A celebração do Domingo de Páscoa na Catedral São Pedro de Alcântara, em Petrópolis, foi marcada por um forte apelo à esperança e à perseverança na fé. Presidindo a Santa Missa, o bispo diocesano, Dom Joel Portella Amado, destacou que a Ressurreição de Jesus Cristo é o fundamento da vida cristã e o grande “remédio” diante da dor, do sofrimento e da morte.
“Feliz Páscoa. Nunca é demais dizer ‘feliz Páscoa’, porque nós fomos criados para esse dia”, afirmou o bispo no início da homilia, lembrando que o ser humano não foi criado para a morte, mas para a vida, a paz e a felicidade. “Se, na vida, tem remédio para tudo, exceto para a morte, não esqueça quem Cristo venceu, o que nós estamos celebrando hoje: exatamente a vitória da vida contra a morte”, enfatizou.

A Missa foi concelebrada pelo vigário paroquial, Padre Alexandre Sobral Arosa, com a assistência do diácono permanente Marco Carvalho, de seminarista, coroinhas, cerimoniários e ministros extraordinários da Sagrada Comunhão. Ao final da celebração, Dom Joel convidou as crianças e catequistas do projeto Arca de Noé ao presbitério, onde os pequenos apresentaram os desenhos que produziram sobre a Páscoa, num gesto que expressou a alegria e a simplicidade próprias desta solenidade.
A Páscoa como caminho e interpretação de sinais
Comentando o Evangelho do dia, que narra a visita de Maria Madalena ao túmulo vazio, Dom Joel ressaltou que a fé pascal se constrói na interpretação de sinais, e não na evidência imediata.
“No Evangelho de hoje, o grande ausente é Jesus ressuscitado. O que Pedro e o discípulo amado veem são sinais: a pedra retirada, o sudário dobrado, os panos no chão. Esses sinais podem ser interpretados de maneira errada ou com dúvida. A maturidade humana e a maturidade da fé consistem em aprender a interpretar os sinais”, explicou.

O bispo recordou que, muitas vezes, diante do sofrimento, do mal e da dor, a tendência é deixar-se vencer por eles e construir explicações negativas, como fez Maria Madalena ao pensar que tinham roubado o corpo do Senhor. “Hoje é a hora de dizer: não há dor, não há maldade, não há sofrimento, principalmente não há morte que apague esse sonho de vida que o Criador colocou em nós”, disse.
Uma pequena luz que indica o caminho
Em tom pastoral, Dom Joel comparou a ação de Deus à luz do sol que entra pela fresta da janela e desperta para um novo dia. “Basta uma frestinha de sol para dizer: se levanta que acabou a noite. O sol é um grande sinal da ação de Deus. A Ressurreição é grande, mas não está distante de nós. Deus envia inúmeros sinais, dos quais o sol é apenas o primeiro”, afirmou.
Ele também utilizou uma imagem bem conhecida dos petropolitanos: a névoa na serra, chamada popularmente de “ruço”. “Talvez quem não conhece a cidade, quando sobe a serra num dia de ‘ruço’ pesado, possa dizer: ‘levaram a cidade embora!’. Mais ou menos como Maria Madalena: ‘roubaram o meu Senhor’. Mas, se você continuar em frente, devagar, com cuidado, a névoa passa e a cidade aparece. Assim também é a vida de fé: continue a caminhar, mesmo que veja apenas uma pequena luz. Os sinais vão aparecendo e você pode dizer: ‘é, o Senhor ressuscitou’”, encorajou.
Símbolos da Páscoa e alegria contagiante da Ressurreição

Com linguagem simples e próxima, Dom Joel dialogou com símbolos populares associados à Páscoa, como o coelho, o ovo de chocolate e o girassol, ajudando os fiéis a ressignificá-los à luz da fé.
Recordando uma pergunta da infância – “Mas o coelho põe ovo? E ovo de chocolate?” –, o bispo explicou que, embora esses elementos estejam ligados ao comércio e à cultura, podem apontar para realidades mais profundas. “O chocolate aquece e alimenta, como o amor de Deus nos aquece nos momentos difíceis e nos fortalece para caminhar”, disse.
“O coelho é ágil e se reproduz com muita facilidade. Assim também nós, cristãos, quando nos encontramos uns com os outros, ‘contagiamos’ com a alegria da Ressurreição”, afirmou. Já o girassol, que acompanha o movimento do sol, foi apresentado como imagem da comunidade cristã: “Assim como o girassol contempla o sol, nós somos convidados a contemplar Cristo ressuscitado”.
Dom Joel alertou, porém, que todos esses sinais são passageiros e dependem do cuidado com a “casa comum”. “Pode chegar um dia em que não haja mais girassóis, ou em que não possamos ver o sol. Mas um sinal precisa permanecer na mente e no coração: na fé no Ressuscitado, vamos enfrentando e vencendo tudo aquilo que, sendo fruto do pecado, constrói morte, dor e sofrimento”, destacou.
“Aprender a não aceitar a dor e a maldade”
Na homilia, o bispo também fez referência a uma encenação da Paixão de Cristo em Porto Alegre que circulou nas redes sociais, quando uma cadela avançou sobre o soldado que batia em Jesus. “Eu levei o vídeo para a capela para rezar, e pedi: ‘Senhor, me ensina a ser como essa cadela. Me ensina a não aceitar nenhuma dor, nenhum sofrimento, nenhuma maldade’”, contou.

A partir desse episódio, ele convidou os fiéis a colocarem seus dons a serviço da vida e da paz. “Me ajuda, Senhor, a que eu possa colocar todos os dons que tu me deste a serviço da vida, a serviço da paz”, rezou, em voz alta, diante da assembleia.
Reconhecendo que muitas vezes a vida se torna uma verdadeira “paixão”, no sentido de sofrimento, Dom Joel lembrou que o Ressuscitado caminha com aqueles que enfrentam a dor com fé. “Quando nós vamos, aos poucos, enfrentando a dor e o sofrimento, o Ressuscitado vem junto de nós. Ele abraça, Ele acaricia, Ele cuida de nós, mesmo nos momentos mais difíceis”, afirmou.
Convite a viver o Tempo Pascal em comunidade
O bispo insistiu na importância de viver intensamente os 50 dias do Tempo Pascal, até Pentecostes, participando da Eucaristia dominical e deixando-se iluminar pela Palavra de Deus. “Temos ainda 50 dias para mergulhar no mistério de Cristo ressuscitado, ser iluminados pela força do Espírito na Igreja e aprender a descobrir, no meio da vida, a presença de Cristo ressuscitado”, disse.

Dom Joel fez um convite direto aos fiéis para que não deixem de participar da Missa nos próximos domingos, acompanhando o percurso proposto pela liturgia, especialmente os evangelhos pascais. Referindo-se ao Evangelho do próximo domingo, sobre a incredulidade de Tomé, adiantou: “O primeiro sinal é aquele que o próprio Jesus falou: ‘Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, eu estarei lá’. Tomé pediu para tocar as feridas porque não estava junto. O sinal não é a ferida, o sinal é a comunidade”.
“Feliz Páscoa: a vida venceu a morte”
Ao final da homilia, retomando o desejo de que a alegria pascal se torne anúncio e testemunho no cotidiano, Dom Joel reforçou, pela terceira vez, o cumprimento que marcou sua pregação: “Nós podemos sair da Missa e, seja lá quem encontrarmos, dizer: feliz Páscoa, o Senhor ressuscitou, a vida venceu a morte”.
Concluindo, convidou todos a responderem, “do fundo do coração”, ao seu último “feliz Páscoa”, reafirmando a fé na Ressurreição e a certeza de que nenhuma escuridão é definitiva para aqueles que caminham guiados pelos sinais da presença de Cristo vivo.






