Notícias › 02/06/2020

São João Maria Vianney, o Cura D’Ars

PALESTRA AOS CLERO DE PETRÓPOLIS  2/6/2020 – SÃO JOÃO MARIA VIANNEY, O CURA D’ARS

Por que a Igreja o colocou como modelo e patrono?

  1. SACERDOTII NOSTRI PRIMORDIA (SÃO JOÃO XXIII – 1959)

Coincidências significativas

  1. As puríssimas alegrias que acompanharam copiosamente as primícias do nosso sacerdócio estão para sempre associadas, em nossa memória, à emoção profunda que experimentamos a 8 de janeiro de 1905 na Basílica Vaticana, por ocasião da gloriosa Beatificação daquele humilde sacerdote da França que foi João Maria Batista Vianney. Elevados nós mesmos ao sacerdócio havia apenas alguns meses, fomos atraídos pela admirável figura sacerdotal que o nosso predecessor s. Pio X, o antigo pároco de Salzano, era tão feliz em propor como modelo a todos os pastores de almas. E, a tantos anos de distância, não podemos evocar essa recordação sem agradecer ainda ao nosso Divino Redentor, como graça insigne, o impulso espiritual assim impresso, desde o princípio, à nossa vida de sacerdote.
  2. … no princípio desse ano de 1905, nos dirigimos pela primeira vez em peregrinação a Ars, a modesta aldeia que o seu santo pároco tornou para sempre tão célebre.
  3. Por nova disposição providencial, no ano em que recebíamos a plenitude do sacerdócio, o Papa Pio XI de gloriosa memória, a 31 de maio de 1925, procedia à solene canonização do “pobre cura de Ars”. Na sua homilia, o Pontífice comprazia-se em descrever “a frágil figura corpórea de João Batista Vianney, a cabeça resplandecente com uma espécie de coroa branca de longos cabelos, a face emaciada e cavada pelos jejuns, mas em que tão bem se refletiam a inocência e santidade de um espírito tão humilde e tão suave que, logo à primeira vista as multidões se sentiam movidas a salutares pensamentos”.[1]Pouco depois, o mesmo Pontífice, no ano do seu jubileu sacerdotal, completava a iniciativa já tomada por s. Pio X quanto aos párocos da França e estendia a todo o mundo o celeste patrocínio de s. João Batista Vianney “para promover o bem-espiritual dos párocos no mundo inteiro” ( Carta Apost Anno Jubilari).
  4. … neste centenário da morte do santo cura de Ars. Com efeito, a 4 de agosto de 1859, entregava ele a alma a Deus, consumido pelas fadigas de um excepcional ministério pastoral de mais de quarenta anos e rodeado de unânime veneração.
  5. … ao dirigir-vos esta carta, o nosso espírito e o nosso coração se volvam especialmente para os sacerdotes, nossos filhos caríssimos, a fim de os exortar a todos instantemente – e sobretudo aos que estão empenhados no ministério pastoral – a meditar os admiráveis exemplos de um irmão no sacerdócio, tornado seu celeste patrono.

Ensinamentos deste centenário

  1. São já numerosos os documentos pontifícios que lembram aos padres as exigências do seu estado e os guiam no exercício do seu ministério… Mas consentir-nos-eis que evoquemos aqui, com a alma emocionada, o último discurso que a morte impediu Pio XII de pronunciar: “… O clérigo deve ser tido como um eleito entre o povo, cumulado dos dons sobrenaturais e participante do poder divino, numa palavra, um ‘outro Cristo’… Já não pertence a si, nem aos parentes e amigos, nem mesmo à sua pátria. Deve consumi-lo um amor universal. Mais ainda, a caridade universal será o seu respiro, os seus pensamentos, a vontade, os sentimentos deixam de ser seus, para serem de Cristo, que é a sua vida”.  S. João Maria Vianney atrai-nos e impele-nos a todos para estes cimos da vida sacerdotal… Possa essa nossa carta encíclica ajudá-los a todos a perseverar e a crescer nesta amizade divina que constitui a alegria e a força de toda a vida sacerdotal.

Finalidade da encíclica

  1. A Igreja, que glorificou este padre “admirável pelo seu zelo pastoral e seu ininterrupto desejo de oração e de penitência”, tem hoje a alegria, passado um século sobre a sua morte, de o apresentar aos padres de todo o mundo como modelo de ascese sacerdotal, de piedade, e sobretudo de piedade eucarística, modelo enfim de zelo pastoral.
  2. ASCESE SACERDOTAL

Conselhos evangélicos e santidade sacerdotal

  1. Falar de s. João Maria Vianney ‚ evocar a figura de um padre excepcionalmente mortificado que, por amor de Deus e pela conversão dos pecadores, se privava de alimento e sono, se impunha rudes penitências e, sobretudo, levava a renúncia de si mesmo a um grau heroico. Se é certo que comumente não é pedido a todos os féis que sigam este caminho, a divina Providência dispôs que nunca faltem no mundo pastores de almas que, levados pelo Espírito Santo, não hesitem em encaminhar-se por estas vias, porque tais homens operam com este exemplo o regresso de muitos, que se convertem da sedução dos erros e dos vícios para o bom caminho e a prática da vida cristã! A todos, o exemplo admirável de renúncia do cura de Ars, “severo para consigo e bondoso para com os outros”,lembra de forma eloquente e urgente o lugar primordial da ascese na vida sacerdotal. Pio XII: “O clérigo, portanto, não está ligado, por direito divino, aos conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência. Mas seria deformar o genuíno pensamento deste Pontífice, tão cioso da santidade dos padres, e o ensino constante da Igreja, acreditar que o padre secular é menos chamado à perfeição do que o religioso. A realidade é totalmente diversa, porque o exercício das funções sacerdotais “requer uma maior santidade interior, do que aquela exigida pelo estado religioso”.E se, para atingir esta santidade de vida, a prática dos conselhos evangélicos não é imposta ao padre em virtude do seu estado clerical, não obstante ela apresenta-se a ele e a todos os discípulos do Senhor, como o caminho mais seguro para alcançar a desejada meta da perfeição cristã. Aliás, para nossa grande consolação, quantos padres generosos o compreenderam no presente, não deixando por isso de continuar nas fileiras do clero secular e pedindo a pias associações aprovadas pela Igreja que os guiem e sustentem nos caminhos da perfeição!
  2. Convencidos de que “a grandeza do sacerdócio está na imitação de Jesus Cristo“, os padres estarão, pois, mais do que nunca, atentos aos apelos do divino Mestre: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me…” (Mt16, 24). O santo cura d’Ars, segundo se afirma, “tinha meditado muitas vezes estas palavras de nosso Senhor e esforçava-se por pô-las em prática”.Deus concedeu-lhe a graça de se conservar heroicamente fiel a elas; e o seu exemplo guia-nos ainda no caminho da ascese onde ele, resplandeceu brilhantemente pela pobreza, castidade e obediência.
  3. João Maria Vianney, exemplo de pobreza evangélica
  4. Primeiramente tendes o exemplo de pobreza, virtude pela qual o humilde cura d’Ars, se tornou digno êmulo do patriarca de Assis, de quem foi, na Ordem Terceira, discípulo fiel.  Rico para dar aos outros, mas pobre para si mesmo, viveu num total desprendimento dos bens deste mundo, e o seu coração verdadeiramente livre abria-se com generosidade a todos os que, afligidos por misérias materiais ou espirituais vinham até ele de toda a parte em busca de remédio. “O meu segredo é bem simples, dizia ele, é dar tudo e nada guardar“. O seu desinteresse fazia-o atender a todos os pobres, sobretudo os da sua paróquia, aos quais testemunhava extrema delicadeza, tratando-os “com verdadeira ternura, com os maiores cuidados e até com respeito”. Recomendava que nunca deixassem de ter atenções para com os pobres, porque tal falta recai sobre Deus; e, quando um miserável batia à sua porta, sentia-se feliz, ao recebê-lo, com bondade, por lhe poder dizer: “Sou pobre como vós; hoje sou um dos vossos!”.No fim da sua vida, comprazia-se em repetir: “Estou muito satisfeito; já não tenho nada de meu; Deus pode chamar-me quando quiser”. Por isso, veneráveis irmãos, podereis compreender como, de todo o coração, exortamos nossos queridos filhos do sacerdócio católico, a meditar num tal exemplo de pobreza e caridade. “A experiência cotidiana atesta – escrevia Pio XI, ao pensar no cura d’Ars – que a ação dos sacerdotes de vida modesta, os quais, segundo a doutrina evangélica, não procuram absolutamente seus próprios interesses, redunda em extraordinários benefícios para o povo cristão”. E o mesmo Pontífice, considerando o estado da sociedade contemporânea, dirigia também aos padres este grave aviso: “Ao ver que os homens vendem e compram, tudo pelo dinheiro, os padres caminhem desinteressadamente pelos engodos do vício, e desprezando todo baixo desejo de ganhar, busquem almas e não dinheiro, a glória de Deus e não a sua!” 

