Comemoração de todos os Fiéis Defuntos
Santa Missa Homilia de Dom Joel Portella Amado
Ginásio Municipal de Guapimirim, ao lado da Igreja Sant’Ana – Bananal
Segunda-feira, 2 de novembro de 2026
Nós sabemos que não apenas hoje, 2 de novembro, mas todo dia, na verdade, é dia de Finados. Porque saudade não tem calendário. A folhinha não segura a saudade.
Imagina se a saudade bate no coração e, de repente, você diz assim: “Espera um pouquinho, eu vou olhar aqui a folhinha para ver se hoje é dia de saudade.” Não é assim. A saudade se faz presente em nós a qualquer dia, a qualquer horário, em qualquer momento, em qualquer lugar.
Se me permitem falar algo de mim, minha mãe fazia um bolo muito gostoso e, até hoje, quando alguém me oferece aquele tipo de bolo, o que vocês acham que eu sinto? Não é saudade do bolo, não. Saudade da mãe. O bolo está ali.
O bolo vai ficar aqui, nessa vida. Por isso, cuidado quando ouvimos e, mais ainda, cuidado quando dizemos: “Olha, não chore, não, quando a morte chegar. Olha, não sinta saudade.”
Nós não somos pedra. Nós não somos madeira. Nós não somos granito, para ficarmos indiferentes à morte.
Não. Quando nós ouvimos a Palavra de Deus hoje, na primeira leitura, é Jó. (19,1.23-27a)
Um homem, por excelência, um homem religioso. Pois Jó expressa não apenas a sua perplexidade, a sua tristeza diante da morte, mas, por ser uma pessoa de fé, ele diz: “Eu sei que o meu Senhor está vivo.” Jó diz: “Eu sei que a morte não tem a última palavra.”
A mesma coisa no Evangelho de hoje (Jo 11,17-27). Quando as duas irmãs, Marta e Maria, e o seu irmão Lázaro — que eram amigos muito próximos de Jesus — aparecem, nós lembramos: Jesus chorou a morte de Lázaro. Elas também apresentam para Jesus a tristeza, apresentam para Jesus a esperança.
Por isso, se Jó, se Marta, se Maria expressam isso no coração, quem somos nós para fugir da saudade? A música brasileira diz assim: “A saudade mata a gente.” É verdade isso? Saudade faz sofrer ou não faz? Faz ou não faz, gente? Faz. Seria tão bom se não sentisse saudade? Mentira! A saudade é presente do Criador em nós.
É algo que o Criador colocou no nosso coração para, quando olharmos a morte, não termos muita coisa que explicar, que dizer, que fazer: deixar que a saudade venha ao nosso coração. A saudade é grito da vida diante da morte. Não nos apavoremos por ela.
Devemos nos apavorar quando não vem a saudade. Quando vem ou a indiferença ou, pior ainda, o remorso. Indiferença: morreu, está bom.
Remorso. Maltrata ou não maltrata o emorso? Meu Deus do céu! “Eu podia ter amado mais, eu podia ter perdoado mais, eu podia ter socorrido mais, eu podia ter feito tanta coisa.” A saudade leva para o céu.
O remorso pode levar para onde? Não escutei (Inferno). Pois é, vocês estão com medo, mas é isso mesmo. Sabe por quê? Porque, no Evangelho de hoje, Jesus vai dizer: “Eu sou a ressurreição e a vida (Jo 11,25).”
No outro texto do Evangelho, ele vai dizer: “Eu sou o caminho (Jo 14,6).” Lembram disso? “A verdade e a vida (Jo 14,6).” No fundo, essa coisa de lidar com saudade, com indiferença, com remorso, é Jesus que vai nos dizer como fazer a diferença. É ele que nos aponta.
E como é que ele nos aponta? Pelo mandamento que ele nos deixou. Eu começo, vocês acabam.
“Amar a Deus sobre todas as coisas e o teu próximo como a ti mesmo (Mt 22,37-39).
