Saciar a Sede da Mulher Samaritana! – Dom José Maria Pereira

A Quaresma é para nós um tempo forte de conversão e renovação em preparação à PÁSCOA.

Nos textos bíblicos, deste terceiro Domingo da Quaresma, encontram-se úteis motivos de meditação, muito indicados para esta renovação espiritual. Através do símbolo da água, que encontramos na primeira leitura (Ex 17, 3-7) e no trecho evangélico da Samaritana (Jo 4, 5 – 42), a Palavra de Deus transmite-nos uma mensagem sempre viva e atual: Deus tem sede da nossa fé e quer que encontremos n’Ele a fonte da nossa autêntica felicidade. O risco de cada crente é o de praticar uma religiosidade não autêntica, de não procurar, em Deus, a resposta às expectativas mais íntimas do coração, aliás, de usar Deus como se estivesse ao serviço dos nossos desejos e projetos.

No texto de Ex 17, 3-7, o povo hebreu, que sofre no deserto por falta de água, e, tomado pelo desencorajamento, como noutras circunstâncias, lamenta-se e reage de modo violento. Chega a revoltar-se contra Moisés, chega quase a revoltar-se contra Deus. Narra o autor sagrado: “Provocaram o Senhor, dizendo: ‘O Senhor está no meio de nós, ou não’?” (Ex 17, 7).  O povo exige que Deus venha ao encontro das próprias expectativas e exigências, em vez de se abandonar confiante nas suas mãos, e, na prova, perde a confiança n’Ele. Quantas vezes isto acontece, também, na nossa vida; em quantas circunstâncias, em vez de nos conformarmos docilmente com a Vontade divina, gostaríamos que Deus realizasse os nossos desígnios e satisfizesse todas as nossas expectativas! Em quantas ocasiões a nossa fé se manifesta frágil, a nossa confiança fraca, a nossa religiosidade contaminada por elementos mágicos e meramente terrenos! Neste tempo quaresmal, enquanto a Igreja nos convida a percorrer um itinerário de verdadeira conversão, acolhamos com humilde docilidade a admoestação do Salmo 94(95): ”Não fecheis os corações como em Meriba, como em Massa, no deserto, aquele dia, em que outrora vossos pais me provocaram, apesar de terem visto as minhas obras”. O Simbolismo da água volta com grande eloquência na célebre página evangélica que narra o encontro de Jesus com a Samaritana, em Sicar, junto do poço de Jacó.

Em Rm 5, 1-2. 5-8, São Paulo faz uma releitura significativa: A rocha é Cristo. Do Cristo morto e ressuscitado brota o Espírito, como rio de água viva. “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5, 5).

No Evangelho (Jo 4, 5-42), Jesus pede e oferece ÁGUA à Samaritana. A sede de Cristo é uma porta de acesso ao Mistério de Deus, que se fez sedento para nos aplacar a sede, assim como se fez pobre para nos enriquecer (2Cor 8, 9). Sim, Deus tem sede da nossa fé e do nosso amor. Como um pai bom e misericordioso, deseja para nós todo o bem possível e esse bem é Ele mesmo. A mulher de Samaria, por sua vez, representa a insatisfação existencial de quem não encontrou o que procura: teve “cinco maridos” e agora convive com outro homem; o seu ir e voltar do poço, para buscar água, exprime uma vivência repetitiva e resignada. No entanto, tudo mudou para ela, naquele dia, graças ao encontro com o Senhor Jesus, que a deixou abalada, a ponto de abandonar o cântaro de água e correr para contar às pessoas da aldeia: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Será que Ele não é o Cristo?”  (Jo 4, 28 – 29).

O trecho do Evangelho, que fala sobre a Samaritana, é encantador! A fina psicologia de Jesus manifesta-se, a cada passo. Jesus, cansado da caminhada, sentou-se junto ao poço. Quando se aproximava a mulher, Jesus pede-lhe: “Dá-me de beber”. E estabelece-se o diálogo. Jesus apresenta-se como água viva. Quem beber dessa água, nunca mais terá sede. É a água que jorra para a vida eterna. Quando a mulher lhe pede dessa água, para que não mais precise buscá-la no poço, Jesus penetra mais fundo, na alma dessa mulher: “Vai, chama o teu marido e volta aqui”. Ela, por sua vez, responde que não tem marido. A mulher faz um ato de fé: ”Vejo que és profeta”. Aqui está já o começo de sua conversão.

Jesus valoriza-a, louvando sua sinceridade, e, a partir dessa sua fé incipiente, revela-lhe que é o Messias. E a Samaritana abandona o “Velho balde” e corre para a cidade, para anunciar ao povo a verdade que tinha encontrado.

Essa mulher desprezada, após escutar Jesus como Discípula, torna-se MISSIONÁRIA de Cristo, antes mesmo dos apóstolos…

Jesus veio para salvar o que estava perdido! Não poupará nenhum esforço para o conseguir. Eram proverbiais os ódios entre Judeus e Samaritanos; contudo, Jesus Cristo não exclui ninguém, mas o Seu amor estende-se a todas as almas, e, por todas, e cada uma, vai derramar o Seu sangue.

Jesus inicia o diálogo com essa mulher samaritana mediante um pedido: “Dá-me de beber”: Jesus pede de beber não só pela sede física, mas porque tinha sede da salvação dos homens, por amor a eles. Estando cravado na Cruz, voltou a dizer: “Tenho sede” (Jo 19,28).

No poço de Jacó, encontram-se duas “sedes”: a sede de Jesus e a sede da mulher samaritana. A mulher busca saciar a necessidade básica de água. Já Jesus, como dizia Santa Teresinha, “ao dizer tenho sede, era o amor que o Senhor requisitava, tinha sede de amor. ” Esta sede, como o cansaço, tem uma base física. Mas Jesus, como diz Santo Agostinho, “Aquele que pedia de beber, tinha sede da fé daquela mulher”, assim como da fé de todos nós. A sede de Jesus sacia a sede da mulher.  Aos poucos, a samaritana desiste de sua busca imediata e passa a procurar uma água viva. Deus Pai enviou-O para saciar a nossa sede de vida eterna, concedendo-nos o seu amor, mas para nos oferecer esta dádiva, Jesus pede-nos a nossa fé. De fato, a um certo ponto, é a própria mulher que pede água a Jesus (Jo 4, 15), manifestando, assim, que em cada pessoa há uma necessidade inata de Deus e da salvação que só Ele pode satisfazer. Uma sede de infinito que só pode ser saciada com a água que Jesus oferece, a água viva do Espírito. Ouviremos estas palavras no Prefácio da Missa: Jesus “pediu à mulher da Samaria água para beber, para lhe proporcionar o grande dom da fé, e desta fé teve uma sede tão ardente que acendeu nela a chama do amor de Deus”. Santo Agostinho aprofunda sua reflexão, dizendo: “Deus tem sede da nossa sede d’Ele, isto é, deseja ser desejado! Quanto mais o ser humano se afasta de Deus tanto mais Ele o segue com o seu amor misericordioso”. A liturgia estimula-nos, hoje, tendo em consideração, também, o tempo quaresmal que estamos vivendo, a rever a nossa relação com Jesus, a procurar o seu rosto sem nos cansarmos.

É profundo o diálogo de Jesus com a Samaritana! “Jesus pede de beber e promete dar de beber. Apresenta-se como necessitado que espera receber, mas possui em abundância para saciar os outros. Se tu conhecesses o dom de Deus, diz Ele. O dom de Deus é o Espírito Santo. Que água lhe daria Ele, senão aquela da qual está escrito: em vós está a fonte da vida? (Sl 35, 10). Pois, como podem ter sede os que vêm saciar-se na abundância de vossa morada? (Sl 35, 9)

O Senhor prometia à mulher um alimento forte, prometia saciá-la com o Espírito Santo. Mas ela ainda não compreendia e disse-Lhe: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la” (Santo Agostinho). Também nós, já batizados, mas, sempre a caminho para nos tornarmos verdadeiros cristãos, encontramos, neste texto evangélico sobre a Samaritana, um estímulo para redescobrir a importância e o sentido da nossa vida cristã, o verdadeiro desejo que vive em nós. Jesus quer levar-nos, como fez com a Samaritana, a professar a nossa fé n’Ele com força para que possamos depois anunciar e testemunhar aos nossos irmãos a alegria do encontro com Ele e as maravilhas que o seu amor realiza na nossa existência. A fé nasce do encontro com Jesus, reconhecido e acolhido como o Revelador definitivo e o Salvador. Quando o Senhor conquista o coração da Samaritana, a sua existência transforma-se e ela vai imediatamente sem hesitações comunicar a boa nova ao seu povo (Jo 4, 29).

A transformação que a graça opera na Samaritana é maravilhosa! O pensamento dessa mulher centra-se, agora, somente, em Jesus e, esquecendo-se do motivo que a tinha levado ao poço, deixa o seu cântaro e dirige-se à aldeia para comunicar a sua descoberta! “Os Apóstolos, quando foram chamados, deixaram as redes, a Samaritana deixa o seu cântaro e anuncia o Evangelho, e não chama somente um, mas põe em alvoroço toda a cidade” (Hom. sobre São João, 33). Toda conversão autêntica projeta-se, necessariamente, para os outros, num desejo de os tornar participantes da alegria de se ter encontrado com Jesus.

Santo Efrém ensina: “Nosso Senhor veio à fonte, como um caçador, ele pediu água para podê-la dar; pediu de beber, como alguém sedento, para ter oportunidade de saciar a sua sede. Fez uma pergunta à samaritana, para lhe poder ensinar e, por sua vez, ela lhe fez uma pergunta. Embora rico, nosso Senhor não teve vergonha de mendigar, como um indigente, para ensinar o indigente a pedir. E dominando o pudor, não temeu falar a uma mulher sozinha, para ensinar-me que aquele que está na verdade não pode ser perturbado.”

Que a Caminhada quaresmal nos ajude a voltar ao POÇO, lugar de ENCONTRO.

Os homens continuam, ainda hoje, procurando um Poço, para saciar sua sede profunda de vida. Só Cristo mata definitivamente a sede de vida e felicidade do homem.

Como discípulos e missionários possamos, como a Samaritana, anunciar a todos o Cristo, nossa vida e felicidade…

Façamos nosso o pedido da Samaritana: “Senhor, dá-nos sempre dessa água!”

Cada um de nós pode identificar-se com a mulher samaritana: Jesus espera-nos, especialmente, neste tempo de Quaresma, para falar ao nosso, ao meu coração. Permaneçamos um momento em silêncio, no nosso quarto, ou numa Igreja, ou num lugar afastado. Ouçamos a sua voz que nos diz: “Se conhecesses o dom de Deus…”. A Virgem Maria ajude-nos a não faltar a este encontro, do qual depende a nossa verdadeira felicidade.

Vamos ao poço, junto com a samaritana, para encontrar a Fonte da água viva: Jesus Cristo, Filho de Deus. Em comunhão com a Igreja no Brasil, que vive essa Campanha da Fraternidade, voltamos o nosso olhar cheio de esperança para a realidade e para a necessidade de moradia digna a todas as pessoas.

Abramos o coração à escuta confiante da Palavra de Deus para encontrar, como a Samaritana, Jesus que nos revela o seu amor e nos diz: “Sou Eu, que estou falando contigo” (Jo 4, 26). Que nos traga este dom, Maria, primeira e perfeita discípula do Verbo feito carne.

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