A Diocese de Petrópolis realizou, no dia 21, a caminhada penitencial da Campanha da Fraternidade, com o tema “Fraternidade e Moradia”, na Paróquia São Jorge, no Alto Independência. O bispo diocesano, Dom Joel Portella Amado, presidiu a missa de encerramento na Igreja Matriz, com a participação expressiva da comunidade, seminaristas e sacerdotes do Decanato São Pedro de Alcântara.
A caminhada teve início na Capela Frei Galvão e foi conduzida pelo administrador paroquial, Padre Leonardo João. Ao longo do percurso, os fiéis viveram momentos de oração e canto, além da apresentação do cartaz da Campanha da Fraternidade, que traz como lema “Ele veio morar entre nós”. Padre Leonardo agradeceu a presença dos padres, dos fiéis da paróquia e de outras comunidades que se uniram à caminhada e à celebração eucarística.
Em sua homilia, Dom Joel recordou os 60 anos da Campanha da Fraternidade no Brasil, destacando que, desde o início, a proposta é aproveitar o tempo da Quaresma para levar os cristãos a refletir sobre temas que atingem toda a sociedade, e não apenas a Igreja. “Este ano o tema é a moradia; em 2027, será a criança, em seus diversos contextos”, explicou o bispo, mostrando a continuidade da reflexão social proposta pela Igreja.
O bispo sublinhou que a missa e a caminhada fazem parte de um processo de escuta e de abertura à realidade concreta em que as pessoas vivem. “Em todas as etapas da nossa caminhada, esta é a celebração de hoje; depois teremos outro encontro. Além disso, há tudo o mais que a Igreja nos oferece, tudo o mais que a Igreja nos proporciona”, disse Dom Joel, reforçando que a Campanha da Fraternidade é um caminho, não um evento isolado.
Ao falar sobre a resistência de alguns fiéis aos temas sociais, Dom Joel observou que, por vezes, “algumas pessoas não entendem a conexão entre a reflexão, a pregação e o canto da comunidade”. Segundo ele, isso gera certa resistência, porque “esse tipo de reflexão, ligada à realidade, parece distrair, atrapalhar, incomodar”. No entanto, o bispo insistiu que a espiritualidade cristã precisa nomear e enfrentar essas situações, que “não são uma fábula, mas surgem dentro das nossas famílias e da própria Igreja”.
Dom Joel também lembrou que a Campanha da Fraternidade se debruça sobre temas que, muitas vezes, têm implicações políticas, mas que isso não esvazia nem corrompe sua dimensão evangélica. “Não são temas apenas para os jovens; são temas sociais. O fato de terem consequências políticas não corrompe esses temas. Primeiro, assusta; assusta quem não está acostumado e incomoda quem vive duramente essas situações”, afirmou.
Ao olhar para a história da Campanha da Fraternidade, o bispo destacou que, ao longo de seis décadas, a Igreja no Brasil vem convidando as pessoas a enxergar realidades dolorosas: “Há muita gente sofrendo, muita gente marcada pela dor e pelo sofrimento. Por isso, já tivemos temas como educação, juventude, família, drogas e tantos outros. Cada comunidade se aprofunda mais em um desses temas, de acordo com a sua realidade.”
Neste ano, com o foco na moradia, a reflexão se volta ao direito de todos a um lugar digno para viver. Dom Joel chamou atenção para o contraste entre confortos individuais e a miséria que atinge tantos irmãos: “Você pode ter boa comida, boa água, estar tudo bem com você e, mesmo assim, alguém ao seu lado morrer de necessidade. Muitas vezes, só nos movemos quando alguém nos traz problema direto, mas deixamos a pessoa morrer na necessidade.”
Para o bispo, a resposta cristã passa sempre pela contemplação de Jesus e pela prática concreta da caridade: “Acompanhem o que Jesus fez. Diante de uma situação concreta, eu me reconheço como irmão das outras pessoas. A primeira referência do homem deve ser Jesus.”
Dom Joel ressaltou ainda que toda riqueza religiosa precisa se traduzir em compromisso público: “Toda riqueza religiosa, seja ela qual for, deve ser traduzida em uma atitude pública, em uma relação de proximidade. O coração é profundamente acolhido quando é acolhido por Deus sobre todas as coisas. E como é que se faz isso? Amando Jesus no irmão e na irmã.”
Citando a Primeira Carta de São João, o bispo recordou o critério essencial da fé cristã: “Como posso amar a Deus, que não vejo, se não amo o meu irmão, que vejo? Se eu não amo o irmão, minto a respeito de Deus. Quem não ama o irmão não merece receber esse nome de cristão.”
Ao final, Dom Joel retomou a imagem do cristão como “ponte” entre Deus e os irmãos: a pessoa que se coloca a serviço, faz a ligação, aproxima, mesmo sem aparecer. “Que as nossas orações, a Primeira Carta de João e o Evangelho de Jesus não sejam apenas palavras repetidas, mas responsabilidade assumida. Temos a responsabilidade de usar os dons que Deus nos deu, de pôr o pé na estrada, no sentido concreto da caridade”, afirmou.
Concluindo a celebração, o bispo destacou que o coração de cada fiel é chamado a tornar-se casa acolhedora: “Deus veio e falou para nós, para cada um e cada uma, que o coração da pessoa é a casa de cada um e de cada uma. Essa é a nossa responsabilidade: que a casa de cada um, isto é, o nosso coração, se comprometa com aquilo que é o nosso verdadeiro comportamento cristão.”
A caminhada penitencial e a missa de encerramento, vividas em espírito de oração e compromisso, marcaram mais um passo da Diocese de Petrópolis na vivência da Campanha da Fraternidade, reforçando que a fé que se celebra deve se traduzir em defesa da vida, da dignidade e do direito à moradia para todos.