Esse é o segredo de, já nesta vida, a gente começar a vencer a morte onde ela mais maltrata, que é no coração. E, um dia, quando nós atravessarmos a porta da morte, a gente poder dizer assim — deve ser assim lá na eternidade:
“Senhor, eu que tanto te amei nesta vida, eu agora te contemplo. E, contigo, todas as pessoas que eu amei.
Senhor, tu que és o amor de Deus presente entre nós, ensina-me, nesta vida, a viver intensamente o mandamento do amor.”
Quando alguém morre e você chora de saudade, por quê? A saudade é o amor transformado quando a morte chega. Se houve amor, vai ter saudade.
Se tem saudade, é porque houve amor. Qual dos dois, portanto, precisa existir? É o amor. Se não existir esse amor a Deus e o amor ao próximo, fico vazio, fico desesperado. E permitam-me repetir:
Fica o remorso. Aí, solidão, depressão, tanta coisa. Se nós queremos ver quem morreu vivo diante de nós, nós temos que ter o pé no chão.
E dizer que a vida para Jesus não é como aquela que o Evangelho vai dizer de Lázaro. Ali foi um sinal; Lázaro morreu depois. Mas a vida eterna, quando nós atravessarmos a porta da morte, há de ser alguma coisa muito grande. O maior sinal que nós temos nesta vida é o sinal — permitam-me repetir — do amor a Deus e do amor ao próximo.
Já contei algumas vezes. É muito pessoal isso, mas, quando a minha mãe estava já no final da vida, já no CTI, e o médico dizendo: “De hoje não passa”, uma senhora que cuidou muito dela entrou na minha frente para visitá-la. E a minha mãe disse assim: “Olha, eu vou morrer. Não deixa meu filhinho sozinho.”
Eu tinha 39 anos, eu era padre. E ela pediu para aquela senhora: “Não deixa meu filhinho sozinho.”
Quando ela faleceu, eu fui cuidando um pouquinho das coisas do enterro. Essa senhora começou a ficar do meu lado, olhando assim para mim. Eu não entendia. Dizia assim: “Me deixa, deixa eu trabalhar.” E ela disse: “Não posso.”
“Mas por que não pode?”
“Porque a sua mãe me pediu: ‘Eu vou morrer, cuida do meu filho.’”
Ela ficou do meu lado que nem uma sombra. E foi assim até o cemitério.
Ali eu entendi aquilo que os livros ensinaram. A oração, é claro, nos fortalece. Quando nós pensamos na outra pessoa, abrindo mão de tudo que é nosso, aqui nós olhamos para o céu.
Aqui nós contemplamos o céu. Hoje, Dia de Finados, é 2 de novembro. Que dia foi ontem? Primeiro de novembro, normalmente, Dia de Todos os Santos.
Hoje é o dia seguinte. Porque os antigos, ao comemorarem Todos os Santos, diziam: “Esses, essas, cuja vida nós sabemos e conhecemos, estão vivos junto de Deus. E os outros?” A misericórdia de Deus cuida.
Deus encontra uma gota de amor onde aparentemente há apenas um tsunami de indiferença, de ódio, de maldade, de briga. Por isso, hoje, nós nos unimos em saudade. Nos unimos também em oração.
Para poder dizer a Jesus: “Senhor, só Tu mesmo. Só Tu tens palavras de vida eterna. Senhor, aonde nós vamos? Senhor, se não cumprirmos o mandamento do amor a Deus e do amor ao próximo…”
Eu termino com uma pergunta. Tem alguém aqui que está com saudade de alguém no coração? Vocês têm coragem de lembrar dessas pessoas? Eu vou ali para trás. Nós vamos rezar no mais profundo silêncio.
Deixem o barulho da rua fazer eco aqui dentro. Nós vamos agradecer a Deus por essas pessoas que passaram em nossas vidas e as marcaram, a ponto de hoje sentirmos saudade.
Se tiver alguém — e deve ter havido — que passou pela nossa vida, porém marcando de um modo negativo, né? “Senhor, dá-me forças para perdoar, porque eu também preciso de perdão.”