Aplicações aos padres de hoje

  1. Estas palavras devem estar inscritas no coração de todos os padres. Se há alguns que possuem legitimamente bens pessoais, que não se prendam a eles! Que se lembrem, antes, da obrigação que formula o Direito Canônico, a propósito dos benefícios eclesiásticos, “de dispender o supérfluo com os pobres ou com as obras pias”.E queira Deus que nenhum mereça a censura do santo pároco às suas ovelhas: “Quantos têm dinheiro guardado, e tantos pobres a morrer de fome!”. Mas nós sabemos que muitos padres vivem, de fato, em condições de verdadeira pobreza. A glorificação de um dos seus, que voluntariamente se despojou de tudo e se regozijava com o pensamento de ser o mais pobre da paróquia, será para eles um providencial estímulo para se dedicarem à prática de uma pobreza evangélica. E se a nossa paternal solicitude pode servir-lhes de conforto, saibam quanto nos regozijamos pelo seu desinteresse no serviço de Cristo e da Igreja.

Sua castidade angélica

  1. S. João Maria Vianney, pobre de bens materiais, foi igualmente exemplo de voluntária mortificação da carne. “Não há senão uma maneira de se dar a Deus no exercício da renúncia e do sacrifício – dizia ele – isto é, dar-se totalmente”. E, em toda a sua vida, praticou, em grau heroico, a ascese da castidade.
  2. O seu exemplo sobre este ponto parece, particularmente oportuno, porque, em bastantes regiões, infelizmente, os padres são obrigados a viver, em virtude do seu cargo, num mundo onde reina uma atmosfera de excessiva liberdade e sensualidade. E a palavra de s. Tomás‚ para eles cheia de verdade: “É por vezes mais difícil viver virtuosamente tendo cura de almas, por causa dos perigos exteriores”. Além disso, muitas vezes, estão moralmente sós, pouco compreendidos, pouco amparados pelos fiéis a quem se dedicam. A todos, e, sobretudo, aos mais isolados e mais expostos, nós dirigimos um apelo premente, para que toda a sua vida seja um puro testemunho dessa virtude a que s. Pio X chamava “o mais belo ornamento da nossa ordem“. … É preciso, a todo o custo, combater os perigos do isolamento, denunciar as imprudências, afastar as tentações da ociosidade ou os riscos do excesso de trabalho.
  3. Foi dito do cura d’Ars: “A castidade brilhava no seu olhar“. Na verdade, quem estuda a sua personalidade fica surpreendido, não só pelo heroísmo com que este padre subjugava seu corpo (cf. 1 Cor 9,27), mas ainda pela força da convicção com que conseguia que a multidão dos seus penitentes o seguisse. É que ele sabia, por uma longa prática do confessionário, os males causados pelos pecados da carne. Por isso de seu peito saíam estes gemidos: “Se não houvesse almas puras que aplacassem a Deus ofendido pelos nossos pecados, quantos e quão terríveis castigos teríamos nós que suportar!”. “A mortificação tem um bálsamo e um sabor de que não podem prescindir os que alguma vez os conheceram… Neste caminho, o que custa ‚ o primeiro passo”.
  4. Esta ascese necessária da castidade, longe de fechar o padre num estéril egoísmo, torna o seu coração mais aberto e mais acessível a todas as necessidades dos seus irmãos. Dizia otimamente o cura d’Ars: “Quando o coração é puro não pode deixar de amar, porque encontrou a fonte do amor, que é Deus”.
  5. Que benefício para a sociedade humana ter assim, no seu seio, homens que, livres das solicitações temporais, se consagram inteiramente ao serviço de Deus. O santo cura d’Ars exclamava: “O sacerdócio ‚ o amor do Coração de Jesus!”

Seu espírito de obediência

  1. São numerosos os testemunhos sobre o espírito de obediência do santo, podendo afirmar-se que para ele a exata fidelidade ao “prometo” da ordenação foi motivo para uma permanente renúncia de quarenta anos. Durante toda a sua vida, com efeito, aspirou à solidão de um santo retiro, e as responsabilidades pastorais foram para ele pesado fardo, do qual por várias vezes tentou libertar-se. Mas sua obediência total ao Bispo foi mais admirável. Por isso, veneráveis irmãos, temos o prazer de relatar algumas testemunhas da sua vida: Desde a idade de quinze anos este desejo (da solidão) estava no seu coração para o atormentar e tirar-lhe a felicidade de que poderia gozar na sua posição“. Mas “Deus não permitiu que pudesse realizar tal desígnio. A divina Providência queria sem dúvida que, sacrificando o seu gosto à obediência, o prazer ao dever, João M. Vianney tivesse constantemente ocasião de se vencer”. “Vianney continuou cura d’Ars com obediência cega e assim ficou até à morte”.
  2. Esta total adesão à vontade dos superiores era, convém afirmá-lo, inteiramente sobrenatural no seu motivo: era um ato de fé na palavra de Cristo que dizia aos seus apóstolos: “Quem vos ouve, ouve a mim” (Lc10,16), e, para ser-lhe fiel costumava habitualmente renunciar à sua própria vontade na aceitação do seu pesado encargo do confessionário e em todas as tarefas cotidianas onde a colaboração entre confrades torna o apostolado mais frutuoso.
  3. Pio XII atesta que “a santidade da vida pessoal e a eficácia do apostolado têm por base e sustentáculo a obediência constante e exata à sagrada hierarquia”. Deveis também recordar-vos, veneráveis irmãos, com quanta força os nossos últimos predecessores denunciaram os graves perigos do espírito de independência no clero, tanto para o ensino da doutrina como para os métodos de apostolado e para a disciplina eclesiástica.
  4. Não desejamos insistir mais sobre este ponto, preferindo exortar nossos filhos que foram chamados ao sacerdócio a desenvolver em si mesmos o sentido filial de que pertencem à Igreja, nossa mãe. Dizia-se do Cura d’Ars que ele só vivia na Igreja e só para a Igreja trabalhava, como palha que se consome no fogo. Padres de Jesus Cristo, nós estamos no braseiro que o fogo do Espírito Santo anima; tudo recebemos da Igreja; só agimos em seu nome e pelos poderes que ela nos conferiu: esforcemo-nos para servi-la nos laços da unidade e pela forma por que ela deseja ser servida.
  5. ORAÇÃO E CULTO EUCARÍSTICO
  6. Homem de penitência, s. João Maria Vianney tinha igualmente compreendido que “o padre, antes de tudo, deve ser homem de oração“. Todos conhecem as longas noites de adoração que, este jovem pároco duma aldeia, então pouco cristã, passava diante do Santíssimo Sacramento. O sacrário da sua igreja tornou-se o foco da sua vida pessoal e do seu apostolado, a ponto de não se poder evocar justamente a paróquia de Ars no tempo do Santo, senão por estas palavras de Pio XII sobre a paróquia cristã: “O centro é a igreja e, na igreja, o sacrário e, ao lado, o confessionário onde se restitui a vida sobrenatural ou a saúde ao povo cristão”.

