O Frei Luis Henrique Nascimento Lima, OFMConv., que atua na Diocese de Petrópolis como um dos frades conventuais da comunidade, teve, entre os meses de fevereiro e março, a oportunidade de exercer seu ministério na cidade de Assis, durante a exposição dos restos mortais de São Francisco de Assis.
A seguir o relato do Frei Luis Henrique sobre esta experiência:
Experiência em Assis: O retorno as Fontes
“Salve, Pai santo, luz da pátria, modelo dos Menores, espelho da virtude, caminho da retidão, norma dos costumes; conduzi-nos do exílio da carne ao reino dos céus. Fazei crescer, ó Pai Nosso, São Francisco, esta vinha que vossa mão plantou.”
Entre os dias 22 de fevereiro e 22 de março de 2026, tive a graça de viver uma das experiências mais profundas da minha vida vocacional na cidade de Assis, por ocasião da exposição dos restos mortais de São Francisco de Assis, dentro do Ano Franciscano proclamado pelo Papa Leão XIV. O tema que nos acompanhou ao longo deste tempo foi iluminador: “Se o grão de trigo caído na terra não morrer, fica só; mas, se morrer, produz muito fruto” (Jo 12,24).
Essa Palavra ecoou constantemente em nosso coração, ajudando-nos a compreender que a vida de nosso pai Seráfico continua a gerar frutos abundantes mesmo após 800 anos de sua Páscoa.
Fomos quatro frades Conventuais brasileiros — frei Luis Henrique Nascimento Lima, frei Fábio Soares, frei Ricardo Elvis e frei Marcelo Borges — solicitados por nossa Ordem para servir e acompanhar os peregrinos vindos de diversas partes do mundo, especialmente os de língua portuguesa.
Nossa missão era simples e, ao mesmo tempo, profundamente significativa: acolher, orientar e ajudar cada peregrino a fazer uma verdadeira experiência de fé diante daquele que, em 1226, abraçou com serenidade a irmã morte, selando sua vida na perfeita conformidade com Cristo.
Por muitos séculos, o local exato onde se encontrava o corpo de São Francisco permaneceu desconhecido, embora se soubesse que estava na basílica a ele dedicada, para onde fora transladado em 1230. Somente em 1818, após longas e discretas escavações sob a basílica inferior, seus restos mortais foram reencontrados, tendo sido ocultados para protegê-los de possíveis profanações.
Agora, após oito séculos, a Igreja e a Ordem Franciscana Conventual proporcionaram ao mundo a oportunidade de contemplar esse sinal tão concreto de uma vida entregue totalmente a Deus.
No dia 21 de fevereiro, participamos de um momento único e reservado: a retirada dos restos mortais da tumba, na cripta da basílica. Em profundo silêncio e oração, mais de cem frades de diferentes nações, juntamente com o administrador apostólico de Assis, Dom Domenico Sorrentino e nosso Postulador Geral Frei Valdo Nogueira, acompanharam esse gesto carregado de reverência.
Quando me aproximei da teca que guardava o corpo de São Francisco, fui tomado por uma emoção indescritível. Uma única certeza habitava meu coração: quantos frades, ao longo desses 800 anos, desejaram estar ali! E, sem qualquer mérito, eu recebia essa graça. Nesse instante, apresentei a Deus toda a nossa Ordem, nossos confrades, as irmãs Clarissas, os membros da OFS, os formandos, as famílias, comunidades, paróquias e dioceses que nós frades vivemos e servimos.
Durante todo o mês, nossa rotina foi marcada pela oração e pelo serviço. Diariamente, rezávamos as Laudes e o Ofício das Leituras diante dos restos mortais, enquanto na basílica superior eram celebradas inúmeras missas. Também participávamos das Vésperas com os voluntários e nos dedicávamos ao atendimento das confissões, à distribuição da Eucaristia e à acolhida dos peregrinos.
Estima-se que mais de 350 mil pessoas passaram por Assis nesse período. Um dos sinais mais tocantes foi a grande procura pelo Sacramento da Reconciliação. Ali, compreendi que um dos maiores milagres de Assis continua sendo a conversão sincera dos corações.
Outro aspecto marcante foi a convivência com mais de 400 voluntários de diferentes países, unidos pelo mesmo espírito de fé e serviço. Recebemos também frades das diversas famílias franciscanas, com a presença de seus Ministros Gerais, além de bispos, arcebispos e cardeais, tornando ainda mais visível a beleza e a universalidade da Igreja.
No dia 22 de março, às 21h30, vivemos o momento da reposição dos restos mortais na tumba. Mais uma vez reunidos na cripta, fomos envolvidos por um clima de profunda emoção e recolhimento. Muitos frades choravam silenciosamente, conscientes da grandeza daquele instante. Aproximamo-nos pela última vez, tocamos a teca, agradecemos e entregamos a Deus tudo o que vivemos.
Ao concluir essa experiência, só posso elevar um profundo louvor e gratidão a Deus: pela vida, pela vocação franciscana conventual e por essa graça tão singular. Levo comigo a certeza de que, assim como o grão de trigo que morre para produzir fruto, também somos chamados a nos entregar totalmente, para que nossa vida, à semelhança de São Francisco, continue a gerar paz, bem e esperança para o mundo.
Frei Luis Henrique Nascimento Lima, OFMConv.










