Artigos, Notícias › 01/01/2022

Olhar para a Mãe de Deus

No primeiro dia do ano, a Igreja fixa o olhar na celeste Mãe de Deus, que traz nos braços o Menino Jesus, fonte de toda a bênção. Hoje, também, temos a alegria e a graça de celebrar a Santíssima Mãe de Deus e, ao mesmo tempo, o Dia Mundial da Paz. Em ambas as comemorações, celebramos Cristo, Filho de Deus que nasceu de Maria, Virgem, e que é nossa verdadeira paz! A todos repito as palavras da antiga bênção: “ O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor te mostre a sua face e te conceda a sua Graça! O Senhor dirija o seu rosto para ti e te dê a paz” (cf. Nm 6, 24 – 26). Podemos contemplar o Rosto de Deus, que se fez visível e se revelou em Jesus: Ele é a imagem visível do Deus invisível. E isto graças também à Virgem Maria, de Quem hoje celebramos o maior título, aquele com que Ela participa de modo único na história da salvação: ser Mãe de Deus. No seu seio, o Filho do Altíssimo assumiu a nossa carne, e nós podemos contemplar a sua Glória (cf. Jo 1,14), sentir a sua Presença de Deus Conosco.

Assim, começamos o novo ano, fixando o olhar no Rosto de Deus, que se revela no Menino de Belém, e na sua Mãe, Maria, que acolheu o desígnio divino com abandono humilde. Graças ao seu generoso “sim” apareceu no mundo a luz verdadeira que a todo o homem ilumina (Cf. Jo 1,9) e foi-nos reaberto o caminho da paz. Vale refletir que o Verbo Eterno entrou no tempo, veio nos visitar por meio de Maria. Recorda-o o Apóstolo Paulo, afirmando que Jesus nasceu “de uma mulher”: “Quando se completou o tempo previsto, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher” (Gl 4, 4 ). Nesta “mulher”, a Igreja contempla os lineamentos de Maria de Nazaré, mulher singular porque é chamada a cumprir uma missão que a coloca numa relação profundamente estreita com Cristo: aliás, uma relação absolutamente única, porque Maria é a Mãe do Salvador. No entanto, com igual evidência, podemos e devemos afirmar que ela é, também, a nossa Mãe, porque, vivendo a sua singularíssima relação materna com o Filho, compartilhou a sua missão por nós e pela salvação de todos os homens. Contemplando-a, a Igreja vislumbra nela os traços da sua própria fisionomia: Maria vive a fé e a caridade; Maria é uma criatura, também ela é salva pelo único Salvador; Maria colabora na iniciativa de salvação de toda a humanidade. Deste modo, Maria constitui para a Igreja a sua imagem mais genuína: aquela, em quem a comunidade eclesial deve descobrir continuamente o sentido autêntico da sua vocação e do seu próprio Mistério.

Na liturgia de hoje, sobressai a figura de Maria, verdadeira Mãe de Jesus, Homem-Deus. Portanto, a Solenidade não celebra uma ideia abstrata, mas um Mistério e um acontecimento histórico: Jesus Cristo, Pessoa Divina, nasceu da Virgem Maria, a qual é, no sentido mais verdadeiro, Sua Mãe. Maria é Mãe espiritual de toda a humanidade, porque Jesus derramou o seu Sangue na Cruz por todos, e a todos confiou da Cruz à sua solicitude materna.

Olhando para Maria, iniciemos, portanto, este novo ano, que recebemos das mãos de Deus, como um “talento” precioso para fazermos frutificar, como uma ocasião providencial para contribuir para a realização do Reino de Deus. Neste clima de oração e de gratidão ao Senhor pelo dom de um novo ano que participamos da liturgia de hoje.

A piedade cristã plasmou de mil formas diferentes a festa da Mãe de Deus, que celebramos hoje! Um exemplo disso é que inúmeras são as imagens de Maria com o Menino nos braços. A Maternidade de Maria é o fato central que ilumina toda a vida da Virgem e é o fundamento dos outros privilégios com que Deus quis adorná-la.

Maria é a Senhora, cheia de graça e de virtudes, concebida sem pecado, que é Mãe de Deus e Mãe nossa, e está nos céus em corpo e alma. A Bíblia fala-nos dela como a mais excelsa de todas as criaturas, a bendita, a mais louvada entre as mulheres, a cheia de graça (Lc 1,28), Aquela que todas as gerações chamarão bem-aventurada (Lc 1,48).

