O Caminho da Santidade – Dom José Maria Pereira

Após celebrarmos as festas do ciclo do Natal, entramos na caminhada do tempo comum. O Evangelho (Jo 1, 29-34) mostra o início da missão de Jesus. João Batista apresenta-O: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. Ele é o ungido do Senhor. Ele batizará no Espírito Santo. Ele é o Filho de Deus.

Jesus é o Cordeiro de Deus que tira o pecado mundo, anuncia São João Batista; e este pecado do mundo engloba todo o gênero de pecado: o original, que em Adão afetou, também, os seus descendentes; e os pessoais, dos homens de todos os tempos. No Cordeiro de Deus, está a nossa esperança de salvação.

“Eis o Cordeiro de Deus”. Ouvimos as palavras e olhamos para a Hóstia. Na Cruz, estava escondida a divindade. Na Eucaristia, também, está escondida a humanidade. A visão, o tato e o gosto enganam-nos, mas a fé, não. Depois da consagração, não há mais nem pão nem vinho, mas o corpo e o sangue de Jesus Cristo crucificado e ressuscitado. Tão real e perfeitamente como está no Céu.

São Francisco de Sales dizia: duas espécies de pessoas devem comungar com frequência: os santos, para se conservarem na santidade, e os não santos, para chegarem à santidade. Também, dizia: só por amor se deve receber Jesus na Eucaristia, já que só por amor ele se dá a nós.

Como receberíamos uma pessoa muito importante em nossa casa? Sem dúvida, limparíamos e arrumaríamos tudo, e a nós. Prepararíamos uma saudação, uma lista de assuntos para tratar com essa pessoa. Na comunhão, está alguém maior: Jesus Cristo, nosso Deus e Senhor, o Cordeiro de Deus!

A Eucaristia é “fonte e ápice de toda a vida cristã”. Os demais sacramentos, assim como todos os ministérios eclesiásticos e tarefas apostólicas, ligam-se à sagrada Eucaristia e a ela se ordenam. Pois, a santíssima Eucaristia contém todo o bem espiritual da Igreja, a saber, o próprio Cristo, nossa Páscoa” (Catecismo da Igreja Católica,1324).

Lemos no Prólogo de São João: “Da sua plenitude é que todos nós recebemos, graça sobre graça” (Jo 1,16). “Qual é a primeira graça que recebemos? – questiona-se Santo Agostinho e responde” – “É a fé”. A segunda graça, logo acrescenta, é “a vida eterna”.

É notável a insistência de Cristo na sua constante chamada aos pecadores: Pois o “Filho do homem veio salvar o que estava perdido” (Mt 18, 11). “Ele lavou os nossos pecados no seu sangue” (Ap 1, 5). A maior parte dos seus contemporâneos conhecia-O, precisamente, por essa atitude misericordiosa; os escribas e fariseus murmuravam e diziam: “Ele recebe os pecadores e come com eles” (Mt 11, 19). E surpreendem-se porque perdoa a mulher adúltera com umas palavras muito simples: “vai e não peques mais” (Jo 8, 11). E dá-nos a mesma lição, na parábola do publicano e do fariseu: “Senhor, tem piedade de mim, que sou um pecador” (Lc 18, 13), e na parábola do filho pródigo… A relação dos seus ensinamentos e dos seus encontros misericordiosos seria interminável! Podemos nós perder a esperança de conseguir o perdão, quando é Cristo quem perdoa? Podemos nós perder a esperança de receber as graças necessárias para sermos santos, quando é Cristo que nos pode dá-las? Isso nos enche de paz e de alegria!

São Paulo (1Cor 1, 1-13) lembra a sua vocação a Apóstolo e a vocação de todos à santidade. Continua o Apóstolo: “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação…” (1Ts 4, 3). Também, São Pedro diz: “Antes, como é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos, também vós, em todo o vosso proceder” (1Pd 1,15). O próprio Jesus ordena: “Sede, portanto, perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48).

“Para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho a serviço dos irmãos. És pai, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais” (Papa Francisco, Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate (GS), Sobre A Chamada à Santidade no Mundo Atual, n.14). Continua o Papa Francisco, no número 19: “Para um cristão, não é possível imaginar a própria missão, na terra, sem a conceber como um caminho de santidade, porque ‘a vontade de Deus é que sejais santos’ (1Ts 4, 3). Cada santo é uma missão; é um projeto do Pai que visa refletir e encarnar, em um momento determinado da história, um aspecto do Evangelho. Esta missão tem o seu sentido pleno em Cristo e só se compreende a partir dele. No fundo, a santidade é viver em união com Ele os mistérios da sua vida…”

“Precisamos de um espírito de santidade que impregne tanto a solidão como o serviço, tanto a intimidade como a tarefa evangelizadora, para que cada instante seja expressão de amor doado sob o olhar do Senhor. Dessa forma, todos os momentos serão degraus no nosso caminho de santificação. Cada cristão, quanto mais se santifica, tanto mais fecundo se torna para o mundo. Não tenhas medo de apontar para mais alto, de te deixares amar e libertar por Deus. Não tenhas medo de te deixares guiar pelo Espírito Santo. A santidade não te torna menos humano, porque é o encontro da tua fragilidade com a força da graça. No fundo, como dizia León Bloy, na vida “ existe apenas uma tristeza: a de não ser santo” (Papa Francisco, GS, números: 31 a 34).

Como prova concreta desses sentimentos do Senhor, contamos com o Sacramento do Perdão (Confissão), que nos concede as graças necessárias para lutarmos e vencermos os defeitos que talvez estejam arraigados, no nosso caráter, e que são, muitas vezes, a causa do nosso desalento. No Sacramento da Confissão, renovamos as forças e nos é dada a graça perdida pelo pecado. Peçamos ao Senhor: Senhor, ensinai-me a arrepender-me, indicai-me o caminho do amor! Movei-me com a vossa graça à contrição quando eu tropeçar! Que as minhas fraquezas me levem a amar-vos cada vez mais!

O caminho da santidade percorre-se mediante uma contínua purificação do fundo da alma, que é condição essencial para amarmos cada dia mais a Deus. Por isso, o amor à confissão frequente é um sintoma claro de delicadeza interior, de amor de Deus; e o desprezo ou indiferença por ela indicam falta de finura de alma e, talvez, tibieza, grosseria e insensibilidade para as moções que o Espírito Santo suscita no coração.

O Sacramento da Confissão rompe todos os liames com que o demônio tenta segurar-nos para que não apressemos o passo no seguimento de Cristo.

A confissão frequente, dos nossos pecados, está muito relacionada com a santidade, pois, nela, o Senhor afina a nossa alma e nos ensina a ser humildes. A tibieza, pelo contrário, cresce onde aparecem o desleixo e o descaso, as negligências e os pecados veniais sem arrependimento sincero. Na confissão contrita, deixamos a alma clara e limpa. E, como somos fracos, só a confissão frequente permitirá um estado permanente de limpeza e de amor.

Cristo, Cordeiro de Deus, veio limpar-nos dos nossos pecados, não só dos graves, mas também das impurezas e das faltas de amor da vida diária. Aproximemos do Sacramento da Penitência (Confissão) com amor!

Como discípulos e missionários, sejamos como João Batista que apontou Jesus aos discípulos, como o Cordeiro de Deus. Todos nós devemos ser testemunhas do Evangelho, preparar o encontro dos homens com Cristo. Esta é a missão de todo cristão: preparar o caminho do Senhor e o encontro do homem com Deus, levantar o dedo e proclamar bem alto: “Eis Aquele que o teu coração está procurando, eis Aquele que veio para te amar e te salvar: Jesus Cristo!

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