Queridos irmãos e irmãs, a liturgia deste 14º Domingo do Tempo Comum é uma grande e profunda exortação para que cultivemos a virtude da humildade. Na primeira leitura, tirada do Livro do Profeta Zacarias (Zc 9, 9-10), o profeta anuncia o futuro Messias, Aquele que entraria em Jerusalém trazendo alegria a todos, mas de forma surpreendente, pois Ele viria com humildade. Diz o profeta que Ele é justo, salvador e humilde, vindo montado num jumentinho, no potro de uma jumenta. Nós sabemos que essa profecia se cumpre perfeitamente na Semana Santa, quando Jesus entra em Jerusalém não sobre um cavalo de guerra, símbolo dos soberbos impérios deste mundo, mas sobre a montaria dos simples, vindo para sofrer e morrer por cada um de nós. Jesus, sendo o Filho de Deus, escolheu o caminho da humildade.
Uma grande doutora da Igreja, Santa Teresa de Ávila, dizia que a humildade é a verdade. Caminhar na humildade é caminhar na verdade de quem é Deus e de quem somos nós. No Antigo Testamento, Deus revela Seu nome a Moisés dizendo que Ele é Aquele que é. Nós, por outro lado, somos aqueles que não somos por nós mesmos; somos criaturas. Deus é o Ser absoluto, infinito e eterno, e tudo o que temos, tudo o que somos e tudo o que podemos fazer provém Dele e Dele depende para permanecer na existência. O homem humilde reconhece essa verdade. Ele sabe que é criatura, que é filho necessitado, e que sem Deus não é nada. Por isso, a pessoa humilde é, antes de tudo, uma pessoa agradecida. Ela esvazia-se de si mesma para preencher-se de Deus.
O oposto da humildade é a soberba. O soberbo é cheio de si, mas, na verdade, é cheio de vazio, cheio de vento. Como nos lembra o livro do Eclesiastes, vaidade das vaidades, tudo é vaidade. O homem que vive centrado em si mesmo é como uma bolha de sabão que parece grande, brilha por fora, mas por dentro só tem ar, e basta um pequeno furo para que ela desapareça e não seja mais nada. A soberba é a mãe de todos os pecados, pois foi por ela que nossos primeiros pais caíram, querendo ser como Deus sem Deus. Em contrapartida, a humildade é a mãe de todas as virtudes. É sobre a humildade que se edifica a maior delas, que é a caridade. Só consegue amar de verdade a Deus e ao próximo quem é humilde para sair de si mesmo.
Quem é humilde tem a consciência de que é filho e templo de Deus. É o que São Paulo nos recorda na segunda leitura, extraída da Carta aos Romanos (Rm 8, 9.11-13), ao mostrar que pelo Batismo recebemos o Espírito Santo que habita em nós. Por isso, já não podemos viver segundo a carne, que nos puxa para o egoísmo e para a soberba, mas devemos viver segundo o Espírito. E a principal obra do Espírito em nossa vida diária é a caridade operativa, o amor concreto aos irmãos.
No Evangelho, segundo São Mateus (Mt 11, 25-30), contemplamos um dos momentos mais íntimos de Nosso Senhor, que é a Sua oração. Jesus, sendo Deus, rezava. E só os humildes rezam de verdade, porque a oração é o reconhecimento da nossa necessidade de Deus. Jesus começa louvando e agradecendo ao Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeu estas coisas aos sábios e entendidos e as revelou aos pequeninos. Estes sábios e entendidos eram os escribas e fariseus. O pecado deles não era o conhecimento da Lei, mas a soberba de confiar apenas nas suas próprias certezas. Deus esconde Seus mistérios dos orgulhosos, mas manifesta Sua sabedoria aos pequeninos, aos discípulos que se entregam totalmente a Ele. Em seguida, Jesus revela Sua igualdade com o Pai, afirmando que ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho. Há uma comunhão perfeita de amor e conhecimento na Santíssima Trindade, e Jesus veio ao mundo com a missão de nos revelar a face desse Deus Amor.
Mas Jesus não encerra Sua oração olhando apenas para o Pai; Ele Se volta para nós e faz o convite mais consolador da Escritura, chamando todos os que estão cansados e fatigados sob o peso dos seus fardos para que encontrem Nele o descanso. Para compreendermos a profundidade desse chamado, a Catena Áurea nos traz uma belíssima distinção feita por São Jerônimo. O santo doutor explica que Jesus chama de cansados aqueles que caminham sob o fardo pesado do pecado, e chama de fatigados ou carregados aqueles que estavam esmagados pelas pesadas opressões das tradições humanas e pelos preceitos da antiga Lei, que apontavam o erro, mas não davam a força da graça para vencê-lo. Hoje, nós também nos apresentamos assim: cansados pelos nossos próprios pecados e fatigados pelas exigências e amarguras do mundo.
E qual é o remédio que Jesus nos propõe? Uma troca divina, pedindo que tomemos sobre nós o Seu jugo e aprendamos Dele, que é manso e humilde de coração. Deixamos com Jesus o nosso fardo pesado do pecado and da autossuficiência, e assumimos o Seu jugo. E o que é o jugo de Jesus? É a Lei da Nova Aliança, a lei da liberdade e da caridade. Pode parecer paradoxal que para descansar precisemos assumir outro jugo, mas o jugo de Cristo é o amor. Carregar o jugo de Jesus significa tomar os nossos irmãos nos ombros, amar com o mesmo amor com que fomos amados, gastar a vida pelo bem do próximo. Santo Agostinho nos ensina, na Catena Áurea, que esse jugo é como as asas para os pássaros, que pesam, mas são exatamente o que os faz voar. O fardo de Cristo é leve porque é sustentado pela graça do Espírito Santo.
Meus irmãos, ser humilde ou ser soberbo é uma escolha diária nossa. Hoje, Jesus nos propõe essa troca libertadora. Deixemos no altar do Senhor as nossas amarguras, o nosso orgulho e os nossos pecados. Saiamos desta celebração com o coração renovado, dispostos a carregar o jugo suave da caridade. Sejamos mansos e humildes de coração, para que, vivendo na verdade de quem somos, encontremos Nele o verdadeiro descanso para as nossas almas. Amém.
Pe. Anderson Alves
5 de julho de 2026