A Igreja ensina-nos que Maria ocupa, depois de Cristo, o lugar mais alto e o mais próximo de nós, em função da sua maternidade divina. Diz o Concilio Vaticano II, na Lumen Gentium, 63: “Ela, pela graça de Deus, depois do seu Filho, foi exaltada sobre todos os anjos e todos os homens.”

Ensina S. Paulo: “Quando se completou o tempo previsto, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sujeito à Lei…” (Gl 4,4). Orígenes comenta: “Observa bem, que não disse: nascido através de uma mulher, mas sim: nascido de uma mulher”. Esta observação perspicaz do grande exegeta e escritor eclesiástico é importante: com efeito, se o Filho de Deus tivesse nascido somente “através” de uma mulher, na realidade não teria assumido a nossa humanidade, o que, contudo, fez, tomando a carne “de” Maria. Portanto, a maternidade de Maria é verdadeira e plenamente humana.

Na expressão “Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher”, encontra-se resumida a verdade fundamental sobre Jesus como Pessoa divina, que assumiu completamente a nossa natureza humana. Ele é o Filho de Deus, é gerado por Ele e, ao mesmo tempo, é Filho de uma mulher, Maria. Ele provém dela. É de Deus e de Maria. Este título, que em grego se diz Theotókos, aparece talvez pela primeira vez, precisamente, na área de Alexandria do Egito onde, na primeira metade do século lll, viveu o próprio Orígenes. Contudo, ele foi definido dogmaticamente só dois séculos mais tarde, em 431, pelo Concílio de Éfeso.

Jesus não apareceu de repente, na terra, vindo do céu, mas fez-se realmente homem, como nós, tomando a nossa natureza humana nas entranhas puríssimas da Virgem Maria. Enquanto Deus, é eternamente gerado, não feito, por Deus Pai. Enquanto homem, nasceu, “foi feito”, de Santa Maria. “Muito me admira – diz, por isso, São Cirilo – que haja alguém que tenha alguma dúvida de que a Santíssima Virgem deve ser chamada Mãe de Deus. Se Nosso Senhor Jesus Cristo é Deus, por que a Santíssima Virgem, que O deu à luz, não há de ser chamada Mãe de Deus? Esta é a fé que os discípulos do Senhor nos transmitiram, ainda que não tenham empregado essa expressão. Assim nos ensinaram os Santos Padres”.

“Quando a Virgem respondeu, livremente, Sim, àqueles desígnios que o Criador lhe revelava, o Verbo divino assumiu a natureza humana: a alma racional e o corpo formado no seio puríssimo de Maria. A natureza divina e a natureza humana uniam-se numa única Pessoa: Jesus Cristo, verdadeiro Deus e, desde então, verdadeiro Homem; Unigênito eterno do Pai e, a partir daquele momento, como Homem, filho verdadeiro de Maria. Por isso Nossa Senhora é Mãe do Verbo encarnado, da segunda pessoa da Santíssima Trindade, que uniu a si, para sempre – sem confusão – a natureza humana. Podemos dizer, bem alto, à Virgem Santa, como o melhor dos louvores, estas palavras que expressam a sua mais alta dignidade: Mãe de Deus” (São Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 274).

“Concebendo Cristo, gerando-o, alimentando-o, apresentando-o ao Pai, no templo, padecendo com seu Filho quando morria na Cruz, cooperou da forma inteiramente ímpar com a obra do Salvador mediante a obediência, a fé, a esperança e a ardente caridade, a fim de restaurar a vida sobrenatural das almas. Por isso, Ela é nossa Mãe na ordem da graça” (LG,61).

Jesus deu-nos Maria como Mãe nossa, no momento em que, pregado na Cruz, dirigiu à sua Mãe estas palavras: “Mulher, eis o teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis tua mãe!” (Jo 19,26-27). Desde aquele dia, toda a Igreja a tem por Mãe; e todos os homens a têm por Mãe. Todos entendemos como dirigidas a cada um de nós as palavras pronunciadas na Cruz.

Quando Cristo dá a sua Mãe por Mãe nossa, manifesta o amor aos seus até o fim. Quando a Virgem Maria aceita o Apóstolo João, como seu filho, mostra o seu amor de Mãe para com todos os homens.

Que a Virgem Maria, que, hoje, veneramos com o título de Mãe de Deus, nos ajude a contemplar a face de Jesus, Príncipe da Paz.

Dirijamos o olhar a Maria Santíssima, que, hoje, abençoa o mundo inteiro, mostrando o seu Filho divino, o “Príncipe da Paz” (Is 9, 5). Com confiança, invoquemos a sua poderosa intercessão a fim de que a família humana, abrindo-se à mensagem evangélica, possa transcorrer o ano que inicia, hoje, na fraternidade e na paz.

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