A reabertura da Igreja Matriz Nossa Senhora da Piedade, em Magé, foi marcada por uma reflexão sobre a relação entre a preservação do patrimônio histórico e a renovação da vida cristã. Durante a missa solene realizada na noite de terça-feira, 1º de setembro, o bispo diocesano, Dom Joel Portella Amado, afirmou que a restauração do templo, fechado por mais de uma década, não representa apenas a recuperação de um edifício de 276 anos, mas também um convite à restauração do coração de cada fiel.
Presidindo a celebração e a bênção da igreja, o bispo saudou os sacerdotes, autoridades civis e militares, fiéis de Magé, representantes de outras paróquias e todos os que acompanharam a cerimônia pelas redes sociais. De modo especial, agradeceu ao pároco, padre Leonardo Tassinari Resende, e à equipe responsável pelo processo de restauração.
“Uma saudação de modo especial e agradecida ao padre Leonardo Tassinari e à sua equipe, cujo trabalho dedicado, muitas vezes marcado pelo suor e pela preocupação, fez com que hoje nós pudéssemos estar aqui”, afirmou.
Fé e história caminham juntas
Em sua homilia, Dom Joel destacou que a celebração não deveria ser compreendida apenas como um ato cultural ou histórico. Segundo ele, a construção e a preservação de igrejas no Brasil estão profundamente ligadas à experiência de fé das comunidades.
“Nós hoje não estamos celebrando apenas a recuperação de algo histórico. Estamos celebrando um ato de fé que se concretiza numa história muito significativa e muito bonita”, disse.
O bispo recordou que, desde a formação das antigas povoações, a presença de uma igreja era considerada essencial. O templo representava não apenas um espaço de culto, mas também um sinal da presença de Deus no meio da comunidade.
“Os antigos ensinavam que, quando uma povoação começasse, ali deveria haver uma igreja. Isso é muito significativo, porque não é apenas um ato histórico, de governo ou administrativo. Pelo contrário, é uma proclamação profunda daquilo que todos nós precisamos reconhecer: o Senhor está no meio de nós”, explicou.
Ao refletir sobre a solidez da construção, Dom Joel chamou a atenção para as paredes largas, as pedras e a estrutura da Igreja Matriz. Para ele, os antigos construtores não pensavam somente no presente, mas desejavam deixar um testemunho para as futuras gerações.
“Eles queriam fazer uma igreja que permanecesse para as outras gerações. Ao modo deles e com os recursos que tinham, construíram este templo com o sonho de dizer às novas gerações: aquilo que nós experimentamos, experimentem vocês também”, afirmou.
Um sinal visível da presença de Deus
O bispo também ressaltou o significado das torres e dos sinos presentes nas igrejas antigas. Para ele, esses elementos tinham a missão de ser vistos e ouvidos em meio às dificuldades da vida, recordando a todos que a casa de Deus estava presente na comunidade.
“Em meio a toda a confusão da vida, eu poderia levantar o olhar e ver, em algum lugar de destaque, a casa de Deus. Ali está o sinal vivo daquele que está no meio de nós”, refletiu.
Dom Joel explicou que, com o passar do tempo, toda construção necessita de cuidados e restauração. No entanto, o trabalho realizado na Igreja Matriz deve conduzir a uma reflexão espiritual mais profunda.
“Cuidar é também restaurar, é recuperar, é tirar a poeira. Por isso, restaurar a igreja de pedra é restaurar também a igreja gente”, afirmou.
Segundo o bispo, assim como a restauração recuperou cores, pinturas e elementos originais do templo, cada pessoa também é chamada a permitir que Deus retire de sua vida tudo aquilo que impede o reconhecimento de sua presença.
“Senhor, eu te peço: nesta casa, tira de mim a poeira do pecado; tira de mim aquilo que me impede de perceber que estás presente no meio de nós”, rezou.
A igreja como espaço de acolhimento
Dom Joel destacou ainda que a Igreja Matriz Nossa Senhora da Piedade não deve ser vista apenas como um museu ou uma obra de arte sacra. Embora reconheça seu valor histórico e artístico, o bispo enfatizou que a principal missão do templo é acolher o povo e conduzi-lo ao encontro com Deus.
“Passar por aquela porta e chegar a esta igreja não é apenas visitar um museu, que por si já é belo e uma aula de arte religiosa. É mais do que isso: é encontrar aqui esse Deus que já nos encontrou muito antes”, afirmou.
A proximidade do antigo cemitério com a igreja também foi apresentada pelo bispo como um sinal da fé cristã na ressurreição. Segundo ele, a disposição dos antigos espaços expressava o desejo de permanecer perto da casa de Deus mesmo após a morte.
“Esse Deus, que transforma a morte em vida porque Jesus ressuscitou, é aquele que abre o coração, assim como se abriram as portas desta igreja”, explicou.
Nossa Senhora da Piedade e a esperança cristã
Ao falar sobre a padroeira da comunidade, Dom Joel meditou sobre a imagem de Nossa Senhora da Piedade, que contempla o sofrimento de Maria ao acolher nos braços o corpo de Jesus após a crucificação.
O bispo ressaltou que a piedade expressa a dor diante do sofrimento e da maldade, mas não termina no desespero. A fé cristã aponta para a ressurreição e para a ação de Deus, que levanta e fortalece aqueles que enfrentam momentos difíceis.
“Se a vida é dura, difícil e pesada, muitas vezes o que nos resta é dizer, do fundo do coração: ‘Piedade, meu Deus’. Digamos isso quando for necessário, mas saibamos que, muito antes de pedirmos piedade, o Deus que está no meio de nós já olhava para cada um”, afirmou.
Para Dom Joel, a experiência de Maria recorda que Deus não abandona seus filhos. Assim como levantou a Virgem Maria e a fez participar da Igreja nascente, Deus também restaura e ergue cada pessoa.
“Ele também nos ergue, ele também nos levanta, ele também nos restaura e nos conserva”, declarou.
Gratidão e compromisso
Ao concluir a homilia, o bispo expressou sua emoção e agradeceu a todos os que contribuíram para a reabertura do templo. Também recordou que a inauguração não encerra o compromisso com a preservação da igreja, mas inaugura uma nova etapa de cuidado e responsabilidade.
“É um momento de alegria e de agradecer a Deus por tudo o que aqui se fez e se faz. É momento de ter responsabilidade para manter a igreja, conservar o que existe e completar aquilo que ainda for necessário”, afirmou.
Dom Joel parabenizou o padre Leonardo, a equipe envolvida no trabalho e toda a comunidade de Magé. Ao finalizar, recordou que cada fiel é parte da história da Igreja Matriz e da missão de mantê-la como casa de oração.
“Cada um de nós pode dizer: eu sou parte de tudo isso que está aqui, porque o Senhor está no meio de nós. O Senhor me ama, me restaura, me ergue e me conserva”, concluiu.
A reabertura da Igreja Matriz Nossa Senhora da Piedade marca, assim, o retorno de um dos principais espaços de fé de Magé à vida da comunidade. Mais do que um templo restaurado, a igreja volta a ser lugar de celebração da Eucaristia, administração dos sacramentos, memória das gerações e anúncio permanente da presença de Deus entre o seu povo.










