“E vós, quem dizeis que Eu sou?” – Pe. Anderson Alves

Queridos irmãos e irmãs,

Neste domingo, a Liturgia nos convida a abrir o capítulo 16 do Evangelho de São Mateus. Se observarmos a arquitetura deste Evangelho, perceberemos que este capítulo está exatamente no seu centro. E isso não é um mero detalhe numérico. São Mateus, sendo judeu e escrevendo para judeus, conhecia bem a sensibilidade do seu povo: no pensamento semítico, o coração de uma obra — aquilo que está no meio — guarda a verdade mais importante. Este texto é central porque nele nos é revelada, de forma explícita e definitiva, a verdadeira identidade de Jesus.

Até este momento, o Senhor já havia chamado os Seus discípulos, proferido o Sermão da Montanha, operado grandes milagres e ensinado as parábolas do Reino. Agora, Ele conduz os Apóstolos para uma região afastada: Cesareia de Filipe, um território pagão, distante da multidão de Israel. Naquele lugar calmo, longe do ruído das opiniões públicas, Jesus faz duas perguntas que representam duas formas radicalmente diferentes de conhecê-Lo: uma forma externa e superficial, e outra profunda e transformadora.

O Filho do Homem e as opiniões do mundo

A primeira pergunta dirige-se à opinião geral: «Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?».

A expressão “Filho do Homem” é profunda nas Sagradas Escrituras. No plano mais simples, significa ser verdadeiramente homem, um descendente de Adão. No entanto, no livro do profeta Daniel, o “Filho do Homem” é uma figura misteriosa e celestial que virá sobre as nuvens no final dos tempos, ao lado do Ancião de Dias, para julgar a terra. Jesus usa esta expressão que é, ao mesmo tempo, simples e velada, para provocar os Seus discípulos a verem além das aparências.

Os Apóstolos respondem com o que escutam nas ruas: alguns dizem que Ele é João Batista que ressuscitou; outros, que é Elias, Jeremias ou um dos antigos profetas. Essas são as opiniões externas. Eram olhares humanos que admiravam Jesus, mas não conseguiam alcançar o Seu mistério. O nosso mundo atual está cheio desse tipo de conhecimento: muitos respeitam Jesus como um grande mestre de moral, um líder revolucionário ou um homem sábio. Mas tudo isso são apenas opiniões frias e distantes, que não salvam.

A revelação do Pai e a fé da Igreja

Por isso, Jesus volta-Se para o grupo e faz a segunda pergunta, direta e incisiva: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Ele não quer ouvir o que os outros dizem; Ele exige uma resposta pessoal do fundo do coração de cada discípulo.

Simão Pedro, tomando a palavra em nome de todos, dá a resposta exata: «Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo».

Notemos a beleza deste contraste: Jesus pergunta pelo Filho do Homem, e Pedro responde confessando o Filho do Deus vivo. Pedro reconhece que Aquele homem de carne e osso, que caminhava com eles, é ao mesmo tempo o Ungido prometido no Antigo Testamento e o próprio Deus encarnado. Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

A isso, o Senhor responde: «Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne nem o sangue que te revelaram isso, mas o meu Pai que está nos céus».

No original aramaico, a expressão “filho de Jonas” (Bar-Jonas) pode ser traduzida não apenas como o nome do pai terrestre de Simão, mas também como “filho da graça” ou “filho da pomba”. E o que é a pomba, senão o símbolo do Espírito Santo? Jesus está a dizer a Pedro: «Esta compreensão não veio da tua inteligência humana, mas da iluminação do Espírito Santo e da revelação do Pai». A fé autêntica é um dom sobrenatural: ela não é mera teoria, mas uma graça que nos coloca em relação viva e transformadora com Cristo.

A rocha, o poder das chaves e o segredo messiânico

A partir dessa confissão, Jesus declara: «Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja».

A fé de Pedro e a pessoa de Pedro tornam-se o fundamento da Igreja. Não é possível separar a fé em Cristo da comunhão com a Igreja. O próprio Papa Bento XVI nos recordava que quem tenta seguir a Cristo “por conta própria”, recusando a Igreja, corre o risco de seguir uma imagem falsa do Redentor. A Igreja está fundada sobre a rocha da fé apostólica e, por isso, «as portas do inferno nunca prevalecerão contra ela».

Jesus entrega a Pedro o “poder das chaves” — o poder de ligar e desligar —, que se traduz no ministério da Igreja de perdoar os pecados, reconciliar o homem com Deus e abrir as portas do Reino dos Céus através dos Sacramentos.

Por fim, o Evangelho nos diz que Jesus proibiu os discípulos de dizerem a quem quer que fosse que Ele era o Messias. Por que este silêncio? Em primeiro lugar, porque a Sua missão messiânica só seria plenamente compreendida após a Sua Morte e Ressurreição na Cruz. Em segundo lugar, porque o conhecimento de Cristo não é algo que se impõe por simples propaganda humana; é o próprio Espírito Santo quem precisa tocar e ilumina o coração de cada pessoa para que ela faça a sua própria experiência de fé.

Conclusão

Irmãos e irmãs, a liturgia de hoje faz a cada um de nós a mesma pergunta que ressoou em Cesareia de Filipe: «E tu, quem dizes que Eu sou?».

Que a nossa resposta não seja da boca para fora, nem um simples repetir de opiniões alheias. Peçamos ao Pai, pela graça do Espírito Santo, que renove no nosso coração uma fé viva, interior e profunda. Que possamos confessar com a nossa vida e as nossas obras: «Senhor Jesus, Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo, a rocha da minha vida e o meu único Salvador».

Assim seja. Amém.

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