Artigos, Notícias › 17/10/2020

Os Cristãos e a Política

O Evangelho (Mt 22, 15-21) nos convida a nos ocupar de um aspecto da vida cristã que fica, geralmente, às margens de nossa atenção durante a assembleia dominical: o aspecto político. Devemos estar convencidos de que o Evangelho não afasta os cristãos da política, mas antes quer que o cristão participe com especial responsabilidade e testemunho da construção do bem comum. O difícil é fundamentar no Evangelho este compromisso, isto é, como uni-lo ao compromisso religioso a fim de que não se perpetue aquela separação nefasta entre fé e vida, entre o tributo que devemos dar a Deus e o tributo que devemos dar a César.

A questão do tributo a César: Jesus responde com um surpreendente realismo político. O tributo a César deve ser pago, porque a efígie na moeda é sua; mas o homem, cada homem, traz em si mesmo outra imagem, a de Deus, e portanto é a Ele, e somente a Ele que cada um é devedor da própria existência. Os Padres da Igreja, inspirando-se no fato de que Jesus faz referência à efígie do imperador, gravada na moeda do tributo, interpretaram este trecho à luz do conceito fundamental de homem-imagem de Deus, contido no primeiro capítulo do Livro do Gênesis. Um autor anônimo escreve: “A imagem de Deus não está gravada no ouro, mas no gênero humano. A moeda de César é ouro, a de Deus é a humanidade… Portanto, concede a tua riqueza material a César, mas conserva para Deus a inocência singular da tua consciência, onde Deus é contemplado… Com efeito, César pediu que a sua imagem fosse gravada em cada moeda, mas deus escolheu o homem, que Ele mesmo criou, para refletir a sua Glória” . E Santo Agostinho recorreu várias vezes a esta referência nas suas homilias: “Se César reclama a própria imagem impressa na moeda – afirma – não exigirá Deus do Homem a imagem divina esculpida nele?” E ainda: “Do mesmo modo que se devolve a moeda a César, assim se restitui a Deus a alma iluminada e impressa pela luz da sua Face… Com efeito, Cristo habita no homem interior” ( Em. in Os., Salmo 94 ).

Discípulos dos fariseus e herodianos, favoráveis ao poder romano, fazem uma pergunta capciosa: “é permitido ou não pagar o tributo o César?”; Se dissesse sim: apareceria como colaborador da dominação romana. Se dissesse não: seria denunciado às autoridades romanas como subversivo.

Jesus percebe a armadilha. Pede uma moeda e pergunta: “De quem é essa imagem? Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

“Dai a César” não significa que a religião esteja confinada ao templo, nem que a ordem e o cuidado dos assuntos sociais e econômicos devam ser feitos à margem da lei divina, como se Deus não existisse. Jesus reconheceu a competência do poder civil e seus direitos, mas avisou: devem ser respeitados também os direitos superiores de Deus.

Jesus dá uma resposta cheia de profundidade divina, que soluciona com toda a exatidão o problema que lhe tinham proposto, mas ao mesmo tempo vai muito além do que lhe tinham perguntado. Não se limita ao sim ou ao não. Dai a César o que é de César, diz-lhes. Quer dizer, dai-lhe aquilo que lhe corresponde, mas não mais do que isso, porque o Estado não tem poder e domínio absolutos.

As autoridades públicas estão gravemente obrigadas a servir o bem comum sem buscar o proveito pessoal; a legislar e governar com o mais pleno respeito pela lei natural e pelos direitos da pessoa: em favor da vida desde o momento da sua concepção, que é o primeiro de todos os direitos; da família, que é a origem da sociedade; da liberdade religiosa; do direito dos pais à educação dos filhos… “Ai daqueles que fazem leis injustas!” (Is 10,1), clama o senhor pela boca do profeta Isaías. Rezar pelos que estão constituídos em autoridade é um dever de todos os cristãos, pois é muito grande a responsabilidade que pesa sobre eles.

Por sua vez, como cidadãos iguais aos outros, os cristãos devem ser homens e mulheres que cumprem escrupulosamente os seus deveres para com a sociedade, para com o Estado, para com a empresa em que trabalham… Esta fidelidade é para os cristãos um dever de consciência, pois diz respeito a prestações que se enquadram no seu caminho de santidade. O pagamento dos impostos justos, o exercício responsável do voto, a colaboração nas iniciativas que têm em vista o bem público, a intervenção na política quando a pessoa se sente chamada a isso…, são tarefas próprias de qualquer cidadão, mas no cristão tornam-se veículos para o exercício das virtudes da justiça e da caridade; são, portanto, meio de santificação.

