A poesia eucarística de Santo Tomás de Aquino é uma notável fusão de teologia, mística e arte, na qual a precisão intelectual se entrelaça com a mais profunda devoção. Ao ler suas composições, percebe-se uma linguagem “linear, teologicamente rigorosa, intelectualmente transparente”, da qual “o primeiro esplendor que promana é o da verdade: splendor veritatis”. No entanto, essa clareza “prodigiosa” de um “escolástico” se une à piedade, ao “assombro admirado e contemplativo”, que acende e transfigura sua teologia (Biffi, 2005; Alves, 2025). O mistério irradia da “experiência do crente tornado poeta”, e a “teologia impecável se reveste da beleza e da emoção da lírica” (Biffi, 2005; Alves, 2025). A fé (“fides”), como diria Santo Ambrósio, torna-se “canora” (canto) (Biffi, 2005; Alves, 2025).
Os hinos eucarísticos, como “Pange, língua”, “Sacris solemniis”, “Verbum supernum”, “Lauda Sion” e o “Adoro te devote”, são a manifestação mais conhecida dessa união. Tomás, reconhecido como autor do Ofício do “Corpus Domini”, infunde em suas composições um “difuso sopro de viva poesia” que permeia toda a celebração em honra do Corpo e Sangue do Senhor. A clareza e precisão da ideia se fundem com a “vibração e o abandono do sentimento” (Biffi, 2005; Alves, 2025). A fonte primordial dessa poeticidade exuberante é a Escritura, cujos textos “ricamente entrelaçam este ofício e esta missa” (Biffi, 2005; Alves, 2025).
Os hinos servem como um convite constante ao louvor e à adoração. No “Pange, língua”, ele exorta: “Canta, ó língua, o mistério do corpo glorioso e do precioso sangue, derramado, para resgatar o mundo, pelo rei das gentes, fruto de um ventre generoso”. Mais adiante, ele convida à reverência profunda: “Prostrados, veneremos um tão grande sacramento (Tantum ergo sacramentum veneremur cernui)”. No “Lauda, Sion”, a invocação é ainda mais veemente: “Louva, Sion, o Salvador, louva teu guia e teu pastor em hinos e cânticos (Lauda, Sion, salvatorem, / lauda ducem et pastorem / in hymnis et canticis)”. Ele desafia o crente: “Atreve-te tanto quanto puderes: Ele supera todo louvor, nem tu jamais serás capaz de louvá-lo o suficiente” (Quantum potes, tantum aude; / quia maior omni laude, / nec laudare sufficis) (Biffi, 2005).
Além do louvor e da adoração, os hinos de Tomás são perpassados por uma intensa e cálida imploração. No “Verbum supernum”, a oração é: “Ó Hóstia salvífica, que abres a porta do céu; as hostes inimigas nos oprimem, dá-nos força, traz-nos auxílio (O salutaris hostia, / quae caeli pandis ostium; / bella premunt hostilia, / da robur, fer auxilium)” (Biffi, 2005).
Mas é no “Adoro te devote” que o louvor e a imploração se fundem de forma mais apaixonada e lírica. Essa oração pessoal, considerada uma obra-prima, revela o “místico” que anseia por ver Cristo além dos “véus e escondimentos do sacramento” (Alves, 2025; Biffi, 2005). Os versos iniciais expressam uma entrega total: “Devotamente Te adoro, ó Verdade oculta, que Te escondes verdadeiramente sob estas formas. Meu coração todo a Ti se submete, pois ao Te contemplar sente-se todo desfalecer (Adoro te devote, latens veritas, / te que sub his formis vere latitas. / Tibi se cor meum totum subicit, / quia te contemplai totum deficit)”.
A oração é uma súplica por fé, esperança e caridade, especialmente diante da ausência da visão sensível de Cristo: “Na cruz estava oculta só a divindade, mas aqui se oculta também a humanidade; e, no entanto, crendo e confessando ambas, peço o que pediu o ladrão penitente. Não vejo as chagas como Tomé, e, contudo, Te confesso meu Deus. Faz-me crer sempre mais em Ti, ter em Ti esperança e amar-Te (In cruce latebat sola deitas, / sed hic latet simul et humanitas. / Ambo vere credens atque confitens, / peto quod petivit latro penitens. / Plagas sicut Thomas non intueor, / deum tamen meum te confiteor. / Fac me tibi semper magis credere, / in te spem habere, te diligere)” (Alves, 2025; Biffi, 2005).
O “Adoro te devote” culmina com o anseio pela visão beatífica: “Ó Jesus, que agora contemplo ainda velado, quando se realizará aquilo por que tanto anseio? Ou seja, contemplar-Te abertamente e assim ser bem-aventurado na visão de Tua glória (Ihesu, quem velatum nunc aspicio, / quando fiet illud quod tam sicio? / Ut te revelata cernens facie, / visu sim beatus tue glorie)”. Esses versos não apenas revelam a alma orante de Tomás, mas também o sentido último de sua teologia: o desejo de ver a “Realidade” (res), o própria Deus, que ele, no fim de sua vida, considerou o objetivo de todos os seus escritos (Alves, 2025; Biffi, 2005).






