Queridos irmãos e irmãs,
Celebramos hoje o 32º Domingo do Tempo Comum. Em apenas duas semanas encerraremos o nosso ano litúrgico e, por essa razão, a Igreja nos convida nestes últimos domingos a contemplar as realidades últimas da nossa vida: a morte, o juízo e o destino eterno do homem — que pode ser o Céu ou o Inferno, sem esquecermos a realidade temporária do Purgatório, onde a misericórdia divina purifica a alma para que ela possa contemplar a face de Deus. A Liturgia quer que estejamos preparados; por isso nos apresenta as leituras de hoje.
A Palavra de Deus nos fala da Sabedoria cristã — que é o conhecimento amoroso de Deus, o sétimo dom do Espírito Santo — e, intimamente ligada a ela, a virtude cardinal da Prudência. Este é o grande tema de hoje.
O livro da Sabedoria nos ensina que ela é resplandecente, viçosa e facilmente contemplada por aqueles que a amam. Mais ainda: a Sabedoria se antecipa, dando-se a conhecer aos que a desejam. Quem por ela madruga não se cansará, pois a encontrará sentada à sua porta! E o texto arremata no versículo 15: “Meditar sobre a sabedoria é a perfeição da prudência; quem ficar acordado por causa dela, em breve viverá despreocupado”. Viverá despreocupado porque vencerá as lutas presentes! A prudência cristã nos faz olhar para o fim da nossa vida e escolher os meios adequados para alcançar o nosso destino eterno: o encontro com o Senhor. Como nos lembra São Paulo, todos nós nos apresentaremos diante do tribunal de Cristo, e Ele se manifestará a nós como Juiz. Mas pelo que seremos julgados? Pela fé que age pela caridade (Gl 5, 6). É isso o que contará! Não basta ter uma fé morta ou teórica, que professa verdades com os lábios, mas não as vive na prática.
Na segunda leitura, São Paulo nos fala da verdade consoladora da ressurreição: assim como Cristo morreu e ressuscitou, Deus trará de volta à vida os que adormeceram Nele. Para a primeira geração cristã, a morte era compreendida como um “sono”. Por isso, estar acordado significa estar vigilante e unido a Cristo; e o “despertar” é a própria ressurreição. Paulo nos revela que, ao som da trombeta do arcanjo, os mortos em Cristo ressuscitarão e serão levados com Ele ao Céu.
É exatamente sobre esse Juízo que o Evangelho de São Mateus (capítulo 25) nos lança. Todo o capítulo 25 nos prepara para o retorno glorioso de Cristo. No entanto, a parábola de hoje costuma ser mal compreendida por causa de traduções imprecisas.
O texto original não fala de “dez jovens imprevidentes e previdentes”. Jesus fala de dez virgens: cinco eram loucas (insensatas) e cinco eram prudentes.
A prudência é precisamente lembrar-se do fim e dispor dos meios para alcançá-lo.
Por que a figura de virgens? Os Padres da Igreja explicam sob dois ângulos profundos:
1. A alma do batizado: O Batismo purifica a alma, tornando-a pura e límpida como uma virgem. As cinco virgens prudentes representam os cristãos que guardam a fé e pensam no Juízo; as cinco loucas representam os batizados que vivem como se Deus não existisse, esquecendo-se da eternidade.
2. Os cinco sentidos: O número dez representa os cinco sentidos do corpo humano, que podem ser usados com dupla finalidade: ou prudente e puramente para a glória de Deus, ou loucamente para a satisfação do egoísmo.
Observemos os símbolos centrais da parábola:
As vasilhas: São a nossa alma, o nosso coração.
O óleo (azeite): É a graça de Deus, a presença do Espírito Santo na alma e a reta intenção.
A luz e o calor da lâmpada: É a caridade em ato. A fé acolhida no coração (óleo na vasilha) precisa ser acesa e se transformar em obras visíveis (“Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras”, Mt 5, 16). As virgens insensatas tinham a vasilha do Batismo, mas não tinham o óleo da caridade; viveram de aparências e só pensaram no momento presente.
O Evangelho diz que o noivo demorou, e todas cochilaram e dormiram. Esse sono é a morte física pela qual todos nós passaremos.
Mas, à meia-noite, ouve-se um grito: “O noivo está chegando! Ide ao seu encontro!” Por que a expressão “meia-noite” é tão fundamental? No Antigo Testamento, foi à meia-noite que o anjo passou e Deus libertou Israel da escravidão do Egito. Na Tradição da Igreja — como registram os antigos Padres, Lactâncio e São Jerônimo —, a Igreja mantinha a Vigília Pascal (Pernoctação) em jejum rigoroso durante toda a noite até o cantar do galo, por dois motivos: primeiro, porque foi na calada da noite que Cristo ressuscitou; segundo, porque os primeiros cristãos criam que Cristo retornaria glorioso na meia-noite da Vigília Pascal! A meia-noite é a hora da libertação e do retorno do Rei.
Ao soar o grito — que é a trombeta da ressurreição —, todas as virgens acordam para o Juízo. As loucas percebem que suas lâmpadas estão se apagando e pedem óleo às prudentes. Mas as prudentes respondem que não podem dar. Isso não é egoísmo: teologicamente, significa que no Juízo as virtudes e os méritos de uma alma não podem ser transferidos para outra. Cada um prestará contas da sua própria consciência. As insensatas tentam “comprar” óleo tarde demais. O tempo de adquirir o óleo da caridade e da conversão é agora, durante a vida terrena! Após a morte, a porta se fecha definitivamente.
Quando as virgens loucas batem à porta dizendo: “Senhor, Senhor, abre-nos!”, a resposta do Esposo é severa: “Em verdade vos digo: não vos conheço”. Ele não reconhece aqueles que praticaram a iniquidade e não frutificaram em caridade.
Por isso, o Evangelho termina com o mandamento decisivo de Jesus: “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora”.
Nenhum de nós sabe o dia ou a hora em que fecharemos os olhos neste mundo para nos apresentarmos diante do tribunal de Cristo. Mas uma coisa é certa: a cada dia, a cada minuto que passa, estamos mais perto desse encontro. Cristo nos pedirá contas do Amor. Tudo o que Ele nos exige no Juízo é exatamente o que Ele nos oferece gratuitamente hoje pela Sua graça.
Peçamos hoje a Maria Santíssima a graça da verdadeira prudência cristã. Que possamos abastecer diariamente as vasilhas do nosso coração com a oração, a recepção dos sacramentos e as obras de misericórdia, para que, quando o Esposo bradar no meio da noite, a nossa lâmpada esteja resplandecente com o fogo da fé e da caridade. Amém.