A oração nos exemplos e no ensino do cura d’Ars

  1. Aos padres deste século, que costumam exagerar a eficácia da ação e que tão facilmente se entregam ao mesmo dinamismo exterior do ministério sacerdotal, com prejuízo do seu aproveitamento espiritual, como é oportuno e salutar este modelo de oração assídua numa vida inteiramente votada às necessidades das almas! “O que impede a nós padres de ser santos, é a falta de reflexão. Não entramos em nós mesmos; não sabemos o que fazemos. Precisamos da reflexão, da oração, da união com Deus”. Ele próprio vivia, segundo testemunham os contemporâneos, num estado de contínua oração, do qual não conseguiram distraí-lo, nem o peso extenuante das confissões, nem os outros trabalhos pastorais. “Mantinha uma união constante com Deus no meio da sua vida excessivamente ocupada”.Mas escutemo-lo, porque ele ‚ incansável, quando fala das alegrias e dos benefícios da oração: “O homem é um pobre, que tudo precisa pedir a Deus”. “Quantas almas podemos converter com nossas orações!” E repetia: “A oração, eis toda a felicidade do homem sobre a terra”.  Esta felicidade, gozou-a ele; longamente, enquanto o seu olhar iluminado pela fé contemplava os mistérios divinos e, pela adoração do Verbo encarnado elevava sua alma simples e pura para a Santíssima Trindade, supremo objetivo do seu amor. E os peregrinos, que enchiam a igreja de Ars, compreendiam que o humilde padre lhes confiava alguma coisa do segredo da sua vida interior por esta exclamação frequente, que lhe era tão querida: “Ser amado por Deus, estar unido a Deus, viver na presença de Deus, viver para Deus: oh! que bela vida e que bela morte!” 

O padre é, antes de tudo, um homem de oração

  1. Nós desejaríamos, veneráveis irmãos, que todos os padres das vossas dioceses se deixassem convencer, pelo testemunho do santo cura d’Ars, da necessidade de serem homens de oração e da possibilidade de o serem, qualquer que seja a sobrecarga por vezes extrema dos trabalhos do seu ministério. Mas para isso ‚ necessária uma fé viva, como a que animava João Maria Vianney e o fazia realizar maravilhas. “Que fé! – exclamava um dos seus colegas. Chegaria para enriquecer uma diocese inteira!”
  2. Esta fidelidade à oração é, aliás, para o padre um dever de piedade pessoal, da qual a sabedoria da Igreja salientou muitos pontos importantes, como a oração mental cotidiana, a visita ao Santíssimo Sacramento o terço e o exame de consciência. É mesmo uma obrigação estrita contraída para com a Igreja, quando se trata da recitação diária do ofício divino. Talvez por terem esquecido algumas destas prescrições, certos membros do clero se foram entregando, pouco a pouco, à instabilidade exterior, ao empobrecimento interior, ficando expostos um dia, sem defesa, às tentações desta vida terrena. Pelo contrário, “trabalhando sem cessar pelo bem das almas, João M. Vianney não abandonava a sua. Trabalhava estrenuamente na própria santificação, para ficar assim mais apto a levar os outros a ela”.

 A piedade eucarística do santo cura d’Ars

  1. A oração do cura d’Ars, que passou por assim dizer os trinta últimos anos de vida na igreja onde o retinham os seus inúmeros penitentes, era sobretudo uma oração eucarística. A sua devoção para com nosso Senhor, presente no Santíssimo Sacramento do altar, era verdadeiramente extraordinária. “Está ali – dizia – aquele que tanto nos ama; por que nós não havemos de amá-lo?”  E, por certo, ele amava-o e sentia-se como que irresistivelmente atraído para o sacrário. Explicava ele aos seus paroquianos: “Para bem rezar não há necessidade de falar tanto! Sabemos pela fé que Deus está ali, no sacrário; abrimos-lhe o nosso coração e sentimo-nos felizes por ser admitidos à sua presença. É a melhor maneira de rezar”.  Não perdia ocasião de inculcar aos fiéis o respeito e o amor à divina presença na Eucaristia, convidando-os a aproximarem-se com frequência da Sagrada mesa; e dava-lhes exemplo desta profunda piedade: “Para se convencerem disso, referiram as testemunhas, bastaria vê-lo celebrando a missa, e fazendo a genuflexão ao passar diante do sacrário”. 

Importância da Eucaristia na vida do padre

  1. “O exemplo admirável do santo cura d’Ars conserva ainda hoje todo o seu valor”, atesta Pio XII. Nada poderá substituir na vida de um padre a oração silenciosa e prolongada diante do altar.

DIGRESSÃO:

SÃO JOÃO PAULO II:

Ecclesia de Eucharistia (2003): O culto prestado à Eucaristia fora da Missa é de um valor inestimável na vida da Igreja, e está ligado intimamente com a celebração do sacrifício eucarístico. A presença de Cristo nas hóstias consagradas que se conservam após a Missa – presença essa que perdura enquanto subsistirem as espécies do pão do vinho – resulta da celebração da Eucaristia e destina-se à comunhão, sacramental e espiritual. Compete aos Pastores, inclusive pelo testemunho pessoal, estimular o culto eucarístico, de modo particular as exposições do Santíssimo Sacramento e também as visitas de adoração a Cristo presente sob as espécies eucarísticas. É bom demorar-se com Ele e, inclinado sobre o seu peito como o discípulo predileto (cf. Jo 13, 25), deixar-se tocar pelo amor infinito do seu coração. Se atualmente o cristianismo se deve caracterizar sobretudo pela « arte da oração » (Novo Milenio Ineunte), como não sentir de novo a necessidade de permanecer longamente, em diálogo espiritual, adoração silenciosa, atitude de amor, diante de Cristo presente no Santíssimo Sacramento? Quantas vezes, meus queridos irmãos e irmãs, fiz esta experiência, recebendo dela força, consolação, apoio!   (Dom Romualdo)

Pastores gregis (2003): “O amor do Bispo pela sagrada Eucaristia manifesta-se também quando, durante o dia, dedica uma parte razoavelmente longa do próprio tempo à adoração diante do Sacrário” (15).

Mane nobiscum Domine (2004): “Permaneçamos longamente prostrados diante de Jesus presente na Eucaristia, reparando com a nossa fé e o nosso amor as negligências, esquecimentos e até ultrajes que o nosso Salvador Se vê obrigado a suportar em tantas partes do mundo. Aprofundemos na adoração a nossa contemplação pessoal e comunitária, servindo-nos também de subsídios de oração baseados sempre na Palavra de Deus e na experiência de tantos místicos antigos e recentes. O próprio Rosário, visto no seu sentido profundo, bíblico e cristocêntrico, que recomendei na carta apostólica Rosarium Virginis Mariæ, poderá ser um caminho particularmente adaptado para a contemplação eucarística, atuada em companhia e na escola de Maria”.

  1. Acrescente-se o benefício que daí resulta para os fiéis, testemunhas desta piedade dos seus padres e atraídos pelo seu exemplo. Dizia Pio XII ao clero de Roma: “Se vós quiserdes que os fiéis orem com devoção dai-lhes vós o exemplo, na igreja, fazendo as orações na sua presença. Um padre ajoelhado diante do sacrário, numa atitude exterior respeitosa e em profundo recolhimento, é para o povo objeto de educação, um aviso, um convite à emulação na prece”. Foi esta, por excelência, a arma apostólica do jovem cura d’Ars; não duvidemos do seu valor em todas as circunstâncias.

O sacerdócio e o sacrifício da missa

  1. Mas é bom mostrar nesta Encíclica em que sentido profundo o santo cura d’Ars, heroicamente fiel aos deveres do seu ministério, mereceu na verdade ser proposto como exemplo aos pastores de almas e proclamado seu celeste padroeiro. Com efeito, se é verdade que o padre recebeu o caráter da ordem para o serviço do altar e começou o exercício do seu sacerdócio com o sacrifício eucarístico, este não deixará de ser, durante toda a vida, a base da sua ação apostólica e da sua santificação pessoal. E foi este, precisamente, o caso de s. João Maria Vianney.
  2. A este respeito, o santo cura d’Ars, de dia para dia, cada vez mais se foi empenhando no ensino da fé e na purificação das consciências e, portanto, todos os atos do seu ministério convergiam para o altar. Uma vida assim não pode deixar de ser considerada eminentemente sacerdotal e pastoral. Sem dúvida, em Ars, os pecadores acorriam numerosíssimos à Igreja, atraídos pela fama de santidade do pastor, ao passo que tantos padres têm de consagrar longos e laboriosos esforços para reunir o povo que lhes está confiado e, à maneira de missionários, ensinar os primeiros elementos da doutrina cristã. Mas estes trabalhos apostólicos, tão necessários e por vezes tão difíceis, não podem fazer esquecer aos homens de Deus o fim para o qual devem continuamente tender e que o cura d’Ars atingiu quando, na sua humilde igreja de aldeia, se consagrava às tarefas essenciais da ação pastoral.