Quando o cristão atua na vida pública, no ensino, em qualquer iniciativa cultural…, não pode ocultar a sua fé, pois “a distinção estabelecida por Cristo não significa, de modo algum, que a religião tenha que ser relegada ao templo – à sacristia -, nem que a ordenação dos assuntos humanos deva ser feita à margem de toda a lei divina e cristã” (São Josemaría Escrivá). Antes pelo contrário, os cristãos devem ser sal e luz no lugar onde se encontram, devem converter o mundo num lugar mais humano, habitável, onde os homens encontrem com facilidade o caminho que leva a Deus.

Os fiéis leigos cumprem “esta missão da Igreja no mundo, antes de tudo por aquela coerência da vida com a fé, pela qual se transformam em luz do mundo; pela honestidade em qualquer negócio, honestidade que atrai todos os homens para o amor da verdade e do bem e afinal para Cristo e a Igreja; pela caridade fraterna, pela qual participam das condições de vida, trabalho, dores e aspirações dos irmãos, dispondo insensivelmente os corações de todos para a ação salutar da graça…” (Concílio Vaticano II, A.A, nº13).

Dar a Deus o que é de Deus! Conseguiremos com o testemunho de uma vida coerente, sentindo-nos filhos de Deus, tanto na praça pública como na conversa amável na casa de alguns amigos, persuadidos de que só no seio da Igreja se guardam os valores que podem preencher o tremendo vazio moral e religioso que encontramos na sociedade. Uma sociedade sem esses valores está voltada para uma crescente agressividade e também uma progressiva desumanização. Deus não é uma estrela longínqua, inoperante, mas uma poderosa luz que dá sentido a todos os afazeres humanos.

Diante das tentativas de afastar Deus da vida dos homens contemporâneos na pressuposição que Ele diminua a sua liberdade e a responsabilidade, o Papa Bento XVI durante a recente visita apostólica à Alemanha, afirmou com renovado vigor: “Onde Deus está presente, há esperança e abrem-se perspectivas novas e, frequentemente, inesperadas que vão para além do hoje e das coisas efêmeras”. Como membro vivo e atuante nas nossas comunidades somos chamados a participar na vida e ação evangelizadora e missionária da Igreja. A Igreja no Brasil, nas suas diretrizes gerais, nos pede que todos devemos: “ Evangelizar, a partir de Jesus Cristo e na força do Espírito Santo, como Igreja discípula, missionária e profética, alimentada pela Palavra de Deus e pela Eucaristia, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, para que todos tenham vida, rumo ao Reino definitivo” (DGAE).

Jesus disse: “Vós sois o sal da terra, vós sois a luz do mundo”. Como cristãos devemos ser luz do mundo e sal da terra, para converter o mundo num lugar mais humano e mais divino, numa liberdade que se sabe responsável diante dos homens e diante de Deus. Dando a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.

Em Missa celebrada em setembro de 2013, o Papa Francisco assinalou que um bom católico deve empenhar-se na política e que o contrário não é um bom caminho para os fiéis.

O Santo Padre recordou que “a política – diz a Doutrina Social da Igreja – é uma das formas mais elevadas da caridade, porque serve ao bem comum. Eu não posso lavar as mãos, né? Todos devemos dar algo!”

Muitas vezes existe o hábito de somente falar mal dos governantes e criticar o que não vai bem: “Assiste-se ao noticiário na televisão, lê-se o jornal, e as críticas são contínuas. Fala-se sempre mal e contra!”.

Talvez, “o governante seja sim um pecador, como Davi, mas eu devo colaborar com a minha opinião, com a minha palavra, e também com a minha correção” porque todos “devemos participar do bem comum!”. E se “muitas vezes ouvimos: que ‘um bom católico não entra na política’, isto não é verdade, esse não é um bom caminho”.

“Um bom católico não se envolve na política. Isso não é certo. Este não é um bom caminho. Um bom católico deve empenhar-se na política, oferecendo o melhor de si, para que o governante possa governar. Mas, qual é a melhor coisa que podemos oferecer aos governantes? A oração! Isso é o que diz Paulo: ‘A oração por todos os homens e pelo rei e por todos os que estão no poder’. ‘Mas, Padre, aquela é uma má pessoa, tem que ir para o inferno…’.” Reza por ele, reza por ela, para que possa governar bem, para que ame o seu povo, para que sirva ao seu povo, para que seja humilde ”

” Um cristão que não reza pelos seus governantes não é um bom cristão! “. Continuou dizendo que é necessário rezar para que se convertam.

O Papa, assinala a Rádio Vaticano, refletiu sobre a Carta de São Paulo a Timóteo em que lhe pede rezar pelos governantes. Quem governa, disse,” deve amar o seu povo “, porquê, “um governante que não ama não pode governar: no máximo poderá disciplinar, colocar um pouco de ordem, mas não governar”. O Santo Padre recordou o exemplo de Davi, como ele amava o seu povo, tanto que depois do pecado cometido pede ao Senhor que não castigue o povo, mas ele mesmo. Assim,” as duas virtudes de um governante “são o amor pelo povo e a humildade.

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