No primeiro dia do ano, a Igreja fixa o olhar na celeste Mãe de Deus, que traz, nos braços, o Menino Jesus, fonte de toda a bênção. Hoje, também, temos a alegria e a graça de celebrar a Santíssima Mãe de Deus e, ao mesmo tempo, o Dia Mundial da Paz. Em ambas as comemorações, celebramos Cristo, Filho de Deus, que nasceu de Maria, Virgem e Rainha da Paz! A todos repito as palavras da antiga bênção: “ O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor te mostre a sua face e te conceda a sua Graça! O Senhor dirija o seu rosto para ti e te dê a paz” (Nm 6, 24 – 26). Podemos contemplar o Rosto de Deus, que se fez visível e se revelou em Jesus: Ele é a imagem visível do Deus invisível. E isto graças, também, à Virgem Maria, de Quem, hoje, celebramos o maior título, aquele com que Ela participa, de modo único, na história da salvação: ser Mãe de Deus. No seu seio, o Filho do Altíssimo assumiu a nossa carne, e nós podemos contemplar a sua Glória (Jo 1,14), sentir a sua Presença de Deus Conosco.
Assim, começamos o novo ano, fixando o olhar no Rosto de Deus que se revela, no Menino de Belém, e na sua Mãe, Maria, que acolheu o desígnio divino, com abandono humilde. Graças ao seu generoso “sim” apareceu, no mundo, a luz verdadeira que a todo o homem ilumina (Jo 1,9) e foi-nos reaberto o caminho da paz. Vale refletir que o Verbo Eterno entrou no tempo, veio nos visitar por meio de Maria. Recorda-o o Apóstolo Paulo, afirmando que Jesus nasceu “de uma mulher”: “Quando se completou o tempo previsto, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher” (Gl 4, 4). Nesta “mulher”, a Igreja contempla os lineamentos de Maria de Nazaré, mulher singular porque é chamada a cumprir uma missão que a coloca numa relação profundamente estreita com Cristo: aliás, uma relação absolutamente única, porque Maria é a Mãe do Salvador. No entanto, com igual evidência, podemos e devemos afirmar que ela é, também, a nossa Mãe porque, vivendo a sua singularíssima relação materna com o Filho, compartilhou a sua missão por nós e pela salvação de todos os homens. Contemplando-a, a Igreja vislumbra nela os traços da sua própria fisionomia: Maria vive a fé e a caridade; Maria é uma criatura, também ela é salva pelo único Salvador; Maria colabora na iniciativa de salvação de toda a humanidade. Deste modo, Maria constitui, para a Igreja, a sua imagem mais genuína: aquela em quem a comunidade eclesial deve descobrir, continuamente, o sentido autêntico da sua vocação e do seu próprio Mistério.
Na liturgia, de hoje, sobressai a figura de Maria, verdadeira Mãe de Jesus, Homem-Deus. Portanto, a Solenidade não celebra uma ideia abstrata, mas um Mistério e um acontecimento histórico: Jesus Cristo, Pessoa Divina, nasceu da Virgem Maria, a qual é, no sentido mais verdadeiro, sua Mãe. Maria é Mãe espiritual de toda a humanidade, porque Jesus derramou o seu Sangue na Cruz por todos, e a todos confiou da Cruz a sua solicitude materna (cf. Jo 19,25-27).
Olhando para Maria, iniciemos, portanto, este novo ano, que recebemos das mãos de Deus como um “talento” precioso para fazermos frutificar, como uma ocasião providencial para contribuir para a realização do Reino de Deus. Neste clima de oração e de gratidão ao Senhor, pelo dom de um novo ano, que participamos da Liturgia de hoje.
A piedade cristã plasmou, de mil formas diferentes, a festa da Mãe de Deus, que celebramos hoje! Um exemplo disso é que inúmeras são as imagens de Maria, com o Menino nos braços. A Maternidade de Maria é o fato central que ilumina toda a vida da Virgem e é o fundamento dos outros privilégios com que Deus quis adorná-la.
Maria é a Senhora, cheia de graça e de virtudes, concebida sem pecado, que é Mãe de Deus e Mãe nossa, e está nos céus em corpo e alma. A Bíblia fala-nos dela como a mais excelsa de todas as criaturas, a bendita, a mais louvada entre as mulheres, a cheia de graça (Lc 1,28), Aquela a que todas as gerações chamarão bem-aventurada (Lc 1,48).
A Igreja ensina-nos que Maria ocupa, depois de Cristo, o lugar mais alto e o mais próximo de nós, em função da sua maternidade divina. Diz o Concilio Vaticano II, na Lumen Gentium, 63: “Ela, pela graça de Deus, depois do seu Filho, foi exaltada sobre todos os anjos e todos os homens.”
Ensina S. Paulo: “Quando se completou o tempo previsto, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sujeito à Lei…” (Gl 4,4). Orígenes comenta: “Observa bem, que não disse: nascido através de uma mulher, mas sim: nascido de uma mulher”. Esta observação perspicaz do grande exegeta e escritor eclesiástico é importante: com efeito, se o Filho de Deus tivesse nascido somente “através” de uma mulher, na realidade não teria assumido a nossa humanidade, o que, contudo, fez, tomando a carne “de” Maria. Portanto, a maternidade de Maria é verdadeira e plenamente humana.