A missa, fonte primária da santificação pessoal do padre

37 Era esta a experiência adquirida pelo cura d’Ars que assim a exprimia: “A causa do relaxamento do padre é não prestar atenção à missa”. E o Santo, que tinha o “hábito heróico de oferecer-se em sacrifício pelos pecadores”,  derramava abundantes lágrimas “ao pensar na infelicidade dos padres que não correspondem à santidade da sua vocação”.

  1. Com paternal afeto pedimos aos nossos queridos padres que se examinem periodicamente sobre a forma como celebram os santos mistérios e, especialmente, sobre as disposições espirituais com que sobem ao altar e os frutos que se esforçam por tirar. O centenário deste padre admirável que, “na consolação e felicidade de celebrar a santa missa” encontrava a coragem do seu próprio sacrifício, a isso os convida: temos íntima confiança que a sua intercessão lhes alcançará abundantes graças de luz e de força.

III. ZELO PASTORAL 

O santo cura d’Ars modelo de zelo apostólico

  1. Esta vida de ascese e de oração, cujos exemplos acabamos de expor, mostra claramente o segredo do zelo pastoral de s. João Maria Vianney e da extraordinária eficácia sobrenatural do seu ministério… A vida do cura d’Ars confirma, uma vez mais, esta grande lei de todo o apostolado, fundada na própria palavra de Jesus: “Sem mim, nada podeis fazer ” (Jo15,5).
  2. Sem dúvida, não se trata aqui de relembrar a admirável história deste humilde pároco de aldeia, cujo confessionário foi, durante trinta anos, assediado por multidões tão numerosas que certos espíritos fortes da época ousaram acusá-lo de “perturbar o século XIX”, nem de tratar de todos os métodos de apostolado, com que ele se desempenhava do seu ofício e que nem sempre se podem aplicar em nossos dias. Basta-nos lembrar, sobre este ponto, que o Santo foi no seu tempo um modelo de zelo pastoral nesta aldeia de França, onde a fé e os costumes se ressentiam ainda dos abalos da Revolução. Não há muito amor de Deus nessa paróquia, tereis vós de o despertarlhe disseram quando para lá o mandaram. Apóstolo infatigável, hábil e sagaz para conquistar a juventude e santificar os lares, atento às necessidades humanas das suas ovelhas, próximo da sua vida, trabalhando sem descanso por estabelecer escolas cristãs e promover missões paroquiais, ele foi na verdade, para o seu pequenino rebanho, o bom pastor, que conhece suas ovelhas e as livra dos perigos e conduz com fortaleza e suavidade. Sem dar por isso, não fazia ele seu próprio elogio nesta apóstrofe de um dos seus sermões: “Um bom pastor, um pastor segundo o coração de Deus: eis o maior tesouro que Deus pode conceder a uma paróquia”?
  3. O exemplo do cura d’Ars conserva, na verdade, um valor permanente e universal sobre três pontos essenciais, que nos apraz, veneráveis irmãos, propor à vossa consideração.

Sentido apurado das suas responsabilidades pastorais

  1. O que em primeiro lugar impressiona é o sentido apurado que ele tinha das suas responsabilidades pastorais. A humildade e o conhecimento sobrenatural do valor das almas fizeram-no levar com receio o ônus de pároco. “Meu amigo – confiava ele a um colega -, não sabeis o que é passar duma paróquia para o tribunal de Deus!”Todos sabemos o desejo, que durante muito tempo o atormentou, de fugir para um lugar retirado para aí “chorar a sua pobre vida”, e como a obediência e o zelo das almas o reconduziram sempre ao seu posto.
  2. Mas se, em certas horas, ele se sentiu assim acabrunhado pelo seu cargo excepcionalmente pesado, é precisamente porque tinha uma concepção heroica do seu dever e das suas responsabilidades de pastor. Com efeito, nos primeiros anos de seu ofício paroquial elevava aos céus a prece suplicante: “Meu Deus, concedei-me a conversão da minha paróquia, sujeito-me a sofrer o que quiserdes, durante toda a minha vida!” E obteve do céu essa conversão. Mas, mais tarde, confessava: “Quando vim para Ars, se tivesse previsto os sofrimentos que lá me esperavam, teria morrido imediatamente, de medo?” A exemplo dos apóstolos de todos os tempos, ele via na cruz o grande meio sobrenatural de cooperar na salvação das almas que lhe estavam confiadas. Por elas, sofria, sem se queixar, calúnias, incompreensões e contradições; por elas, aceitou o verdadeiro martírio físico e moral de uma presença quase ininterrupta no confessionário, todos os dias, durante trinta anos; por elas, lutou como atleta do Senhor contra os poderes infernais; por elas, mortificou seu corpo. E é conhecida a sua resposta a um colega que se queixava da pouca eficácia do seu ministério: “Rezastes, chorastes, gemestes, suspirastes. Mas porventura jejuastes, fizestes vigílias, dormistes sobre o chão duro, fizestes penitências corporais? Enquanto não o fizerdes, não julgueis que fizestes tudo!”
  3. Dirigimo-nos a todos os padres, que têm cura de almas e incitamo-los a entender a força ínsita nessas graves palavras! Examine cada um, segundo a prudência sobrenatural que sempre deve regular nossas ações, a sua vida, e veja se é tal como a exige a solicitude pastoral do povo que lhe está confiado. Sem nunca duvidar da misericórdia divina que vem em auxílio da nossa fraqueza, e pondo os olhos em s. João Maria Vianney, como num espelho, considere, a responsabilidade do cargo que assumiu. “O grande mal para nós, párocos, deplorava o Santo, é que a alma se deixe entibiar”. Considerava isso um estado perigoso do pastor a quem não impressiona ver tantas ovelhas que lhe estão confiadas vivendo na sordidez do pecado. E, para melhor entender ainda os ensinamentos do cura d’Ars, que “estava convencido que, para fazer bem aos homens, é preciso amá-los”,examine-se cada um sobre a caridade que o anima para com aqueles que Deus confiou aos seus cuidados e pelos quais Cristo morreu!

Pregador e catequista infatigável

  1. “Sempre pronto a corresponder às necessidades das almas”, João Maria Vianney, como bom pastor, primou em procurar-lhes com abundância o alimento primordial da verdade religiosa. Durante toda a sua vida, foi pregador e catequista.
  2. Conhece-se o trabalho solícito e perseverante a que se obrigou para bem cumprir este dom do seu cargo, “primeiro e máximo dever“, segundo o Concílio de Trento. Seus estudos, tardiamente feitos, foram laboriosos, e os sermões custaram-lhe no começo não poucas vigílias. Mas que exemplo para os ministros da palavra de Deus! Alguns não hesitam em desculpar, sem razão, a falta de zelo nos estudos, invocando a pouca erudição do Santo. Deveriam antes imitar a coragem com que se tornou apto para tão grande ministério, segundo a medida dos dons que lhe foram repartidos, estes, aliás, não eram tão poucos como por vezes se afirma, porque “tinha uma inteligência límpida e clara”.
  3. Em todo o caso, cada padre tem o dever de adquirir e desenvolver os conhecimentos gerais e a cultura teológica proporcionada às suas aptidões e funções. E praza a Deus que os pastores de almas façam sempre tanto como fez o cura d’Ars para desenvolver a capacidade da sua inteligência e fortalecer a memória com o exercício, sobretudo para tirar a iluminação do melhor de todos os livros que é a cruz de Cristo! O seu bispo dizia dele a alguns dos seus detratores: “Não sei se é instruído, mas o que é certo é que brilha com luz do céu”.
  4. Foi com toda a razão que o nosso predecessor de feliz memória, Pio XII, não hesitou em apresentar como modelo aos pregadores da cidade eterna o humilde pároco de aldeia. “O santo cura d’Ars não tinha, por certo, o gênio natural dum P. Ségneri ou dum Benigno Bossuet; mas a convicção viva, clara e profunda, de que estava animado, vibrava na sua palavra, brilhava nos seus olhos, sugeria à sua imaginação e sensibilidade ideias, imagens, comparações justas, apropriadas, deliciosas, que teriam encantado um s. Francisco de Sales. Tais pregadores conquistam o auditório. Àquele que está cheio de Cristo não será difícil conquistar os outros para Cristo”. Estas palavras descrevem à maravilha o cura d’Ars, catequista e pregador. Quando, no fim da vida com a voz enfraquecida, já não se podia fazer ouvir por todo o auditório, era ainda pelo olhar de fogo, pelas lágrimas, pelos gemidos de amor de Deus ou pela expressão de dor ao simples pensamento do pecado, que convertia os fiéis atraídos para junto da sua cátedra. Com efeito, quem não ficará impressionado pelo testemunho duma vida tão inteiramente votada ao amor de Cristo?
  5. Até à santa morte, s. João Maria Vianney conservou-se assim fiel à missão de instruir o povo e os peregrinos que enchiam a sua igreja, a denunciar “a tempo e fora de tempo” (2 Tm 4,2), o mal sob todas as formas, sobretudo a elevar as almas para Deus, porque “preferia antes mostrar o lado atraente da virtude, do que a fealdade do vício”. Este humilde padre tinha, com efeito, compreendido em alto grau a dignidade e a grandeza do ministério da Palavra de Deus: “Nosso Senhor, que é a própria Verdade – dizia ele – não faz menos caso da sua Palavra do que do seu corpo”.
  6. Compreende-se assim a alegria dos nossos predecessores, oferecendo este pastor de almas como modelo aos padres, porque é de suma importância que o clero seja, em toda a parte e em todos os tempos, fiel ao seu dever de ensinar. Dizia a este propósito s. Pio X: “Importa pôr em relevo, e com insistência, este ponto essencial: um padre, seja quem for, não tem missão mais importante, nem mais estrita obrigação”. Este vibrante apelo, constantemente renovado pelos nossos predecessores, e de que se faz eco o Direito Canônico,  nós vo-lo dirigimos, veneráveis irmãos, neste ano centenário do santo catequista e pregador de Ars. Encorajamos as tentativas feitas com prudência, sob a vossa orientação, em vários países, para melhorar as condições do ensino religioso dos jovens e dos adultos, nas suas diversas formas e tendo em conta os diferentes ambientes. Mas, por muito úteis que sejam tais trabalhos, Deus faz-nos lembrar, neste centenário do cura d’Ars, o irresistível poder apostólico de um padre que, tanto pela sua própria vida como pelas suas palavras, presta homenagem a Cristo crucificado não com “a persuasiva linguagem da sabedoria, mas com uma demonstração do poder do Espírito” (l Cor 2,4).

Incansável apóstolo do confessionário

  1. Por último, resta-nos evocar na vida de s. João Maria Vianney este aspecto do ministério pastoral, que para ele, durante muitos anos de sua vida, foi como um longo martírio e fica para sempre ligado à sua memória: a administração do sacramento da penitência, que dele recebeu singular brilho e produziu os mais abundantes e salutares frutos. “Em média, cada dia, passava quinze horas no confessionário. Este labor cotidiano começava de madrugada e só acabava à noite”. E quando caiu esgotado, cinco dias antes de morrer, os últimos penitentes aglomeravam-se à cabeceira do moribundo. Calculou-se que no final da vida, o número anual dos peregrinos atingisse oitenta mil.
  2. Dificilmente se podem imaginar as contrariedades e os sofrimentos físicos destas intermináveis horas no confessionário, para um homem já esgotado pelos jejuns, macerações, enfermidades, e falta de sono… Mas, acima de tudo, ele sentia-se como moralmente esmagado pela dor. Escutai a sua lamentação: “Ofende-se tanto a Deus, que quase nos sentimos tentados a pedir o fim do mundo!..É preciso vir a Ars para se saber o que é o pecado e a sua multidão quase infinita… Não se sabe o que se deve fazer: só se pode chorar e rezar”. O santo esquecia-se de acrescentar que tomava também sobre si uma parte da expiação: “Pela minha parte – contava ele a quem lhe pedia conselho – dou-lhes uma penitência pequena e o resto faço-a eu por eles”.
  3. Na verdade, o cura d’Ars não vivia senão para os “pobres pecadores”, como ele dizia, na esperança de os ver converter-se e chorar. A sua conversão era “o fim para o qual convergiam todos os seus pensamentos e a obra em que dispendia todo o tempo e todas as forças”. É que, com efeito, ele sabia, pela experiência do confessionário, toda a malícia do pecado e as suas horrorosas devastações no mundo das almas. Falou disso em termos terríveis: “Se tivéssemos fé e víssemos uma alma em estado de pecado mortal, morreríamos de pavor!”
  4. Mas a acuidade da sua dor e a veemência da sua palavra provinham menos do receio das penas eternas que ameaçam o pecador endurecido, do que da emoção que sentia com o pensamento do amor divino ignorado e ofendido. Ante a obstinação do pecador e a sua ingratidão para com um Deus tão bom, as lágrimas brotavam-lhe dos olhos: “Oh, meu amigo – dizia ele – eu choro, porque vós não chorais!”  Mas, pelo contrário, com que delicadeza e fervor ele fazia a esperança renascer nos corações arrependidos! Incansavelmente, tornava-se junto deles o ministro da misericórdia divina, que é, dizia ele, poderosa “como uma torrente saída do leito, que arrasta os corações na sua passagem” e mais terna do que a solicitude de uma mãe, porque Deus é “mais pronto em perdoar do que uma mãe em tirar seu filho do fogo”.
  5. Seguindo o exemplo do santo cura d’Ars, os pastores de almas deverão tomar a peito consagrar-se, com competência e dedicação, a este ministério tão grave, porque é aí que, finalmente, a misericórdia divina triunfa da malícia dos homens e que o pecador ‚ reconciliado com Deus. Recordemos, igualmente, que nosso predecessor Pio XII condenou “com palavras bem duras” a opinião errônea segundo a qual não se deveria fazer tanto caso da confissão freqüente das faltas veniais: “Para avançar com ardor crescente no caminho da virtude, recomendamos vivamente este piedoso costume da confissão freqüente, introduzido pela Igreja não sem a inspiração do Espírito Santo”. [89]Enfim, ousamos esperar que os ministros do Senhor serão os primeiros a ser fiéis, segundo as prescrições canônicas, à prática regular e fervorosa do sacramento da penitência, tão necessário à sua santificação, e que tomarão na maior conta as insistentes recomendações que, muitas vezes e com sofrimento, Pio XII lhes dirigiu com esta finalidade.

Conclusão

  1. Ao terminar esta carta, veneráveis irmãos, desejamos afirmar-vos a nossa viva esperança de que, pela graça de Deus, este centenário da morte do santo cura d’Ars despertará em todos os padres o desejo de cumprir mais generosamente o seu ministério e, sobretudo, este “primeiro dever que é trabalhar na sua própria santificação”.

Exortações

  1. É a esses padres tão amados e sobre os quais se fundam tantas esperanças de progresso na Igreja, que ousamos pedir, em nome de Cristo Jesus, inteira fidelidade às exigências espirituais da sua vocação sacerdotal. Estas palavras cheias de sabedoria de s. Pio X realçam o nosso apelo: “Para fazer reinar Jesus Cristo no mundo, nada é mais necessário do que um clero santo, que seja, com o exemplo, com a palavra e com a ciência, guia dos fiéis”. Quase o mesmo dizia s. João Maria Vianney ao seu bispo: “Se quiserdes converter a vossa diocese, será preciso tornar santos todos os vossos párocos!”.
  2. Por certo, a condição do padre é muitas vezes difícil. Não é para admirar que seja o primeiro alvo visado pelos inimigos da Igreja, porque, dizia o cura d’Ars, quando se quer destruir a religião, começa-se por atacar o padre.
  3. Não pretendemos desenvolver aqui este apelo, que é também o vosso, veneráveis irmãos. Mas estamos certos de que compreendereis e partilhareis a ansiedade do nosso coração e todo o poder de convicção que desejaríamos pôr nestas poucas palavras. É a s. João Maria Vianney que confiamos esta causa tão grave e da qual depende o futuro de tantos milhares de almas!

Oração e bênção  1830: Rue de Bac. 1856: Ars. 1854: Dogma. 1858: Lourdes

  1. Para a Virgem Imaculada volvemos agora os nossos olhares. Pouco antes de o cura d’Ars acabar a sua longa carreira, cheia de merecimentos, ela apareceu numa outra região de França a uma donzela humilde e pura, para lhe comunicar uma mensagem de oração e de penitência, cuja imensa repercussão espiritual ‚ bem conhecida desde há um século. Na verdade, a existência do santo padre, cuja memória estamos celebrando, era antecipadamente uma viva ilustração das grandes verdades sobrenaturais confiadas à vidente de Massabielle! Ele próprio tinha pela Imaculada Conceição da Santíssima Virgem uma viva devoção, ele que, em 1836, consagrara a sua paróquia a Maria concebida sem pecado, devia acolher com tanta fé e alegria a definição dogmática de 1854. [94]
  2. Desta forma, comprazemo-nos em unir no pensamento e na nossa gratidão para com Deus estes dois centenários, de Lourdes e de Ars, que se sucederam providencialmente e honraram grandemente a nação tão querida ao nosso coração, à qual pertencem estes lugares tão santos. Lembrado de tantos benefícios obtidos e na esperança de novas graças, faremos nossa a invocação mariana, que era familiar ao santo cura d’Ars: “Bendita seja a santíssima imaculada conceição da bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus! Que todas as nações glorifiquem, que toda a terra invoque e bendiga o vosso Coração Imaculado!”.
  3. Com a mais viva esperança de que este centenário da morte de s. João Maria Vianney possa despertar, em todo o mundo, uma renovação de fervor nos padres e nos jovens chamados ao sacerdócio, e também que possa suscitar por parte de todos os fiéis uma atenção maior e mais ativa para os problemas da vida e do ministério dos padres, nós de todo o coração concedemos a todos, e em primeiro lugar a vós, veneráveis irmãos, como penhor das graças celestes e da nossa benevolência, a bênção apostólica.

Dada em Roma, junto de S. Pedro, no dia 1° de agosto do ano de 1959, ano I do nosso Pontificado.    JOÃO PP. XXIII

 

CARTA DO SUMO PONTÍFICE BENTO XVI PARA A PROCLAMAÇÃO DE UM ANO SACERDOTAL POR OCASIÃO DO 150º ANIVERSÁRIO DO DIES NATALIS DO SANTO CURA D’ARS

Amados irmãos no sacerdócio,

Na próxima solenidade do Sacratíssimo Coração de Jesus, sexta-feira 19 de Junho de 2009 – dia dedicado tradicionalmente à oração pela santificação do clero – tenho em mente proclamar oficialmente um «Ano Sacerdotal» por ocasião do 150.º aniversário do «dies natalis» de João Maria Vianney, o Santo Patrono de todos os párocos do mundo.[1] Tal ano, que pretende contribuir para fomentar o empenho de renovação interior de todos os sacerdotes para um seu testemunho evangélico mais vigoroso e incisivo, terminará na mesma solenidade de 2010. «O sacerdócio é o amor do Coração de Jesus»: costumava dizer o Santo Cura d’Ars.[2] Esta tocante afirmação permite-nos, antes de mais nada, evocar com ternura e gratidão o dom imenso que são os sacerdotes não só para a Igreja mas também para a própria humanidade. Penso em todos os presbíteros que propõem, humilde e quotidianamente, aos fiéis cristãos e ao mundo inteiro as palavras e os gestos de Cristo, procurando aderir a Ele com os pensamentos, a vontade, os sentimentos e o estilo de toda a sua existência. Como não sublinhar as suas fadigas apostólicas, o seu serviço incansável e escondido, a sua caridade tendencialmente universal? E que dizer da fidelidade corajosa de tantos sacerdotes que, não obstante dificuldades e incompreensões, continuam fiéis à sua vocação: a de «amigos de Cristo», por Ele de modo particular chamados, escolhidos e enviados?

Eu mesmo guardo ainda no coração a recordação do primeiro pároco junto de quem exerci o meu ministério de jovem sacerdote: deixou-me o exemplo de uma dedicação sem reservas ao próprio serviço sacerdotal, a ponto de encontrar a morte durante o próprio ato de levar o viático a um doente grave. Depois repasso na memória os inumeráveis irmãos que encontrei e encontro, inclusive durante as minhas viagens pastorais às diversas nações, generosamente empenhados no exercício diário do seu ministério sacerdotal. Mas a expressão utilizada pelo Santo Cura d’Ars evoca também o Coração traspassado de Cristo com a coroa de espinhos que O envolve. E isto leva o pensamento a deter-se nas inumeráveis situações de sofrimento em que se encontram imersos muitos sacerdotes, ou porque participantes da experiência humana da dor na multiplicidade das suas manifestações, ou porque incompreendidos pelos próprios destinatários do seu ministério: como não recordar tantos sacerdotes ofendidos na sua dignidade, impedidos na sua missão e, às vezes, mesmo perseguidos até ao supremo testemunho do sangue?

Infelizmente existem também situações, nunca suficientemente deploradas, em que é a própria Igreja a sofrer pela infidelidade de alguns dos seus ministros. Daí advém então para o mundo motivo de escândalo e de repulsa. O máximo que a Igreja pode recavar de tais casos não é tanto a acintosa relevação das fraquezas dos seus ministros, como sobretudo uma renovada e consoladora consciência da grandeza do dom de Deus, concretizado em figuras esplêndidas de generosos pastores, de religiosos inflamados de amor por Deus e pelas almas, de diretores espirituais esclarecidos e pacientes. A este respeito, os ensinamentos e exemplos de S. João Maria Vianney podem oferecer a todos um significativo ponto de referência. O Cura d’Ars era humilíssimo, mas consciente de ser, enquanto padre, um dom imenso para o seu povo: «Um bom pastor, um pastor segundo o coração de Deus, é o maior tesouro que o bom Deus pode conceder a uma paróquia e um dos dons mais preciosos da misericórdia divina». Falava do sacerdócio como se não conseguisse alcançar plenamente a grandeza do dom e da tarefa confiados a uma criatura humana: «Oh como é grande o padre! (…) Se lhe fosse dado compreender-se a si mesmo, morreria. (…) Deus obedece-lhe: ele pronuncia duas palavras e, à sua voz, Nosso Senhor desce do céu e encerra-se numa pequena hóstia». E, ao explicar aos seus fiéis a importância dos sacramentos, dizia: «Sem o sacramento da Ordem, não teríamos o Senhor. Quem O colocou ali naquele sacrário? O sacerdote. Quem acolheu a vossa alma no primeiro momento do ingresso na vida? O sacerdote. Quem a alimenta para lhe dar a força de realizar a sua peregrinação? O sacerdote. Quem a há-de preparar para comparecer diante de Deus, lavando-a pela última vez no sangue de Jesus Cristo? O sacerdote, sempre o sacerdote. E se esta alma chega a morrer [pelo pecado], quem a ressuscitará, quem lhe restituirá a serenidade e a paz? Ainda o sacerdote. (…) Depois de Deus, o sacerdote é tudo! (…) Ele próprio não se entenderá bem a si mesmo, senão no céu». Estas afirmações, nascidas do coração sacerdotal daquele santo pároco, podem parecer excessivas. Nelas, porém, revela-se a sublime consideração em que ele tinha o sacramento do sacerdócio. Parecia subjugado por uma sensação de responsabilidade sem fim: «Se compreendêssemos bem o que um padre é sobre a terra, morreríamos: não de susto, mas de amor. (…) Sem o padre, a morte e a paixão de Nosso Senhor não teria servido para nada. É o padre que continua a obra da Redenção sobre a terra (…) Que aproveitaria termos uma casa cheia de ouro, senão houvesse ninguém para nos abrir a porta? O padre possui a chave dos tesouros celestes: é ele que abre a porta; é o ecónomo do bom Deus; o administrador dos seus bens (…) Deixai uma paróquia durante vinte anos sem padre, e lá adorar-se-ão as bestas. (…) O padre não é padre para si mesmo, é-o para vós».

Tinha chegado a Ars, uma pequena aldeia com 230 habitantes, precavido pelo Bispo de que iria encontrar uma situação religiosamente precária: «Naquela paróquia, não há muito amor de Deus; infundi-lo-eis vós». Por conseguinte, achava-se plenamente consciente de que devia ir para lá a fim de encarnar a presença de Cristo, testemunhando a sua ternura salvífica: «[Meu Deus], concedei-me a conversão da minha paróquia; aceito sofrer tudo aquilo que quiserdes por todo o tempo da minha vida!»: foi com esta oração que começou a sua missão. E, à conversão da sua paróquia, dedicou-se o Santo Cura com todas as suas energias, pondo no cume de cada uma das suas ideias a formação cristã do povo a ele confiado. Amados irmãos no sacerdócio, peçamos ao Senhor Jesus a graça de podermos também nós assimilar o método pastoral de S. João Maria Vianney. A primeira coisa que devemos aprender é a sua total identificação com o próprio ministério. Em Jesus, tendem a coincidir Pessoa e Missão: toda a sua ação salvífica era e é expressão do seu «Eu filial» que, desde toda a eternidade, está diante do Pai em atitude de amorosa submissão à sua vontade. Com modesta mas verdadeira analogia, também o sacerdote deve ansiar por esta identificação. Não se trata, certamente, de esquecer que a eficácia substancial do ministério permanece independentemente da santidade do ministro; mas também não se pode deixar de ter em conta a extraordinária frutificação gerada do encontro entre a santidade objetiva do ministério e a subjetiva do ministro. O Cura d’Ars principiou imediatamente este humilde e paciente trabalho de harmonização entre a sua vida de ministro e a santidade do ministério que lhe estava confiado, decidindo «habitar», mesmo materialmente, na sua igreja paroquial: «Logo que chegou, escolheu a igreja por sua habitação. (…) Entrava na igreja antes da aurora e não saía de lá senão à tardinha depois do Angelus. Quando precisavam dele, deviam procurá-lo lá»: lê-se na primeira biografia.

O exagero devoto do pio hagiógrafo não deve fazer-nos esquecer o fato de que o Santo Cura soube também «habitar» ativamente em todo o território da sua paróquia: visitava sistematicamente os doentes e as famílias; organizava missões populares e festas dos Santos Patronos; recolhia e administrava dinheiro para as suas obras sócio-caritativas e missionárias; embelezava a sua igreja e dotava-a de alfaias sagradas; ocupava-se das órfãs da «Providence» (um instituto fundado por ele) e das suas educadoras; tinha a peito a instrução das crianças; fundava confrarias e chamava os leigos para colaborar com ele.

O seu exemplo induz-me a evidenciar os espaços de colaboração que é imperioso estender cada vez mais aos fiéis leigos, com os quais os presbíteros formam um único povo sacerdotal e no meio dos quais, em virtude do sacerdócio ministerial, se encontram «para os levar todos à unidade, “amando-se uns aos outros com caridade fraterna, e tendo os outros por mais dignos” (Rm 12, 10)». Neste contexto, há que recordar o caloroso e encorajador convite feito pelo Concílio Vaticano II aos presbíteros para que «reconheçam e promovam sinceramente a dignidade e participação própria dos leigos na missão da Igreja. Estejam dispostos a ouvir os leigos, tendo fraternalmente em conta os seus desejos, reconhecendo a experiência e competência deles nos diversos campos da atividade humana, para que, juntamente com eles, saibam reconhecer os sinais dos tempos» (Presbyterorum ordinis)

O Santo Cura ensinava os seus paroquianos sobretudo com o testemunho da vida. Pelo seu exemplo, os fiéis aprendiam a rezar, detendo-se de bom grado diante do sacrário para uma visita a Jesus Eucaristia. «Para rezar bem – explicava-lhes o Cura –, não há necessidade de falar muito. Sabe-se que Jesus está ali, no tabernáculo sagrado: abramos-Lhe o nosso coração, alegremo-nos pela sua presença sagrada. Esta é a melhor oração». E exortava: «Vinde à comunhão, meus irmãos, vinde a Jesus. Vinde viver d’Ele para poderdes viver com Ele».[14] «É verdade que não sois dignos, mas tendes necessidade!». Esta educação dos fiéis para a presença eucarística e para a comunhão adquiria um eficácia muito particular, quando o viam celebrar o Santo Sacrifício da Missa. Quem ao mesmo assistia afirmava que «não era possível encontrar uma figura que exprimisse melhor a adoração. (…) Contemplava a Hóstia amorosamente». Dizia ele: «Todas as boas obras reunidas não igualam o valor do sacrifício da Missa, porque aquelas são obra de homens, enquanto a Santa Missa é obra de Deus». Estava convencido de que todo o fervor da vida de um padre dependia da Missa: «A causa do relaxamento do sacerdote é porque não presta atenção à Missa! Meu Deus, como é de lamentar um padre que celebra [a Missa] como se fizesse um coisa ordinária!». E, ao celebrar, tinha tomado o costume de oferecer sempre também o sacrifício da sua própria vida: «Como faz bem um padre oferecer-se em sacrifício a Deus todas as manhãs!».

Esta sintonia pessoal com o Sacrifício da Cruz levava-o – por um único movimento interior – do altar ao confessionário. Os sacerdotes não deveriam jamais resignar-se a ver os seus confessionários desertos, nem se limitar a constatar o menosprezo dos fiéis por este sacramento. Na França, no tempo do Santo Cura d’Ars, a confissão não era mais fácil nem mais frequente do que nos nossos dias, pois a tormenta revolucionária tinha longamente sufocado a prática religiosa. Mas ele procurou de todos os modos, com a pregação e o conselho persuasivo, fazer os seus paroquianos redescobrirem o significado e a beleza da Penitência sacramental, apresentando-a como uma exigência íntima da Presença eucarística. Pôde assim dar início a um círculo virtuoso. Com as longas permanências na igreja junto do sacrário, fez com que os fiéis começassem a imitá-lo, indo até lá visitar Jesus, e ao mesmo tempo estivessem seguros de que lá encontrariam o seu pároco, disponível para os ouvir e perdoar. Em seguida, a multidão crescente dos penitentes, provenientes de toda a França, haveria de o reter no confessionário até 16 horas por dia. Dizia-se então que Ars se tinha tornado «o grande hospital das almas». «A graça que ele obtinha [para a conversão dos pecadores] era tão forte que aquela ia procurá-los sem lhes deixar um momento de trégua!»: diz o primeiro biógrafo.[21] E assim o pensava o Santo Cura d’Ars, quando afirmava: «Não é o pecador que regressa a Deus para Lhe pedir perdão, mas é o próprio Deus que corre atrás do pecador e o faz voltar para Ele». «Este bom Salvador é tão cheio de amor que nos procura por todo o lado».

Todos nós, sacerdotes, deveríamos sentir que nos tocam pessoalmente estas palavras que ele colocava na boca de Cristo: «Encarregarei os meus ministros de anunciar aos pecadores que estou sempre pronto a recebê-los, que a minha misericórdia é infinita». Do Santo Cura d’Ars, nós, sacerdotes, podemos aprender não só uma inexaurível confiança no sacramento da Penitência que nos instigue a colocá-lo no centro das nossas preocupações pastorais, mas também o método do «diálogo de salvação» que nele se deve realizar. O Cura d’Ars tinha maneiras diversas de comportar-se segundo os vários penitentes. Quem vinha ao seu confessionário atraído por uma íntima e humilde necessidade do perdão de Deus, encontrava nele o encorajamento para mergulhar na «torrente da misericórdia divina» que, no seu ímpeto, tudo arrasta e depura. E se aparecia alguém angustiado com o pensamento da sua debilidade e inconstância, temeroso por futuras quedas, o Cura d’Ars revelava-lhe o segredo de Deus com um discurso de comovente beleza: «O bom Deus sabe tudo. Ainda antes de vos confessardes, já sabe que voltareis a pecar e todavia perdoa-vos. Como é grande o amor do nosso Deus, que vai até ao ponto de esquecer voluntariamente o futuro, só para poder perdoar-nos!». Diversamente, a quem se acusava de forma tíbia e quase indiferente, expunha, através das suas próprias lágrimas, a séria e dolorosa evidência de quão «abominável» fosse aquele comportamento. «Choro, porque vós não chorais»: exclamava ele. «Se ao menos o Senhor não fosse assim tão bom! Mas é assim bom! Só um bárbaro poderia comportar-se assim diante de um Pai tão bom!».[27] Fazia brotar o arrependimento no coração dos tíbios, forçando-os a verem com os próprios olhos o sofrimento de Deus, causado pelos pecados, quase «encarnado» no rosto do padre que os atendia de confissão. Entretanto a quem se apresentava já desejoso e capaz de uma vida espiritual mais profunda, abria-lhe de par em par as profundidades do amor, explicando a inexprimível beleza de poder viver unidos a Deus e na sua presença: «Tudo sob o olhar de Deus, tudo com Deus, tudo para agradar a Deus. (…) Como é belo!»[28] E ensinava-lhes a rezar assim: «Meu Deus, dai-me a graça de Vos amar tanto quanto é possível que eu Vos ame!».[29]

No seu tempo, o Cura d’Ars soube transformar o coração e a vida de muitas pessoas, porque conseguiu fazer-lhes sentir o amor misericordioso do Senhor. Também hoje é urgente igual anúncio e testemunho da verdade do Amor: Deus caritas est (1 Jo 4, 8). Com a Palavra e os Sacramentos do seu Jesus, João Maria Vianney sabia instruir o seu povo, ainda que frequentemente suspirava convencido da sua pessoal inaptidão a ponto de ter desejado diversas vezes subtrair-se às responsabilidades do ministério paroquial de que se sentia indigno. Mas, com exemplar obediência, ficou sempre no seu lugar, porque o consumia a paixão apostólica pela salvação das almas. Procurava aderir totalmente à própria vocação e missão por meio de uma severa ascese: «Para nós, párocos, a grande desdita – deplorava o Santo – é entorpecer-se a alma», entendendo, com isso, o perigo de o pastor se habituar ao estado de pecado ou de indiferença em que vivem muitas das suas ovelhas. Com vigílias e jejuns, punha freio ao corpo, para evitar que opusesse resistência à sua alma sacerdotal. E não se esquivava a mortificar-se a si mesmo para bem das almas que lhe estavam confiadas e para contribuir para a expiação dos muitos pecados ouvidos em confissão. Explicava a um colega sacerdote: «Dir-vos-ei qual é a minha receita: dou aos pecadores uma penitência pequena e o resto faço-o eu no lugar deles». Independentemente das penitências concretas a que se sujeitava o Cura d’Ars, continua válido para todos o núcleo do seu ensinamento: as almas custam o sangue de Cristo e o sacerdote não pode dedicar-se à sua salvação se se recusa a contribuir com a sua parte para o «alto preço» da redenção.

No mundo atual, não menos do que nos tempos difíceis do Cura d’Ars, é preciso que os presbíteros, na sua vida e ação, se distingam por um vigoroso testemunho evangélico. Observou, justamente, Paulo VI que «o homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres ou então, se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas» (Evangelii nuntiandi) Para que não se forme um vazio existencial em nós e fique comprometida a eficácia do nosso ministério, é preciso não cessar de nos interrogarmos: «Somos verdadeiramente permeados pela Palavra de Deus? É verdade que esta é o alimento de que vivemos, mais de que o sejam o pão e as coisas deste mundo? Conhecemo-la verdadeiramente? Amamo-la? De tal modo nos ocupamos interiormente desta palavra, que a mesma dá realmente um timbre à nossa vida e forma o nosso pensamento?». Assim como Jesus chamou os Doze para estarem com Ele (cf. Mc 3, 14) e só depois é que os enviou a pregar, assim também nos nossos dias os sacerdotes são chamados a assimilar aquele «novo estilo de vida» que foi inaugurado pelo Senhor Jesus e assumido pelos Apóstolos.

A propósito disto, vale a indicação do decreto Presbyterorum ordinis: «Sabendo discernir se os espíritos vêm de Deus, [os presbíteros] perscrutem com o sentido da fé, reconheçam com alegria e promovam com diligência os multiformes carismas dos leigos, tanto os mais modestos como os mais altos». Estes dons, que impelem não poucos para uma vida espiritual mais elevada, podem ser de proveito não só para os fiéis leigos mas também para os próprios ministros. Com efeito, da comunhão entre ministros ordenados e carismas pode brotar «um válido impulso para um renovado compromisso da Igreja no anúncio e no testemunho do Evangelho da esperança e da caridade em todos os recantos do mundo». Queria ainda acrescentar, apoiado na exortação apostólica Pastores dabo vobis do Papa João Paulo II, que o ministério ordenado tem uma radical «forma comunitária» e pode ser cumprido apenas na comunhão dos presbíteros com o seu Bispo. É preciso que esta comunhão entre os sacerdotes e com o respectivo Bispo, baseada no sacramento da Ordem e manifestada na concelebração eucarística, se traduza nas diversas formas concretas de uma fraternidade sacerdotal efetiva e afetiva.[49] Só deste modo é que os sacerdotes poderão viver em plenitude o dom do celibato e serão capazes de fazer florir comunidades cristãs onde se renovem os prodígios da primeira pregação do Evangelho.

Amados sacerdotes, a celebração dos cento e cinquenta anos da morte de S. João Maria Vianney (1859) segue-se imediatamente às celebrações há pouco encerradas dos cento e cinquenta anos das aparições de Lourdes (1858). Já em 1959, o Beato Papa João XXIII anotara: «Pouco antes que o Cura d’Ars concluísse a sua longa carreira cheia de méritos, a Virgem Imaculada aparecera, noutra região da França, a uma menina humilde e pura para lhe transmitir uma mensagem de oração e penitência, cuja imensa ressonância espiritual há um século que é bem conhecida. Na realidade, a vida do santo sacerdote, cuja comemoração celebramos, fora de antemão uma viva ilustração das grandes verdades sobrenaturais ensinadas à vidente de Massabielle. Ele próprio nutria pela Imaculada Conceição da Santíssima Virgem uma vivíssima devoção, ele que, em 1836, tinha consagrado a sua paróquia a Maria concebida sem pecado e havia de acolher com tanta fé e alegria a definição dogmática de 1854».[50] O Santo Cura d’Ars sempre recordava aos seus fiéis que «Jesus Cristo, depois de nos ter dado tudo aquilo que nos podia dar, quis ainda fazer-nos herdeiros de quanto Ele tem de mais precioso, ou seja, da sua Santa Mãe».

À Virgem Santíssima entrego este Ano Sacerdotal, pedindo-Lhe para suscitar no ânimo de cada presbítero um generoso relançamento daqueles ideais de total doação a Cristo e à Igreja que inspiraram o pensamento e a ação do Santo Cura d’Ars. Com a sua fervorosa vida de oração e o seu amor apaixonado a Jesus crucificado, João Maria Vianney alimentou a sua quotidiana doação sem reservas a Deus e à Igreja. Possa o seu exemplo suscitar nos sacerdotes aquele testemunho de unidade com o Bispo, entre eles próprios e com os leigos que é tão necessário hoje, como o foi sempre. Não obstante o mal que existe no mundo, ressoa sempre atual a palavra de Cristo aos seus apóstolos, no Cenáculo: «No mundo sofrereis tribulações. Mas tende confiança: Eu venci o mundo» (Jo 16, 33). A fé no divino Mestre dá-nos a força para olhar confiadamente o futuro. Amados sacerdotes, Cristo conta convosco. A exemplo do Santo Cura d’Ars, deixai-vos conquistar por Ele e sereis também vós, no mundo atual, mensageiros de esperança, de reconciliação, de paz.

Com a minha bênção.     Vaticano, 16 de Junho de 2009.  BENEDICTUS PP.

 O CURA D’ARS E NOSSA SENHORA:  (Cardeal Ouellet: seu segredo e força).

Desde a infância. Ave-Marias.

Rezava o Angelus de manhã, ao meio-dia e à noite com seus paroquianos e peregrinos.

Fez uma capela em sua honra. Belíssima imagem de madeira dourada.

1º de maio de 1836: consagrou todos os habitantes de Ars a Maria concebida sem pecado: colocou o nome de todos num coração de prata dourada.

Rue de Bac. 1856: Ars. 1854: Dogma. 1858: Lourdes

Viúva do suicida: ramo de flores oferecidas a Nossa Senhora: se salvou.

CATECISMO SOBRE A SSMA VIRGEM:

É duas vezes nossa mãe: gerou-nos duas vezes: na encarnação e ao pé da cruz.

O coração dessa boa mãe é só amor e misericórdia; ela só deseja é ver-nos felizes. Basta só volvermo-nos para ela para sermos atendidos.

O Filho tem a sua justiça, a Mãe tem só o seu amor.

A Santíssima Virgem conserva-se entre seu Filho e nós. Quanto mais pecadores somos, tanto mais compaixão e ternura ela tem por nós. O filho que mais lágrimas custou a sua mãe é o mais caro ao coração desta. Uma mãe não corre sempre ao mais fraco e mais exposto? Um médico, num hospital, não tem mais atenção para os mais doentes?

A Ave-Maria é uma oração que nunca fatiga.

Quando as nossas mãos tocaram aromas, embalsamam tudo o que tocam; façamos passar as nossas preces pelas mãos da Santíssima Virgem, e ela as embasamará.

Eu penso que no fim do mundo a Santíssima Virgem estará bem tranquila; mas enquanto durar o mundo, ela será puxada para todos os lados. A SSma Virgem é como uma mãe que tem muitos filhos. Está continuamente ocupada em correr de um a outro.

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