Durante a Quaresma, revivemos os quarenta dias do Senhor no deserto. É tempo de renovação interior, de luta espiritual, para progredirmos nos caminhos do Senhor. Ele quer dar um novo impulso, um salto de qualidade na nossa vida de cristãos. Um bom lema quaresmal pode ser: “criai em mim um coração que seja puro, dai-me de novo um espírito decidido” (Salmo 50).
Na sua Mensagem para a Quaresma 2026, disse o santo Padre, o Papa Leão XlV: “A Quaresma é o tempo em que a Igreja, com solicitude maternal, nos convida a recolocar o mistério de Deus no centro da nossa vida, para que a nossa fé ganhe novo impulso e o coração não se perca entre as inquietações e as distrações do quotidiano.
Todo o caminho de conversão começa quando nos deixamos alcançar pela Palavra e a acolhemos com docilidade de espírito. Existe, portanto, um vínculo entre o dom da Palavra de Deus, a hospitalidade que lhe oferecemos e a transformação que ela realiza. Por isso, o itinerário quaresmal torna-se uma ocasião propícia para dar ouvidos à voz do Senhor e renovar a decisão de seguir Cristo, percorrendo com Ele o caminho que sobe a Jerusalém, onde se realiza o mistério da sua Paixão, Morte e Ressurreição”.
Vale a pena ler a Mensagem do Papa Leão XlV, na íntegra. Disse o Papa: “Este ano gostaria de chamar a atenção, em primeiro lugar, para a importância de dar lugar à Palavra através da escuta, pois a disponibilidade para escutar é o primeiro sinal com que se manifesta o desejo de entrar em relação com o outro”. E, continua a mensagem, indicando três pontos para bem vivermos a Quaresma como tempo de conversão: Escutar; Jejuar; Juntos (a Quaresma realça a dimensão comunitária da escuta da Palavra e da prática do jejum).
Na Quarta-feira passada, com o jejum e com o rito das Cinzas, entramos na Quarema. Mas o que significa “entrar na Quaresma”? Significa começar um tempo de compromisso particular no combate espiritual que nos opõe ao mal presente no mundo, em cada um de nós e à nossa volta. Significa enfrentar o mal e dispor-se a lutar contra os seus efeitos, sobretudo contra as suas causas, até à causa última, que é Satanás. Significa, não descarregar o problema do mal sobre os outros, sobre a sociedade ou sobre Deus, mas reconhecer as próprias responsabilidades e ocupar-se delas conscientemente. A este propósito ressoa muito urgente, para nós cristãos, o convite de Jesus a assumir, cada um, a sua “Cruz” e a segui-Lo com humildade e confiança (Mt 16, 24). A “Cruz”, por mais pesada que seja, não é sinônimo de infelicidade, de desgraça a ser evitada o mais possível, mas oportunidade para se pôr no seguimento de Jesus e assim adquirir força na luta contra o pecado e o mal. Portanto, entrar na Quaresma, significa renovar a decisão pessoal e comunitária de enfrentar o mal, junto com Cristo. O caminho da Cruz é, de fato, o único que leva à vitória do amor sobre o ódio, da partilha sobre o egoísmo, da paz sobre a violência. Vista assim, a Quaresma é, verdadeiramente, uma ocasião de grande empenho ascético e espiritual, fundado na Graça de Cristo. Em síntese, trata-se de seguir Jesus que se dirige, decididamente, rumo à Cruz, auge da sua missão de salvação.
O Evangelho (Mt 4, 1 – 11), do primeiro Domingo da Quaresma, apresenta-nos, todos os anos, o mistério do jejum de Jesus, no deserto, seguido das tentações; mostra, também, que Jesus resistiu e venceu. Ensina como podemos vencer as tentações e tirar proveito das que iremos passar. Tentações, todos sofremos, até nos altos postos eclesiásticos. Deus respeita as escolhas humanas, mas age providencialmente.
Quaresma é para nós um tempo forte de conversão e renovação em preparação à Páscoa. É tempo de rasgar o coração e voltar ao Senhor. Tempo de retomar o caminho e de se abrir à graça do Senhor, que nos ama e nos socorre. É um tempo sagrado para aprofundar o Plano de Deus e rever a nossa vida cristã. E nós somos convidados pelo Espírito ao DESERTO da Quaresma para nos fortalecer nas TENTAÇÕES, que, frequentemente, tentam afastar-nos dos planos de Deus.
A Quaresma comemora os quarenta dias que Jesus passou no deserto, como preparação para esses anos de pregação que culminam na CRUZ e na glória da Páscoa. Quarenta dias de oração e de penitência que, ao findarem, desembocam na cena que Mateus narra no cap. 4, 1-11. É uma cena cheia de mistério, que o homem, em vão, pretende entender – Deus que se submete à tentação, que deixa agir o Maligno –, mas que pode ser meditada se pedirmos ao Senhor que nos faça compreender a lição que encerra.
É a primeira vez que o demônio intervém na vida de Jesus, e faz isso abertamente. Põe à prova Nosso Senhor; talvez, queira averiguar se chegou a hora do Messias. Jesus deixa-o agir para dar-nos exemplo de humildade e para ensinar-nos – diz São João Crisóstomo –, quis também ser conduzido ao deserto e ali travar combate com o demônio a fim de que os batizados, se depois do batismo sofrem maiores tentações, não se assustem com isso, como se fosse algo de inesperado. Se não contássemos com as tentações que temos de sofrer, abriríamos a porta a um grande inimigo: o desalento e a tristeza.