Na expressão “Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher”, encontra-se resumida a verdade fundamental sobre Jesus, como Pessoa divina, que assumiu completamente a nossa natureza humana. Ele é o Filho de Deus, é gerado por Ele e, ao mesmo tempo, é Filho de uma mulher, Maria. Ele provém dela. É de Deus e de Maria. Este título, que, em grego, diz-se Theotókos, aparece, talvez, pela primeira vez, precisamente, na área de Alexandria do Egito, onde, na primeira metade do século lll, viveu o próprio Orígenes. Contudo, ele foi definido, dogmaticamente, só dois séculos mais tarde, em 431, pelo Concílio de Éfeso.
Jesus não apareceu, de repente, na terra, vindo do Céu, mas, fez-se, realmente, homem, como nós, tomando a nossa natureza humana, nas entranhas puríssimas da Virgem Maria. Enquanto Deus, é eternamente gerado, não feito, por Deus Pai. Enquanto homem, nasceu, “foi feito”, de Santa Maria. “Muito me admira – diz por isso São Cirilo – que haja alguém que tenha alguma dúvida de que a Santíssima Virgem deve ser chamada Mãe de Deus. Se Nosso Senhor Jesus Cristo é Deus, por que a Santíssima Virgem, que O deu à luz, não há de ser chamada Mãe de Deus? Esta é a fé que os discípulos do Senhor nos transmitiram, ainda que não tenham empregado essa expressão. Assim nos ensinaram os Santos Padres”.
“Quando a Virgem respondeu, livremente, “Sim” àqueles desígnios que o Criador lhe revelava, o Verbo divino assumiu a natureza humana: a alma racional e o corpo formado no seio puríssimo de Maria. A natureza divina e a natureza humana uniam-se numa única Pessoa: Jesus Cristo, verdadeiro Deus e, desde então, verdadeiro Homem; Unigênito eterno do Pai e, a partir daquele momento, como Homem, filho verdadeiro de Maria. Por isso Nossa Senhora é Mãe do Verbo encarnado, da segunda pessoa da Santíssima Trindade que uniu a si para sempre – sem confusão – a natureza humana. Podemos dizer bem alto à Virgem Santa, como o melhor dos louvores, estas palavras que expressam a sua mais alta dignidade: Mãe de Deus” (São Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 274).
“Concebendo Cristo, gerando-o, alimentando-o, apresentando-o ao Pai no templo, padecendo com seu Filho, quando morria na Cruz, cooperou, da forma inteiramente ímpar, com a obra do Salvador, mediante a obediência, a fé, a esperança e a ardente caridade, a fim de restaurar a vida sobrenatural das almas. Por isso Ela é nossa Mãe na ordem da graça” (LG,61).
Jesus deu-nos Maria como Mãe nossa no momento em que, pregado na Cruz, dirigiu à sua Mãe estas palavras: “Mulher, eis aí o teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí a tua mãe” (Jo 19,26-27). Desde aquele dia, toda a Igreja a tem por Mãe; e todos os homens a têm por Mãe. Todos entendemos como dirigidas, a cada um de nós, as palavras pronunciadas na Cruz.
Quando Cristo dá a sua Mãe por Mãe nossa, manifesta o amor aos seus até o fim. Quando a Virgem Maria aceita o Apóstolo João como seu filho, mostra o seu amor de Mãe para com todos os homens. Acorramos à Maria com a prece! Como nós cristãos devemos amar Maria? Pois bem, nisto, como em tudo, tomemos como modelo a Jesus: tratemos de amar a Maria como Cristo a amou e a ama.
Peçamos a Nossa Senhora, Mãe de Deus e nossa, que nos acompanhe e nos proteja, neste ano que se inicia, que nos lembremos dela, todos os dias, especialmente, através da oração do Rosário. Para este novo ano, façamos o propósito de pedir a ajuda de Maria para, como ela, meditarmos tudo no coração, para levarmos à oração a nossa vida, descobrirmos o valor, o sentido e a riqueza da vida diária, unidos a Deus.
Dirijamos o olhar à Maria Santíssima, que, hoje, abençoa o mundo inteiro, mostrando o seu Filho divino, o “Príncipe da Paz” (Is 9, 5). Com confiança, invoquemos a sua poderosa intercessão a fim de que a família humana, abrindo-se à mensagem evangélica, possa transcorrer o ano que se inicia, hoje, na fraternidade e na paz.
Com o tema: Rumo a Uma Paz Desarmada e Desarmante, na mensagem para o LlX Dia Mundial da Paz, no ano de 2026, o Papa Leão XlV recorda que a paz do Cristo ressuscitado é uma paz desarmada “porque desarmada foi a sua luta dentro de suas precisas circunstâncias históricas, políticas…”
Disse o Santo Padre: A paz existe, deseja habitar-nos. Resiste à violência.
“A paz esteja contigo!”.
“Esta antiga saudação, presente ainda hoje em muitas culturas, ganhou novo vigor nos lábios de Jesus ressuscitado na noite de Páscoa. «A paz esteja convosco!» (Jo 20, 19.21) é a sua Palavra que não só deseja, mas realiza uma mudança definitiva naqueles que a acolhem e, consequentemente, em toda a realidade. Por isso, os sucessores dos Apóstolos exprimem todos os dias, e em todo o mundo, a revolução mais silenciosa: “A paz esteja convosco!”. Desde a noite da minha eleição, como Bispo de Roma, quis inserir a minha saudação neste anúncio coral. E desejo reiterá-lo: esta é a paz do Cristo ressuscitado, uma paz desarmada e desarmante, humilde e perseverante. Ela provém de Deus, o Deus que nos ama a todos incondicionalmente”.





