sua mãe resolveu criar coelhos e assim conseguia custear seus estudos no seminário. Ela criava entre 80 e 90 coelhos, que quando cresciam eram vendidos.

Quando seminarista, ao vir em casa nas férias, ajudava seu pai na lavoura. Colhia milho e uva. Num dos momentos de férias, teve dúvida sobre se voltava ou não para o seminário. Certa manhã, depois de uma noite mal dormida, cheio de dúvidas, ele abriu seu Evangelho e contando com a pouca claridade que entrava por uma fresta na janela, leu a seguinte passagem onde Cristo dizia a Pedro e seu irmão André: “Vinde comigo, farei de vós pescadores de homens”.

Esse trecho esclareceu suas dúvidas, fazendo com que ele assumisse definitivamente sua vocação. Durante o período no Seminário de Pádua, certa vez, um sacerdote missionário, que havia cortado a própria língua para não renunciar a sua fé em Jesus Cristo, pois havia sido preso num país que fazia missão, deu testemunho de sua vida aos seminaristas.

Naquela noite, saindo do dormitório escondido e com medo de ser pego, Francisco foi ao quarto do missionário e lhe entregou o único dinheiro que tinha, pedindo que o padre rezasse para que ele fosse também um missionário.

Francisco foi ordenado padre em 8 de julho de 1962 no Seminário Diocesano de Pádua, na Itália, aos 25 anos. Sua primeira missa foi no Santuário de Nossa Senhora Montenérico, cuja capela fica sob o manto de uma grande imagem de Nossa Senhora. Seu primeiro ano como padre passou na Itália. Durante este período pediu ao bispo para ser missionário e como resposta foi enviado para ser vigário numa paróquia. Pensando que sofreu uma punição, um ano depois recebeu do bispo a autorização para ser missionário e, aos 27 anos foi para o Equador.

Neste país, chegou em 16 de dezembro de 1963, depois de 21 dias viajando de navio, desembarcou no porto de Guaiaquil na cidade do Equador Capital Quito. Foi vigário da Paróquia Baeza (índios) permaneceu por 2 anos e, depois, foi nomeado para Archidona, onde permaneceu por 9 anos no meio dos índios, províncias de Nabo do Equador.

Durante este período, construiu nove escolas, além de outras iniciativas, principalmente a catequese para os índios. A língua oficial era o espanhol, o Quecha (idioma) dos incas, grupos dos índios chamados Yumbos. Para se comunicar com os índios aprendeu rapidamente a língua deles e por isso, no horário da missa onde havia grande participação dos índios, a pregação era feita sempre pelo Padre Francisco.

Nesta comunidade visitou todos os índios e quando anoitecia, dormia na casa de um índio. A cama era de bambu cortada ao meio com um colchão fino. Para se adaptar a esta realidade, Padre Francisco pediu que fizesse uma cama igual para a casa paroquia com isso não sentia diferença quando dormia na casa dos índios.

Depois do Equador, voltou a Itália para ver seus familiares e em 26 de abril de 1975, Padre Francisco chega ao Brasil indo para a Paróquia São José do Itamarati, na Diocese de Petrópolis. Nesta paróquia realizou diversos trabalhos e, aproveitando a experiência do Equador, visitou cada família da Paróquia, fossem católicas ou não, recebia uma visita do missionário. Um de seus grandes trabalhos foi com a catequese, a formação dos jovens e formação de grupos para rezar na casa das pessoas, aproveitando sempre a Campanha da Fraternidade e a Novena de Natal.

Os grupos criados pelo Padre Francisco na Paróquia São José hoje são incentivados pela Igreja, como está previsto no Documento de Aparecida, como pequenas comunidades.  Em cada rua da Paróquia, havia um grupo com 12 ou mais pessoas que procurava visitar e rezar na casa de família. Para este trabalho, Padre Francisco contou sempre com a presença de seminaristas diocesanos, lazaristas e religiosos e religiosas. Os movimentos da Igreja, como Cursilho, ECC, Jovens e tantos outros sempre tiveram apoio e seu incentivo.

Paralelo ao seu trabalho religioso, Padre Francisco nunca se esqueceu daqueles que hoje Papa Francisco chama invisíveis da sociedade. Sempre ajudou os mais necessitados, visitando-os em suas casas, levando a Palavra de Deus e a ajuda material. Visitando os doentes nos hospitais e em suas casas e atendendo a todos que batiam a sua porta pedindo uma ajuda material ou espiritual. Este é um trabalho que realiza até hoje, ou melhor, este é o resultado de seu ministério sacerdotal, doar-se por inteiro para aqueles que necessitam do anúncio da Palavra e do pão nosso, a exemplo de Cristo que alimentou com pão e peixe o povo e os alimentou com sua palavra.

Em 1984, a pedido do então bispo da Diocese de Petrópolis, Dom Manoel Pedro da Cunha Cintra, Padre Francisco assume a Paróquia Santo Antônio do Alto da Serra. Uma tarefa árdua e difícil, pois a comunidade não aceitou a troca de pároco. No entanto, perguntado sobre este fato, Padre Francisco limita-se a dizer que recebeu a missão do bispo, cumprindo a vontade de Deus.

Na Paróquia do Alto da Serra, Padre Francisco encontrou uma comunidade estruturada e por isso, como pastor deu continuidade ao trabalho, fazendo as mudanças necessárias e ampliando o trabalho da paróquia. Uma de suas realizações durante o período que ficou à frente da Paróquia do Alto da Serra foi anteceder ao Documento de Aparecida incentivando a instalação de pequenas comunidades, além das cinco grandes, incentivando que se reúnem-se semanalmente para rezar e meditar a Palavra. Padre Francisco fazia questão de uma vez por mês celebrar missa em cada uma delas. Por conta disto, todos os dias tinha missa numa pequena comunidade.

Com a Paróquia estruturada, com todas as pastorais e movimentos atuando, Padre Francisco aproveitou para ampliar seu trabalho de visita as famílias e aos mais necessitados e com isso criou campanhas que até hoje são realizadas. Entre elas do coberto para o inverno e da cesta básica que atende inúmeras famílias.

Ele ficou a frente da Paróquia do Alto da Serra até 20 de outubro de 2015, quando foi nomeado Pároco Emérito da Paróquia Santo Antônio do Alto da Serra e Vigário da Paróquia Nossa Senhora do Amor Divino. Indo residir no Seminário Diocesano Nossa Senhora do Amor Divino.

Paralelo ao seu trabalho como pároco, desde sua chegada a Diocese de Petrópolis foi confessor e diretor espiritual no Seminário Diocesano. Desta forma, ao longo destes 45 anos tem contribuído de forma direta na formação dos sacerdotes diocesanos. Nos últimos anos, pela convivência diária, os seminaristas tiveram a oportunidade, não apenas de ouvir suas histórias e ver sua atenção ao povo de Deus, mas de testemunhar sua espiritualidade, seu cuidado com o celebrar e seu amor a Virgem Maria.

Deixe o seu comentário





* campos obrigatórios.