A narrativa das tentações, que Jesus sofreu, mostra que Jesus “foi experimentado em tudo” (Hb 4, 15), comprovando também a veracidade da Encarnação do Verbo de Deus.
Diz Santo Agostinho que, na sua passagem por este mundo, nossa vida não pode escapar à prova da tentação, dado que nosso progresso se realiza pela prova. De fato, ninguém se conhece a si mesmo, sem ser experimentado, e não pode ser coroado, sem ter vencido, e não pode vencer, se não tiver combatido e não pode lutar, se não encontrou o inimigo e as tentações.
Por isso, a existência do ser humano, nesta terra, é uma batalha contínua contra o mal. É esta luta contra o pecado, a exemplo de Cristo, que devemos intensificar nesta Quaresma; luta que constitui uma tarefa para a vida toda. O mal tem suas raízes em nós mesmos e cada um deve combatê-lo dentro de si, numa luta sem tréguas, nem férias.
O demônio promete sempre mais do que pode dar. A felicidade está muito longe das suas mãos. Toda a tentação é sempre um engano miserável! Mas, para nos experimentar, o demônio conta com as nossas ambições. E a pior delas é desejar, a todo o custo, a glória pessoal; a ânsia de nos procurarmos, sistematicamente, a nós mesmos nas coisas que fazemos e projetamos. Muitas vezes, o pior dos ídolos é o nosso próprio eu. Temos que vigiar, em luta constante, porque dentro de nós permanece a tendência de desejar a glória humana, apesar de termos dito ao Senhor que não queremos outra glória que não a dEle. Jesus também se dirige a nós quando diz: “Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás”. E é isto o que nós desejamos e pedimos: servir a Deus alicerçados na vocação a que Ele nos chamou.
O Senhor está sempre ao nosso lado, em cada tentação, e diz-nos, afetuosamente: “Confiai: Eu venci o mundo” (Jo16, 33). E com o Salmista podemos dizer: “O Senhor é minha luz e minha salvação: de quem terei medo?” (Sl 26, 1).
“Procuremos fugir das ocasiões de pecado, por pequenas que sejam, pois aquele que ama o perigo nele perecerá” (Eclo 3, 27). Como Jesus nos ensinou, na oração do Pai Nosso: “Não nos deixeis cair em tentação”; é necessário repetir muitas vezes e com confiança essa oração!
Contamos sempre com a graça de Deus para vencer qualquer tentação. Usemos as armas para vencermos na batalha espiritual, que são: a oração contínua, a sinceridade com o diretor espiritual, a Eucaristia, o Sacramento da Confissão (Penitência), um generoso espírito de mortificação cristã, a humildade de coração e uma devoção terna e filial à Nossa Senhora.
Na Quaresma, somos todos chamados ao deserto, para um confronto com nós mesmos, com Deus e com o próximo, e os bens materiais. Somos chamados a despojar-nos de nós mesmos para nos revestir de Deus. Somos chamados a acolher a palavra do Profeta Joel: “… rasgai o coração, e não as vestes; e voltai para o Senhor, vosso Deus…” (Joel 2, 13). Façamos da palavra do Profeta uma síntese de todo nosso itinerário quaresmal.
Além da graça de Deus, precisamos de meios concretos para purificar nossas disposições interiores, tantas vezes desfocadas pelos apegos. Por isso, Quaresma é tempo especial de penitência, esmola, oração, jejum e abstinência. O desprendimento das coisas materiais purifica e ajuda a encontrar o Senhor.
Cada um deveria preparar um plano concreto de luta para esta Quaresma. Por exemplo: abstinência de falar mal dos outros; jejum da televisão, telefone, internet, de ouvir música no carro ou em casa, de festas e diversões. Não comer doce e beber refrigerante, exceto aos domingos. A esmola de visitar doentes, ajudar nas tarefas de casa. Fazer plano de vida diário de oração e leitura espiritual.
A vida cristã é um constante começar e recomeçar, um renovar, cada dia. Em Cristo encontramos forças para vencer. E armas: a oração, a Eucaristia, a mortificação, a fuga das ocasiões de pecado, devoção a Nossa Senhora e ao Anjo da Guarda. E a Confissão, verdadeira tábua de salvação oferecida por Jesus, que assim deseja perdoar.
No caminho de conversão quaresmal, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil apresenta-nos a Campanha da Fraternidade com o tema “Fraternidade e Moradia e o lema: “Ele veio morar entre nós” (Jo 1, 14).
O Papa Leão XlV concluiu a Mensagem para a Quaresma, com as seguintes palavras: “Caríssimos, peçamos a graça de uma Quaresma que torne os nossos ouvidos mais atentos a Deus e aos últimos. Peçamos a força de um jejum que também passe pela língua, para que diminuam as palavras ofensivas e aumente o espaço dado à voz do outro. E comprometamo-nos a fazer das nossas comunidades lugares onde o clamor de quem sofre seja acolhido e a escuta abra caminhos de libertação, tornando-nos mais disponíveis e diligentes no contributo para construir a civilização do amor”.
Invoquemos a ajuda maternal de Maria Santíssima para o caminho quaresmal que há pouco teve início, a fim de que seja rico de frutos de conversão.
Concluamos com a oração (Coleta) da Missa do dia: “Concedei-nos, ó Deus onipotente, que, ao longo desta Quaresma, possamos progredir no conhecimento de Jesus Cristo e corresponder a seu amor por uma vida santa”.





