Se Deus existe, por que há tanto mal no mundo? – Pe. Anderson Alves

No mundo atual, muitos não aceitam a Deus por não entenderem como pode haver um Deus bom no Céu e o mal sobre a terra. A argumentação, às vezes confusa, é a seguinte: se há o mal, ou Deus não é bom ou não é onipotente: a) se fosse bom, não pode vencê-lo, visto haver o mal; b) se pode vencer o mal e não o faz, então não pode ser bom. Ou seja, ou Deus quer destruir o mal e não o pode; ou pode e não o quer. No primeiro caso, não seria onipotente. No segundo, não seria bom. Essa era uma crítica de alguns filósofos gregos à religião, e assim eles justificavam o seu ateísmo.

A fé judaica e cristã, desde a Antiguidade, se depara com esse tipo de argumentação. Os filósofos e teólogos cristãos procuram dar uma resposta ao tema do mal desde o início da Igreja. O Catecismo da Igreja Católica diz que o conjunto da fé cristã é uma resposta a essa interrogação. Essa fé deve ser frequentemente assimilada, pensada, refletida. E isso não é fácil, embora seja extremamente necessário.

Santo Agostinho e outros autores deram uma resposta muito sólida a esse tema. Essencialmente disseram: o mal não é um ser, mas a ausência de ser; é uma deficiência, uma carência de uma perfeição que deveria haver em algo bom. Dessa forma, o mal não existe em si, não é uma substância ou um ser, mas só pode existir em seres bons; o mal, chamado então de “físico” ou “ontológico”, são as imperfeições, as faltas de determinado ser, como a cegueira, a enfermidade, a doença. Essas imperfeições são sempre relativas, ou seja, só existem em um ser bom, e não pode haver nada essencialmente mau. Um ser totalmente mau teria ser, e por isso não seria totalmente mau. O ser, enquanto tal, é bom; o mal é a ausência e a negação do ser. O mal seria como as trevas, que não existem, mas são ausência de luz; ou como o frio, que é ausência de calor.

A fé cristã diz ainda que Deus não criou nada mau. Tudo o que Deus fez é bom. Deus é bom e onipotente. Ele criou somente realidades boas. Ele não criou seres imperfeitos ou defeituosos; nem mesmo criou a morte. Deus é onipotente, bom e criador do “Céu e da terra”, de “todas as coisas visíveis e invisíveis”. Essas expressões se referem às criaturas espirituais – os anjos – e às realidades materiais. Como síntese da criação temos o homem, que participa das realidades imateriais pela sua alma e das materiais pelo seu corpo. O homem é um resumo da criação, é um microcosmo. A sua alma é como uma fronteira, ou a linha do horizonte, que une o céu e a terra, pois é espiritual e forma de um corpo. A ciência atual diz que nosso corpo é composto por átomos de estrelas desaparecidas há milhares de anos. A Bíblia diz que o nosso corpo foi criado do pó da terra. A ciência atual diz que somos “poeira de estrelas”. E isso é verdade: somos poeira estelar animada por uma alma espiritual. Nada há de tão próximo à poesia quanto a ciência.

O mal entrou no mundo com a liberdade dos seres espirituais. Deus criou os seres espirituais bons, tanto os homens quanto os anjos. Ele os criou para a felicidade, para a comunhão consigo e entre eles. Os homens foram criados “para a glória de Deus”, diziam os primeiros cristãos, que é o mesmo que dizer que Deus os criou para a felicidade eterna. “A glória de Deus é o homem vivente. A vida do homem é a visão de Deus” (Santo Irineu de Lião). A glória de Deus e a felicidade dos homens coincidem.

O mal entra no mundo na forma de ato moral. O primeiro mal cometido foi o pecado de Lúcifer, um anjo de luz, criado bom por Deus. Ele foi colocado, como todas as substâncias espirituais, diante de uma escolha: viver em comunhão com Deus ou viver sem Ele. Ele escolheu viver apenas para si. Isso foi o seu pecado, a sua soberba. Ele foi a primeira criatura a dizer “Non serviam” (“não servirei”) a Deus e, com ele, uma terça parte dos anjos. Depois ele tentou os nossos primeiros pais, a quem chamamos simbolicamente de Adão (feito da Terra) e Eva (mãe dos viventes). Ele conseguiu convencê-los a viver de forma autônoma, independente de Deus, como a origem do próprio conhecimento (“conhecedores do bem e do mal”). Assim o mal entra no mundo humano.

O mal moral afetou a toda criação e se converteu então em mal físico. O pecado dos nossos primeiros pais destruiu a sua amizade com Deus. Assim entrou a morte e os males no mundo: as doenças, fraquezas, imperfeições, cansaço etc. Ao se separar de Deus, o homem virou uma ameaça a si próprio. O medo à violência passou a reinar e é como se o homem se tornasse então um “lobo do próprio homem” (Hobbes). Santo Agostinho disse que o homem é um ser social por natureza e antissocial por vício.

Os anjos que se separaram de Deus são os chamados “demônios”. São os inimigos de Deus e, devido à sua soberba, são hostis aos homens, pois querem continuar separando os homens de Deus. Eles não vivem na amizade com Deus. Para falar da situação de rebelião, o cristianismo diz que eles vivem no “Inferno”, ou seja, numa situação “inferior” à que deveriam, à amizade com Deus. O inferno é a situação de separação, de revolta, de ódio para com Deus. A sua origem é a soberba e a inveja, que são os pecados plenamente espirituais. São a causa de todos os pecados. São Bernardo de Claraval disse: “Um só pensamento de soberba transformou o melhor anjo de Deus no pior dos demônios”.

Continua.

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