No curso de História da Teologia no Brasil, que ofereceremos em breve, online, revisitaremos figuras que marcaram decisivamente o pensamento cristão em nosso país. Entre elas, destaca-se Dom Odilão Moura, OSB, monge beneditino cuja vida uniu, de modo exemplar, contemplação e inteligência, tradição e diálogo, fidelidade e abertura. Sua trajetória tornou-se referência para gerações de estudantes, religiosos e intelectuais.
Dom Odilão ingressou ainda jovem no Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, onde recebeu formação monástica e teológica segundo a tradição beneditina. Ali, sua vocação intelectual floresceu em íntima relação com a vida espiritual. Para ele, o estudo não era um exercício meramente acadêmico, mas parte integrante da busca por Deus. Sua formação filosófica e teológica, marcada pelo contato profundo com a patrística e com o pensamento de Santo Tomás de Aquino, moldou o estilo que o tornaria conhecido: rigor conceitual, clareza didática e fidelidade ao Magistério da Igreja.
Como professor, atuou em instituições como a PUC-Rio, a Universidade Católica de Petrópolis e a Universidade Santa Úrsula, contribuindo para a formação de profissionais de diversas áreas — de seminaristas a juristas, de engenheiros a filósofos. Sua docência era reconhecida pela capacidade de tornar acessível o pensamento clássico sem empobrecê-lo. Não simplificava a tradição; iluminava-a. Sua presença entre os fundadores da Academia Brasileira de Filosofia, ocupando a cadeira 32, confirma sua relevância no cenário intelectual brasileiro.
O núcleo mais visível de sua contribuição está nas traduções e comentários das obras de Santo Tomás de Aquino. Graças a Dom Odilão, textos fundamentais como a “Suma Contra os Gentios”, o “Compêndio de Teologia”, “O Ente e a Essência” e a “Exposição sobre o Credo” ganharam versões em português de grande precisão e elegância. Suas introduções e notas orientavam o leitor contemporâneo, oferecendo chaves de leitura que conciliavam fidelidade ao texto original e sensibilidade pedagógica. Por isso, sua obra é considerada um marco na recepção da doutrina de Tomás de Aquino no Brasil.
Mas Dom Odilão não se limitou ao ambiente acadêmico. Em sua maturidade, dedicou-se também à ação social, especialmente na Cidade dos Meninos, em Duque de Caxias, onde trabalhou por anos com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. Ali, o mestre se fez servidor; o intelectual, cuidador. Sua atuação mostrava que a sabedoria cristã não se esgota na especulação, mas se realiza plenamente no compromisso concreto com a dignidade humana.
A marca de Dom Odilão foi a integração. Integração entre fé e razão, entre tradição e modernidade, entre liturgia e ação social. Para muitos, ele foi um intérprete privilegiado de Tomás de Aquino: alguém que pensava com a mente de filósofo, ensinava com a precisão de um teólogo e vivia com o coração de um monge.
Dom Odilão Moura permanece como testemunho de que é possível — e necessário — superar dicotomias estéreis. Sua vida convida a reconhecer que a verdadeira sabedoria nasce da unidade interior, onde contemplação e ação pastoral e social deixam de ser opostos e se tornam dimensões complementares de uma mesma busca pela verdade.





