Homilia – Os Frutos da Vinha e o Tempo da Misericórdia – Pe. Anderson Alves

Queridos irmãos e irmãs, neste vigésimo sétimo domingo do tempo comum, continuamos a nossa caminhada pelo capítulo vinte e um do Evangelho de São Mateus. O Senhor nos apresenta hoje a segunda parábola de uma sequência que utiliza a emblemática imagem da vinha.

Na Bíblia e em todo o Antigo Testamento, a vinha representa o próprio Povo de Israel, escolhido por Deus, plantado em terra boa, protegido dos inimigos e cumulado com a Lei, os Sacerdotes e os Profetas. Deus deu tudo a esse povo para que produzisse bons frutos.

Para a Antiguidade e para o povo bíblico, o vinho representava aquilo que sai do ordinário: a água é o ordinário, mas o vinho representa a alegria que vem de Deus, o penhor da Sua graça. A uva alimenta no tempo da fome e o vinho alegra o coração dos homens. Israel foi escolhido para ser essa videira preparada para saciar e trazer a alegria da salvação não só para si, mas para todas as nações. Como ouvimos na primeira leitura, o profeta Isaías já lamentava que essa vinha, apesar de todo o cuidado, só produziu uvas azedas.

Na semana passada, ouvimos a primeira parábola: o pai que pede aos dois filhos para trabalharem na vinha. O primeiro disse não, mas se arrependeu e foi, representando os pagãos que, ao ouvirem a pregação de João Batista, se converteram. O segundo disse sim, mas não foi, representando as autoridades de Israel, que diziam guardar a Aliança, mas rejeitaram o apelo à conversão.

Hoje, Jesus dirige aos sumos sacerdotes e anciãos a segunda parábola, aprofundando ainda mais a história da salvação por meio de símbolos precisos.

Primeiro, a sebe ou cerca representa a proteção de Deus, a Lei de Moisés e a guarda dos anjos e bons pastores que isolavam o povo da idolatria dos povos pagãos.

Segundo, o lagar, onde as uvas são esmagadas, representa o altar de Israel e o verdadeiro culto a Deus. É a prefiguração de que o fruto da vinha exige o sacrifício.

Terceiro, a torre representa o Templo e, de modo especial, a Palavra de Deus e a Revelação. Quem está no alto da torre tem visão de alcance; a Palavra permitia aos profetas e vigias contemplarem de longe a vinda do Messias.

Quarto, o arrendamento e a viagem indicam que Deus entrega a vinha aos vinhateiros e ausenta-se. Os Padres da Igreja ensinam que isso representa a liberdade e a paciência de Deus. Ele não abandona o homem, mas concede-lhe o tempo da história para que, livremente, decida corresponder à Sua graça.

Quando chega o tempo da colheita, o proprietário envia os seus servos, que são os profetas, exigindo frutos de conversão, justiça e caridade. Como a história nos mostra, os líderes de Israel espancaram, mataram e apedrejaram esses servos.

Na Sua infinita paciência, o Pai envia o Seu próprio Filho Unigênito, dizendo que respeitariam o seu filho. Aqui, Jesus revela abertamente aos Seus ouvintes a Sua consciência filial: Ele não é apenas mais um profeta, Ele é o Herdeiro. E o que fazem os vinhateiros? Agarraram o Filho, lançaram-no fora da vinha e o mataram. É a profecia direta da Sua Paixão e Crucificação fora dos muros de Jerusalém.

Ao perguntar aos sumos sacerdotes o que o dono da vinha faria, eles mesmos pronunciam a própria sentença: mandará matar de modo violento esses perversos e arrendará a vinha a outros.

É então que Jesus cita o Salmo cento e dezoito: a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular. A pedra rejeitada pelos líderes torna-se o alicerce do Novo Templo, a Santa Igreja. A Pedra Angular junta as duas paredes do edifício: o povo vindo do judaísmo e o povo vindo da gentilidade, unidos num só Corpo em Cristo.

E aqui chegamos ao versículo que muitas vezes passa despercebido, mas que encerra a mensagem de forma grave e profunda: quem cair sobre esta pedra será despedaçado; e aquele sobre quem ela cair será esmagado.

Os Santos Padres nos ensinam a diferença entre essas duas imagens. Tropeçar e cair sobre a pedra significa viver hoje no pecado, rejeitando a Cristo e à Sua Palavra enquanto ainda estamos nesta vida. O homem se fere, se quebra, se despedaça por causa de sua obstinação. Por outro lado, a pedra cair sobre alguém refere-se ao Juízo Final. Quando Cristo voltar em Sua glória, a Pedra descerá do céu, e aqueles que permaneceram impenetráveis à Sua graça e misericórdia serão irremediavelmente esmagados pela justiça divina.

Deus nos dá hoje o tempo da misericórdia. O tempo da nossa vida é essa viagem do proprietário, onde temos a liberdade de produzir os frutos que Ele espera: a fé operante, a caridade sincera, a vida sacramental.

Não sejamos como os maus vinhateiros. Acolhamos o Filho de Deus, cultivemos a vinha que é a nossa alma e a nossa Igreja, e entreguemos ao Senhor o vinho bom da nossa conversão.

Que a Santa Eucaristia que celebramos, o verdadeiro fruto da Videira entregue na Cruz, nos dê a força necessária para sermos trabalhadores fiéis até o dia da Sua vinda. Amém.

Obrigado por ter lido este artigo. Se quiser se manter atualizado, inscreva no nosso canal do WhatsApp acessando aqui

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *