Domingo de Ramos abre a Semana Santa – Dom José Maria Pereira

A Semana Santa é tempo para revivermos os acontecimentos centrais da nossa fé. Tempo de grandes graças que o Senhor nos reserva. Porém, precisamos acompanhar Jesus nesse caminho de dor e de salvação, de Cruz e de Vitória, de morte e de Ressurreição. Para acompanharmos Cristo, na sua glória, no fim da Semana Santa, é preciso que penetremos, antes, no seu sacrifício. Com a celebração do Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, a Igreja abre a Semana Santa.

Aproximemo-nos dos mistérios centrais da nossa fé. Com calma, recolhimento e sinceridade. É hora especial da graça de uma maior conversão, de encontrarmo-nos com a misericórdia de Deus, que veio não para condenar, mas para salvar os que O aceitarem. Devemos trazer, gravado no nosso coração, Aquele que por nós morreu, pregado na Cruz.

No Evangelho (Mt 27, 11 – 54), vemos que o cortejo foi organizado, rapidamente. Jesus faz a sua entrada, em Jerusalém, como Messias, montado num burrinho, conforme havia sido profetizado, muitos séculos antes (Zac 9,9). Jesus aceita a homenagem, e, quando os fariseus, que, também, conheciam as profecias, tentaram sufocar aquelas manifestações de fé e de alegria, o Senhor disse-lhes: “Eu vos digo, se eles se calarem, as pedras gritarão” (Lc 19, 40).

Assim, a nossa procissão, de hoje, quer ser imagem de algo mais profundo, imagem do fato que nos encaminhamos, em peregrinação, juntamente com Jesus, pelo caminho alto que leva ao Deus vivo. É desta subida que se trata: tal é o caminho, a que Jesus nos convida. Mas, nesta subida, como podemos andar no mesmo passo que Ele? Porventura, não ultrapassa as nossas forças? Sim, está acima das nossas próprias possibilidades. Desde sempre – e, hoje, ainda mais, – os homens nutriram o desejo de “ser como Deus”; de alcançar, eles mesmos, a altura de Deus. Em todas as invenções do espírito humano, em última análise, procura-se conseguir asas para poder elevar-se à altura do Ser divino, para se tornar independentes, totalmente livres, como o é Deus. A humanidade pôde realizar tantas coisas: somos capazes de voar; podemos ver-nos uns aos outros, ouvir e falar entre nós, dum extremo do mundo para o outro. E, todavia, a força de gravidade, que nos puxa para baixo, é poderosa. A par das nossas capacidades, não cresceu apenas o bem; cresceram, também, as possibilidades do mal, que se levantam como tempestades ameaçadoras sobre a História. E perduram também os nossos limites: basta pensar nas catástrofes, pandemia que, nos tempos, afligiram e continuam a afligir a humanidade.

Os Padres disseram que o homem está colocado no ponto de interseção de dois campos de gravidade. Temos, por um lado, a força de gravidade que puxa para baixo: para o egoísmo, para a mentira e para o mal; a gravidade que nos rebaixa e afasta da altura de Deus. Por outro lado, há a força de gravidade do amor de Deus: sabermo-nos amados por Deus e a resposta do nosso amor puxam-nos para o alto. O homem encontra-se no meio desta dupla força de gravidade, e tudo depende de conseguir livrar-se do campo de gravidade do mal e ficar livre para se deixar atrair totalmente pela força de gravidade de Deus, que nos torna verdadeiros,  eleva-nos, dá-nos a verdadeira liberdade.

Nossa celebração inicia-se com o Hosana! E culmina no crucifica-o! Mas, este não é um contrassenso; é, antes, o coração do mistério. O mistério que se quer proclamar é este: Jesus  entregou-se, voluntariamente, a sua Paixão; não se sentiu esmagado por forças maiores do que Ele (Ninguém me tira a vida, mas eu a dou livremente: Jo 10,18); foi Ele que, perscrutando a vontade do Pai, compreendeu que havia chegado a hora e a acolheu com a obediência livre do filho e com infinito amor para os homens: “… sabendo Jesus que tinha chegado a sua hora, hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1).

Hoje Jesus quer, também, entrar triunfante na vida dos homens, sobre uma montaria humilde: quer que demos testemunho d’Ele, com a simplicidade do nosso trabalho bem feito, com a nossa alegria, com a nossa serenidade, com a nossa sincera preocupação pelos outros. Quer fazer-se presente, em nós, através das circunstâncias do viver humano.

Naquele cortejo triunfal, quando Jesus vê a cidade de Jerusalém, chora! Jesus vê como Jerusalém se afunda no pecado, na ignorância e na cegueira. O Senhor vê como virão outros dias que já não serão como estes, um dia de alegria e de salvação, mas de desgraça e ruína. Poucos anos depois, a cidade será arrasada. Jesus chora a impenitência de Jerusalém. Como são eloquentes estas lágrimas de Cristo.

O Concílio Vaticano II, GS, nº 22, diz: De certo modo, o próprio Filho de Deus se uniu a cada homem pela sua Encarnação. Trabalhou com mãos humanas, pensou com mente humana, amou com coração de homem. Nascido de Maria Virgem, fez-se verdadeiramente um de nós, igual a nós, em tudo, menos no pecado. Cordeiro inocente, mereceu-nos a vida, derramando, livremente, o seu sangue, e, n’Ele o próprio, Deus reconciliou-nos consigo e entre nós mesmos e nos arrancou da escravidão do demônio e do pecado, e, assim, cada um de nós pode dizer com o Apóstolo: “Ele me amou e se entregou por mim (Gal. 2, 20).”

A história de cada homem é a história da contínua solicitude de Deus para com ele. Cada homem é objeto da predileção do Senhor. Jesus tentou tudo com Jerusalém, e a cidade não quis abrir as portas à misericórdia. É o profundo mistério da liberdade humana, que tem a triste possibilidade de rejeitar a graça divina.

Como é que estamos correspondendo às inúmeras instâncias do Espírito Santo para que sejamos santos no meio das nossas tarefas, no nosso ambiente? Quantas vezes, em cada dia, dizemos sim a Deus e não ao egoísmo à preguiça, a tudo o que significa falta de amor, mesmo em pormenores insignificantes?

A entrada triunfal de Jesus foi bastante efêmera para muitos. Os ramos verdes murcharam rapidamente. O hosana entusiástico transformou-se, cinco dias mais tarde, num grito furioso: Crucifica-o! Por que foi tão brusca a mudança, por que tanta inconsistência?

São Bernardo comenta: “Como eram diferentes umas vozes e outras! Fora, fora, crucifica-o e bendito o que vem em nome do Senhor, Hosana nas alturas! Como são diferentes as vozes que agora o aclamam Rei de Israel e dentro de poucos dias dirão: Não temos outro rei, além de César! Como são diferentes os ramos verdes e a Cruz, as flores e os espinhos! Àquele a quem antes estendiam as próprias vestes, dali a pouco o despojam das suas e lançam a sorte sobre elas.”

A entrada triunfal de Jesus, em Jerusalém, pede-nos coerência e perseverança, aprofundamento da nossa fidelidade, para que os nossos propósitos não sejam luz que brilha, momentaneamente e logo se apaga. Muito dentro do nosso coração, há profundos contrastes: somos capazes do melhor e do pior. Se queremos ter em nós a vida divina, triunfar com Cristo, temos de ser constantes e matar, pela penitência, o que nos afasta de Deus e nos impede de acompanhar o Senhor até a Cruz.

O preço que Cristo pagou pelo nosso resgate foi a sua própria vida. Mostrou-nos, assim, a gravidade do pecado e o valor da nossa salvação eterna. Cristo chegou até esse ponto por nós. Não se contentou em se fazer um de nós, mas quis dar a sua vida em resgate: amou-nos e entregou-se a si mesmo por nós.

A Igreja lembra –nos que a entrada triunfal vai perpassar todos os passos da Paixão de Cristo. Terminada a procissão, mergulha-se no mistério da Paixão de Jesus Cristo: Em Is 50 4-7, descreve o Servo sofredor, na esperança da vitória final. Vemos nele a própria pessoa de Jesus Cristo. Em Fl 2,6-11, temos a chave principal de todo o mistério deste Domingo de Ramos: Jesus humilhou-se e, por isso, Deus o exaltou!

No texto de (Mt 27, 11 – 54), somos chamados a contemplar a PAIXÃO e a MORTE de Jesus. Que, durante a Semana Santa, possamos tirar muitos frutos da meditação da Paixão de Cristo. Que, em primeiro lugar, tenhamos aversão ao pecado; possamos avivar o nosso amor e afastar a tibieza!

Judas, Pedro e os discípulos negaram o Mestre! Porém, o Senhor não desiste de nós! Em tudo, Deus é mais forte! Deus convida –nos a nos unir a Ele, neste caminho, rumo a Jerusalém, ainda que parte nossa contenha um pouco de Judas, um pouco de Pedro e muito das sonolências dos discípulos. Cristo leva-nos, assim mesmo, a Jerusalém, na certeza de que Ele é fiel, constante e “não dorme nem cochila”.

Estejamos dispostos a seguir com o Senhor a Jerusalém e a morrer, cada dia, com Ele para que seu amor seja tudo em todos!

Toda nossa vida é, em certo sentido, uma “semana santa”, se a vivemos com coragem e fé, na espera do “oitavo dia” que é o grande Domingo do repouso e da glória eterna.

Neste tempo, Jesus repete-nos o convite que dirigiu a seus discípulos no Horto das Oliveiras: “Ficai aqui e vigiai comigo” (Mt 26,38).

Semana Santa é relação entre a vida de Jesus e a nossa vida. Pensar na morte de Cristo deve se traduzir em situar-nos diante dEle e tomar mais a sério a fé. Importa olhar para a Cruz, para aqueles sofrimentos, para aquela morte cruel por cada um de nós. Após tantas e tão grandes provas de amor, não podemos duvidar que Ele nos ama, e muito. Ocasião de aprofundar nesse amor e em como retribuir.

Aproveitemos esta Semana Santa para meditarmos nos exemplos preciosos, deixados por Jesus, e levemos seus vários ensinamentos para a nossa vida.

Maria, também, está em Jerusalém, perto do seu Filho, para celebrar a Páscoa: a última Páscoa judaica e a primeira Páscoa em que o seu Filho é o Sacerdote e a Vítima. Não nos separemos dEla. Nossa Senhora ensinar-nos-á a ser constantes, a lutar até o pormenor, a crescer, continuamente, no amor por Jesus. Permaneçamos a seu lado para contemplarmos, com Ela, a Paixão, a Morte e a Ressurreição do seu Filho. Não encontraremos lugar mais privilegiado!

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