Segundo o nosso novo livro, “Entre a Beleza e a Sabedoria: Poesia, Educação e Teologia em Tomás de Aquino”, A Eucaristia, como todo sacramento, encontra sua origem e possibilidade não na capacidade ou decisão da Igreja, mas na “vontade de Cristo que a instituiu” (Biffi, 2005). Santo Tomás de Aquino enfatiza a “senhoria de Cristo” como o princípio fundamental de todos os sacramentos, e de modo exemplar na Eucaristia, que ele chama de “sacramento principal” (“potissimum inter sacramenta”) e “vértice” (Biffi, 2005). Com efeito, é “Cristo que opera a eficácia interior dos sacramentos, enquanto Deus e enquanto homem” (Biffi, 2005). Ele é o “instituidor dos sacramentos” por sua “autoridade originária” (“per auctoritatem”), e a “consagração dos sacramentos provém do próprio Deus” (Biffi, 2005).
A humanidade de Jesus, pessoalmente unida a Deus, confere aos sacramentos um “poder do ministério principal” (“potestas ministerii principais”) que supera qualquer outra causalidade, incluindo a dos ministros da Igreja. É por essa razão que Cristo pôde conferir e operar nos sacramentos o “mérito e a força de sua paixão” (Biffi, 2005). Consequentemente, os ministros da Igreja consagram “não por virtude própria, mas como ministros de Cristo, em nome de quem consagram este sacramento” (“in cuius persona consecrat hoc sacramentum”) (Biffi, 2005). A santidade ou indignidade pessoal do ministro não impede a eficácia do sacramento, pois este “pertence à excelência de Cristo” (“hoc ad excellentiam Christi pertinet”) (Biffi, 2005).
Essa doutrina da senhoria de Cristo é poeticamente capturada nos hinos eucarísticos de Tomás. No “Pange, língua”, ele canta a instituição da Eucaristia com as palavras: “Dado a nós e por nós nascido de uma Virgem Imaculada, transcorrida no mundo sua vida e espalhada a semente da Palavra, admiravelmente concluiu sua permanência. Na noite da última ceia, jazendo à mesa com os irmãos, observada fielmente com os alimentos rituais a lei antiga, doa a si mesmo em alimento aos doze”.
De modo semelhante, no “Verbum supernum”, Tomás descreve: “O Verbo celeste, vindo do Pai, e sempre à sua direita, levando a cumprimento sua obra, chegou à noite da vida. Um dos discípulos o entregava aos seus inimigos para ser morto, e ele se ofereceu a eles em alimento de vida” (Biffi, 2005).
Desse modo, pode-se dizer que a “forma deste sacramento é pronunciada em nome do próprio Cristo que fala, para que se compreenda que o ministro, ao realizar este sacramento, nada mais faz senão proferir as palavras de Cristo” (Biffi, 2005). Tomás esclarece que as palavras de Cristo, “Este é o meu corpo”, não são meramente simbólicas, mas operativas de uma “presença real – substancial – do acontecimento da paixão na pessoa do Cristo que sofreu” (Biffi, 2005). O poder da consagração reside na “potestade de Cristo que ali assiste” (Biffi, 2005). Isso refuta a heresia de Berengário, que concebia uma presença puramente sob a forma de sinal. Para Tomás, “os sacramentos da nova Lei causam aquilo que significam” (Biffi, 2005), e por isso superam os da antiga Aliança.
A união da teologia e da poesia em Tomás permite que ele transmita a complexidade doutrinária com uma clareza e emoção que ressoam com a fé dos fiéis. A Eucaristia é, assim, um ato pessoal de Jesus Cristo Senhor, do qual “deriva todo o valor do sacramento”, e no qual os celebrantes “dependem dele”, e toda a ação sacramental “está a seu serviço” (Biffi, 2005).





