A Consciência Cristã perante o Pragmatismo Eleitoral (Parte I) – Pe. Anderson Alves

Em períodos eleitorais, quando o debate político se intensifica e o país se prepara para escolher seus representantes, surge com frequência a tentação de avaliar a ação pública exclusivamente pela perspectiva do pragmatismo e do êxito partidário. Nessas circunstâncias, o discernimento ético corre o risco de ser soterrado pela justificativa da eficácia a qualquer custo, obscurecendo a nobreza e a verdadeira finalidade da própria política.

Para iluminar essa questão, vale examinar um caso clássico de teologia moral e ética social. Trata-se da trajetória de Jerônimo, um cidadão que, após colaborar eficazmente na vitória eleitoral de seu partido, assume um alto cargo num ministério democrático. Posteriormente, visando à disputa de uma vaga parlamentar, Jerônimo recebe de um influente líder partidário a quantia de cinquenta mil dólares proveniente de doações empresariais não contabilizadas no orçamento oficial — recursos de “caixa dois”. Jerônimo emprega integralmente essa verba na campanha e é eleito deputado.

Mais tarde, inquieto quanto à legitimidade moral de sua conduta, consulta o padre e moralista Antônio, a quem relata a situação. Jerônimo esclarece que as empresas doam em segredo com a evidente expectativa de obter favores futuros dos governantes e admite que, embora a prática seja ilegal, ela vigora generalizadamente, sendo praticada por todos os partidos. Ante a orientação do Pe. Antônio para que rejeite tais pressões e utilize apenas fundos oficiais transparentes, Jerônimo alega que a rigidez moral o forçaria a abandonar a vida pública, ao passo que a tolerância à prática vigente lhe permitiria manter o mandato e trabalhar pelo bem comum.

O parecer do Pe. Antônio conduz categoricamente o dilema de Jerônimo ao centro da reflexão ética: a questão não reside na mera tolerância de um mau hábito praticado por outros, mas na participação consciente em uma ação própria desordenada, que constitui um início de corrupção. Esse caso concreto obriga-nos a recordar os princípios essenciais que regem a autoridade civil, a participação dos cristãos na política e a avaliação moral do agir humano.

A autoridade política não constitui um bem privado, nem uma mercadoria ou um troféu de conquista pessoal ou partidária; trata‑se de uma responsabilidade institucional orientada exclusivamente ao bem comum. Este, por sua vez, compreende o conjunto das condições sociais que permitem a indivíduos, famílias e associações alcançar sua plena realização com dignidade, liberdade e justiça. Por essa razão, quem exerce a autoridade civil deve fazê‑lo com competência, transparência, respeito rigoroso às leis e independência diante de interesses particulares. Quanto mais elevado o cargo ocupado no Estado, maior é a exigência de conformidade com a legalidade e a moralidade, dada a amplitude dos efeitos de sua atuação sobre o bem comum.

A Doutrina Social da Igreja adverte que, quando o compromisso moral explícito é negligenciado nas instituições públicas, ocorre o progressivo enfraquecimento da convivência social e a consolidação daquilo que o Magistério denomina “estruturas de pecado”.

Santo Tomás de Aquino e a tradição clássica ensinam que a autoridade política atua analogamente como um administrador de bens alheios. O administrador não tem a faculdade de empregar os bens que lhe foram confiados para gratificar os seus benfeitores pessoais. Do mesmo modo, o legislador ou o governante não pode converter o mandato público recebido do povo numa dívida privada a ser quitada com grupos econômicos.

(Continua na próxima edição)

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